Guia da Semana

Educação alimentar vem do berço

Pesquisa da Sociedade Brasileira de Pediatria mostra os maus hábitos alimentares dos pequenos. Saiba o que pode e o que não deve ser introduzido na dieta infantil

Foto: Getty Images


Quem vê um neném todo melecado de chocolate ou iogurte sempre acha fofo e até tira uma foto. Porém, isso mostra um hábito alimentar inadequado que faz parte da realidade dos brasileiros de todas as classes sociais desde o berço. Segundo uma pesquisa feita pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que avaliou a alimentação dos pequenos de 4 a 12 meses de três cidades (Curitiba, São Paulo e Recife), bebês que deveriam somente tomar leite materno ou fórmulas infantis consomem leite de vaca integral e, além disso, produtos industrializados que são extremamente proibidos antes de 1 ano de idade.
 
Para avaliar as práticas e o consumo alimentar de crianças saudáveis de diversas realidades, uma equipe de cinco especialistas analisou as anotações feitas pelas mães, que registravam tudo o que o bebê comia durante sete dias consecutivos. Por meio desse estudo, foi possível observar que 50,3% dos pequenos já não recebiam mais leite materno. Além disso, a alimentação complementar à amamentação, que deveria ser incluída somente após os seis meses de idade, foi antecipada na maioria dos casos. De acordo com a pesquisa, quase 15% dos bebês entre 4 e 6 meses comem macarrão instantâneo e 20% consomem pratos prontos. Entre as crianças de 6 a 12 meses, 30% tomam refrigerantes e sucos artificiais.

Falhas precoces

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Segundo a colaboradora do departamento científico de nutrologia da SBP e uma das autoras do estudo, Fabíola Suano, o erro já começa com a substituição precoce do leite materno, o que pode aumentar o risco de desenvolvimento futuro de doenças crônicas. "Somente a partir dos seis meses a criança pode receber outros alimentos, que é a chamada alimentação complementar", explica. De acordo com a especialista, essa complementação deveria acontecer primeiro com frutas. Depois, devem ser introduzidas papas de legumes com carne, em uma consistência de purê. Aos poucos, a mãe deve aumentar o número e o tipo de alimentos que a criança deve receber, até que com 10 a 12 meses, ela já não precisa mais preparar uma comida diferente e o bebê entra na alimentação da família.

Para a especialista, a má qualidade da nutrição infantil é causada por vários fatores. Em primeiro lugar estão os modelos familiares e a experiência de vida dos pais, que não têm uma alimentação saudável, já que 40% da população adulta brasileira está com excesso de peso. Além disso, as mães são influenciadas pela mídia, que tem uma oferta muito grande de alimentos ricos em gordura, açúcar e sal. A consulta com um pediatra fica como a última opção. "A mãe busca informações em lugares impróprios e oferece ao bebê desde muito cedo uma alimentação inadequada", diz. Outro fator é a correria do dia a dia e a rotina de trabalho. "Hoje, as mães não têm a prática de cozinhar todos os dias. A mulher não tem a mesma expertise na cozinha e fica mais fácil oferecer alimentos prontos".

Olha o aviãozinho

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Na hora de preparar a papinha, muitas dúvidas surgem, e nem sempre os pais contam com um auxílio profissional adequado. Por isso, é preciso ter bom senso. De acordo com especialistas, o ideal é não dar sal, açúcar e nem temperos prontos antes de 1 ano de idade. O que pode acrescentado com traquilidade são os temperos naturais, como cebola picadinha, salsinha e cebolinha, mas sempre com moderação. O óleo vegetal também não deve ser utilizado para refogar a papa, pois ao ser esquentado, transforma-se em uma gordura ruim. Antigamente, o ovo e o peixe foram excluídos da comidinha do bebê por causa do risco de alergia, mas hoje a orientação mudou.

"A partir do sexto mês de vida, já é possível dar ovo bem cozido, por causa do risco de salmonela. Não existem alimentos mais alergênicos. A recomendação agora é que todos possam ser introduzidos na alimentação complementar do bebê. A única dica é que seja um de cada vez, para que, se a criança tenha alguma reação alérgica, você observe e não introduza mais aquele alimento", afirma Fabíola. "A papa deve ser uma mistura múltipla. Tem que ter todos os grupos de nutrientes, como, por exemplo, arroz, batata, feijão, folhas, ovo e carne cozida", ensina. Substâncias para engrossar a papinha, como maizena e polvilho, não devem ser colocadas.

Ela afirma que a partir dos seis meses de idade o ideal é que toda papa contenha carne. "É bom que o neném consuma entre 60 e 70g por dia de carne vermelha, que é fonte de ferro e zinco, nutrientes importantes para o desenvolvimento dos pimpolhos. Por isso, a carne deve ser oferecida pelo menos três por semana. Nos outros dias, pode combinar com frango ou peixe", orienta. Por isso, o vegetarianismo infantil é bastante arriscado. "A criança vegetariana tem que ter um acompanhamento nutricional rigoroso, para que isso não prejudique o desenvolvimento. Caso contrário, ela vai ter prejuízos e uma série de carências nutricionais",alerta Fabíola.

Quanto às frutas, todas podem ser utilizadas. "Não existe nenhuma restrição, mas as frutas têm que ser bem lavadas se forem consumidas com casca, para eliminar possíveis resíduos e contaminações", explica a médica. Segundo Fabíola, é preferível dar a fruta em detrimento ao suco. "A criança deve tomar no máximo 100ml de suco por dia", diz. Refrigerantes, bolachas recheadas e outras porcarias guloseimas que a criançada adora não deveriam nunca ser introduzidas na alimentação, mas como isso é difícil, devem ser de uso esporádico.

Bom senso

"Tranqueira todos nós comemos. Quanto mais cedo você der esse tipo de alimento, mais cedo o seu filho vai comer de maneira inadequada. Quanto mais você puder postergar, melhor. Nada deve ser proibido. Os trabalhos científicos traduzem uma verdade, mas que não é absolutamente uma prática", afirma Ary Lopes Cardoso, nutrólogo e pediatra responsável pela unidade de Nutrologia do Instituto da Criança. Para ele, há três mandamentos para se criar bem um filho. "O primeiro é não compará-lo com nenhuma tabela e nem com nada. O segundo é usar o bom senso. O terceiro é fazê-lo morar na casa dos pais, ou seja, a obedecer às regras da casa. São os pais, com orientação do médico, que devem definir o que é bom para os filhos", diz.

Outro fator importante é manter o leite materno até os dois anos de idade, pois através dele a mãe passa toda a defesa de seu organismo para o nenê. "Alguns estudos mostram que a introdução de glúten (trigo, aveia, centeio e cevada) enquanto o aleitamento materno é processado preveniria contra a doença celíaca (patologia que afeta o intestino delgado) em indivíduos geneticamente predispostos", diz Roseli Sarni, presidente do departamento de nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.

O importante é que os pais saibam que uma alimentação saudável para o bebê é fundamental, porque é ela que vai determinar o desenvolvimento ou a prevenção de doenças, tanto em curto quanto em longo prazo. "Nessa fase, a criança está aprendendo a comer. Então, um neném que está acostumado a comer muito sal, açúcar e gordura vai ser um adulto que vai preferir esses alimentos durante a vida toda e, por isso, vai ter muito mais chance de ter doenças", alerta Fabíola Suano. A especialista ainda diz que é muito importante fazer uma avaliação nutricional na consulta pediátrica. "O pediatra deve sempre ter tempo e se preocupar com a orientação sobre alimentação. E essa orientação começa quando mãe está grávida, estimulando a comer alimentos saudáveis na gestação".

Tabela de idade de introdução dos alimentos elaborada pela Drª. Kátia Baptista, gastropediatra e especialista em nutrição infantil

Atualizado em 6 Set 2011.

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