Guia da Semana

Eu quero. Não quero mais

Com picos extremos de humor, o transtorno bipolar faz com que a pessoa vá do céu ao inferno emocional

Fotos: Gettyimage


Diana Brito tem 26 anos e é estudante de teatro. Desde pequena sofria com as intensas e frequentes variações de humor. "Às vezes ficava calada, sozinha, não brincava com outras crianças, mas em outros momentos eu era um vulcão, inquieta, brigona, enérgica. Lembro que uma vez pedi de presente de aniversário a minha mãe algo muito incomum para uma criança, pedi para ser feliz". Tentou o primeiro suicídio aos 9 anos. Começou a fazer terapia, mas logo desistiu. Aos 15 anos, tentou o segundo.

Histórias como as de Diana são comuns entre os portadores do transtorno bipolar. De acordo com o médico psiquiatra César de Moraes, a doença psiquiátrica - que atinge 1% da população - se manifesta normalmente ainda na infância ou adolescência. De causa genética e crônica, demanda tratamento por toda a vida.

"Oscilações extremas de humor, alternando sintomas depressivos, em certos períodos e, em outros, euforia e desinibição", descreve César. É assim que um bipolar se sente. Em momentos de crises de depressão, é comum a pessoa pensar em cometer atos extremos, como o de Diana, e tentar o suicídio.

O primeiro diagnóstico errado: depressão

Gustavo Domit passou por 53 médicos antes de chegar ao tratamento correto. "Minha depressão foi diagnosticada de forma errada, como depressão reativa por vários eventos ruins que aconteceram na minha vida. O erro foi agravado pela medicação que me deram. Eu não sabia e persisti no tratamento sem orientação médica adequada por longos oito anos", relata.

Antes do diagnóstico correto da doença é comum que o transtorno bipolar seja confundido com uma depressão comum. O consumo incorreto de antidepressivos pelos bipolares agrava a situação e aumenta a intensidade das crises de ansiedade e euforia.

Os sintomas variam conforme o tipo do distúrbio bipolar. O tipo I apresenta episódios de mania (termo médico para euforia) grave alternados com o depressivo. Já o tipo II, períodos menos graves de euforia e depressão. Normalmente, os sintomas do bipolar II são menos intensos do que o bipolar I e, por isso, são os mais confundidos com problemas de comportamento.

Dificuldade para se relacionar socialmente



"As variações de humor geram forte impacto nos relacionamentos familiares e sociais, já que os sintomas cursam com frequentes irritações, afeta as relações com os colegas e com os familiares, altera o sono e causa queda de desempenho escolar e intolerância" explica Moraes.

A instabilidade e a incapacidade de trabalhar sempre na mesma intensidade afetam negativamente o trabalho dos bipolares. "Em determinadas épocas temos ideias maravilhosas, começamos milhares de coisas ao mesmo tempo, mas o que se vê na maioria dos casos é que isso de nada adianta, pois nada é levado até o final", conta Gustavo.

Diana foi afastada do emprego pelo próprio INSS e há oito anos tenta terminar os estudos na universidade. "Em depressão não conseguia fazer os trabalhos acadêmicos nem mesmo ir às aulas, em euforia não mantinha um raciocínio pois os pensamentos eram muitos e desconexos", explica.

Ter um relacionamento amoroso também é difícil para um bipolar. A inconstância do humor e a irritação geram conflitos além do comum numa relação. "Em euforia, eu amo com uma intensidade louca, e na depressão já não quero mais a pessoa", diz Diana.

O melhor relacionamento de Gustavo foi com uma bipolar. "De alguma forma, vemos a pessoa além dos sintomas, conseguimos ver o que é da doença e o que é da pessoa". Apesar de complicado, não é impossível estar com alguém que não tenha bipolaridade. O namoro de sete anos de Diana comprova.

" Eu sou a mulher maravilha"

Nos estados de intensa agitação, é comum o bipolar se achar mais inteligente, dotado de grandes talentos e genialidade. Além disso, são frequentes os sentimentos de grandeza e riqueza. Muitos bipolares, como Paola Dias, se queixam da compulsão por compras. Diagnosticada como bipolar há seis anos, tem o nome sujo até hoje por não conseguir controlar seus gastos.

A crise de euforia pode ocasionar também ataques de agressividade e hipersexualidade, acompanhados de desejos de realizar atos em público que a pessoa não faria em seu estado normal. Diana teve um surto aos 19 anos, enquanto assistia a um show.

"Resolvi tirar a roupa e ficar seminua, fazendo o discurso de que todos deveriam retirar as máscaras, as vestimentas e numa lembrança a Luz Del fogo, bradei 'Todo mundo nu'. Sentia que usar roupas era uma hipocrisia", relata. Avaliando hoje o episódio, sete anos depois, a estudante afirma que não teria a mesma atitude se não estivesse em crise.

Pré-julgamentos só atrapalham

Dificilmente compreendidos e aceitos, os bipolares enfrentam também preconceito que acentuam ainda mais suas crises.  "A situação mais difícil  é quando ocorre o pré-julgamento e a condenação de alguns. Não tenho ainda emocional para lidar com isso. A irritabilidade e a agressividade chegam sem avisar e acabo sendo intolerante ao extremo", conta W.

O relato do consultor de vendas de 38 anos, que preferiu não se identificar, é semelhante a dos outros bipolares. E assim como a maioria, o tratamento no decorrer dos anos tem sido essencial para manter sua estabilidade e melhorar seus relacionamentos.

O tratamento e o começa da estabilidade



"O tratamento é realizado com medicamentos, os chamados estabilizadores de humor, apoio psicoterápico e orientação familiar", explica César de Moraes. O médico psiquiátrico ressalta ainda que os estabilizadores de humor servem tanto para a fase aguda, quanto para a prevenção de recaídas. É necessário que o acompanhamento do especialista seja mantido com frequência já que a medicação pode necessitar ser alterada com o tempo.

Para Gustavo Domit, a diferença é notável no decorrer dos anos de tratamento. A crises surgem ainda de vez em quando, mas com menor intensidade e com menos prejuízos sociais e econômicos . "Muitos se queixam da dependência dos remédios, como se fosse uma espécie de amarra, uma limitação. No meu caso é diferente, pois tenho pleno conhecimento de que assim ganho mais do que perco, que minha qualidade de vida é melhor", afirma.

Além da medicação, Diana teve que mudar e melhorar também seus hábitos. Delimitou um horário certo para dormir, pratica atividades físicas regularmente, não consume álcool, mantém uma alimentação rica em Ômega 3, não se expõe a momentos de estresse e reserva momentos de lazer. Tudo isso contribuiu para que hoje ela esteja estável e de volta à faculdade de teatro.

Atualizado em 1 Dez 2011.

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