Guia da Semana

Hora sagrada

Nove entre dez mães queixam-se que os filhos não comem direito. Na coluna desta semana, a chef Rosa Fonseca explica porque isso acontece e ensina formas de lidar com a situação

Foto: Getty Images

"Eu quero chicória! Eu quero!! EU QUEROOO!!!" O pedido, que virou filme publicitário, ironiza o improvável. Nove entre dez mães queixam-se que os filhos não comem verduras, peixes, frutas e legumes. Há casos extremos, como o da minha irmã, que não comia nem pizza. Ombros e joelhos pareciam saltar de seu corpo. Tanta preocupação, guerras travadas à mesa e, 20 anos depois, vive às brigas com a balança.

Imbuídos da crença de que crianças não têm a capacidade de decidir o quê e quanto comer, pais preocupam-se equivocadamente com a alimentação da prole. A capacidade inata de regular o consumo alimentar, chamada body's wisdom (ou sabedoria corporal), que consiste em um instinto natural de preservação da espécie e sobrevivência, está presente em todos os seres vivos. É por causa desse instinto que um lobo recém-nascido, ao ser criado junto a coelhos, nunca se alimentará de cenouras.

Nos humanos essa sabedoria é mais sensível nos primeiros anos de vida. Por isso, criança não morre de fome com comida na frente. Com o passar dos anos, em virtude de nossas complexas dinâmicas sociais, os impulsos instintivos são confundidos por apelos emocionais. Anorexia é doença de gente grande: é preciso tempo para acumular bagagem psíquica. Entendo que uma educação alimentar só é efetiva quando ensina a equilibrar essa tensão.

Se uma criança come para deixar a mãe feliz ou para ganhar um chiclete, o faz pelos motivos errados. Aprenderá que a aprovação dos outros depende do quanto come ou que comida deve ser usada como autopremiação. Exemplos de uma educação alimentar às avessas.

Quando o cordão umbilical é cortado, ganhamos a autonomia de comer e o poder de aceitar e rejeitar alimentos de acordo com nosso apetite e preferências. Se a felicidade da família depende do que um menino de 4 anos come, a confusão está armada. Por que os pais podem decidir o que a criança vai comer, mas é ela quem decide o que não vai comer. Percebendo a importância das refeições, encontra nela a hora ideal de enfrentá-los, chamar atenção, afirmar sua autonomia e testar seu poder. Nem aviõezinhos, nem chantagens, nem castigos, nem sobremesa, absolutamente nada a fará comer se não quiser ceder.

Cair nesse jogo é o maior pepino. Então, não force uma criança a comer. Manter o apetite é a melhor estratégia: se ela não comeu nessa refeição, estará com fome na próxima. Sei que parece terrível dizer a uma mãe para deixar sua cria com fome. Mas asseguro que uma criança saudável resistirá à inanição por quatro horas sem sucumbir à morte. E resistirá a mais quatro horas olhando um bife sem tocá-lo para ganhar uma batalha de nervos. Portanto, fique com o primeiro cenário.

Mas não dê doces a quem não almoçou meia hora depois. Quem decide o que e quando a criança come são os pais. Ela só pode decidir o que não come. E não fique perguntando o que seu filho quer para o jantar. É uma decisão grande para um ser tão pequeno. Faça o que achar melhor e o deixe escolher entre as opções disponíveis.

Aconselho aos pais a fazerem da refeição o momento mais prazeroso que puderem. Se uma discussão à mesa tira o apetite de um adulto, por que a natureza dos pequenos seria diferente?  Não só é semelhante como elas ainda nos imitam. Sugiro aproveitar a paternidade para reformular sua rotina alimentar se necessário. Em uma família sem qualquer disciplina alimentar, por que a criança teria? Você acredita que seu filho será um comedor voraz de verduras se os adultos da casa nunca as comem?

Crianças são curiosas e se entediam facilmente. É natural que se interessem mais em brincar do que em sentar-se e mastigar. A regra é: diga não ao tédio alimentar e torne o ato de comer interessante. Mostre diferentes grãos, frutas e verduras, diga ao pequeno todos os nomes e de onde vêm. Fale sobre pratos que elas não conhecem. Conte sobre os nutrientes e para que servem. Mostre livros ilustrados sobre o funcionamento do corpo: as crianças adoram saber como as coisas funcionam!

Se puder, faça uma pequena horta ou pomar com seus filhos. Quem já não ficou encantado com o primeiro broto de um pé de feijão plantado no algodão? Leve o pequeno à uma feira (e aproveite para levar sua criança interior também). Peça para ele ajudar nas compras, escolhendo os legumes da semana. Desfolhe livros de culinária e elejam como serão preparados, de preferência a quatro mãos. É claro que seu filho vai querer experimentar!

Se a criança for pequenina, sublime a sujeira e deixe que ela descubra os alimentos do seu jeito, que geralmente é espremendo-os entre os dedos e batendo em algo pra ver que som faz antes de levar à boca. Crianças comem até barro, se envolvidas de forma lúdica. A farra deve ampliar o interesse e a consciência da criança sobre a comida. Distraí-la com uma brincadeira, para socar comida garganta à dentro sem que ela se dê conta, é uma estratégia muito diferente.

Ninguém deveria aprender a mastigar no piloto automático. Na hora de comer, desligue a TV e evite estímulos que atrapalhem a concentração. As melhores refeições são aquelas em que nos entregamos ao prazer da degustação e da interação. Isso inclui lanches, que não são proibidos; pelo contrário. Devemos nos alimentar em pequenas porções, de quatro em quatro horas, o que melhora o metabolismo, permitindo ao corpo funcionar em 100% das potencialidades. Lanche só é sinônimo de trash food se quiserem.

Os pais devem ofertar alimentos saudáveis, novos e variados, sem se frustrarem com os nãos. A mente apavora o que não é velho. Estudos indicam que precisamos comer algo novo pelo menos sete vezes para que o nosso cérebro passe a entendê-lo como algo familiar e acolhedor.

O mesmo alimento muda de sabor e textura dependendo que como é preparado. Uma criança pode amar purê e odiar batatinha ao vinagrete. Então, experimente. Faça bolo de cenoura, suflê de cenoura, suco com cenoura e... diga à criança do que foi feito! É possível que a aversão à cenoura desapareça. Se não, pelo menos ela saberá que gosta de alguns pratos com cenoura. Isso não é o mesmo que disfarçar alimentos para a criança não saber o que está comendo. Porque, mesmo que os pais consigam fazer a criança deglutir algo, não criam nela o hábito da boa alimentação.

Por fim, não espere que criança coma muito. Elas comem pouco, porque pesam pouco. Se comem só metade do prato, então, por que colocar tanta comida? Os pais se frustram e a criança fica pressionada. Existem apenas duas fases em que a renovação celular é tão intensa que justifica a superalimentação: na fase lactente e na puberdade. É esperado que um bebê cheio de dobrinhas torne-se uma criança esguia.

Sugiro aos pais experimentarem servir refeições só com vegetais variados, como um gratin de legumes. Porque se houver macarrão e legumes, elas se saciarão com a massa e rejeitarão o resto. Com o gratin, terão que descobrir quais legumes gostam. E assegure-se de que não estejam com sede, oferecendo água e sucos naturais ao longo do dia. Um copão de refrigerante enche o estômago de qualquer criança!

É oportuno saber que, na infância, as recepções gustativas de acidez e amargor são muito proeminentes. Por isso, crianças geralmente odeiam verduras, que lhes parecem muito mais ácidas e amargas. É um mecanismo natural de defesa, já que alimentos estragados apresentam amargor. A boa notícia é, conforme nosso corpo se fortalece, o palato muda. Por isso, é fundamental que os pais sejam persistentes. E daí se aos 3 anos alguém odeia brócolis? Aos 11, pode redescobrí-lo.

E nada como uma apresentação apetitosa. Pense em arroz com pescada grelhada e couve flor cozida, com suco de melão e manjar de coco. Qual é o problema do menu? É uma variação e tanto! Gostar de pratos coloridos faz parte da nossa sabedoria corporal, pois diferentes vitaminas encontram-se em alimentos de diferentes cores. Não tenha preguiça de colorir e enfeitar o prato. Se faltar imaginação ou tempo, peça ajuda aos pequenos: eles terão ideias e disposição de sobra para desenhar com comida. Minha sopa preferida era a de letrinhas, porque gostava de ver as palavras se formando a cada colherada.

Educar exige esforço, porque ninguém dá o que não tem. Para ensinar, é preciso ser primeiro aprendiz. Mas ficamos tão surdos à sabedoria corporal (para não citar outras vozes interiores). Ela grita, nos deixa doentes e nem assim reaprendemos a ouví-la.

Buscamos em informações duvidosas e conflitantes a segurança perdida sobre o que comer. O homem pré-histórico não tinha TV, nem internet e comeu certo o suficiente para a humanidade continuar. Não que devamos desencanar e não prestar a menor no que engolimos. Para ouvir a sabedoria interior, não deve haver tensão, mas deve haver atenção.

O que se aprende à mesa? Bem mais que bons modos. A mesa é um tubo de ensaio no qual temos, diariamente, a oportunidade de lidar com uma série de coisas que moram dentro de nós (as mais decisivas para sermos felizes). Deus abençoe o pão-nosso de cada dia.

Quem é a colunista: Com formações em Publicidade e Gastronomia, Rosa Fonseca é chef de cozinha, professora e colunista.

O que faz: Trabalhou em restaurantes como o Félix Bistrot e o Beth Cozinha de Estar. Hoje, atua como personal chef.

Pecado gastronômico: Chocolate e queijo da serra.

Melhor lugar do Brasil: Minha casa.

Fale com ela: rf_contato@yahoo.com.br

Atualizado em 6 Set 2011.

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