Guia da Semana

Laços de amor

Adolescentes contam suas histórias e mostram que adoção não é sinônimo de problemas na puberdade

Foto: Getty Images


Aos seis meses Carla chegou à casa do casal Maria Souza e José Wagner. Na época, Maria havia perdido um bebê e sonhava em ser mãe. Então, a assistente social Célia Ferreira da Silva, parente da família, providenciou a adoção da menina. Hoje, aos 17 anos, Carla diz que não tem nem vontade de conhecer seus pais biológicos. A jovem é extremamente feliz e fala abertamente sobre sua história. "Eu nunca tive problema por ser adotada. Todos meus amigos já sabem. Sempre que me perguntam eu conto tranquilamente", diz.

Carla conta que desde pequena sua mãe explicava sobre a sua adoção de forma natural. "Ela dizia que eu era filha de coração. Falava que eu não tinha nascido dela, mas que era minha mãe da mesma forma. Conforme eu fazia perguntas sobre o assunto, ela esclarecia minhas dúvidas para eu nunca ter problemas com isso", relembra. Assim, a garota sempre teve uma convivência familiar saudável e hoje lida muito bem com a sua trajetória de vida. "Quando eu falo que sou adotada, ninguém acredita, pois dizem que sou muito parecida com meu pai", brinca.

Convivência harmônica

Foto: Arquivo Pessoal

Carla Monteiro e seus pais adotivos, José Wagner e Mara Souza.

A história de Carla comprova que há diversos filhos adotados profundamente integrados no seu contexto familiar. "De um modo geral, ainda existe uma ideia de que as adoções são problemáticas. Como o adolescente adotivo não está dentro daquela forma natural de concepção, acredita-se que ele pode ter dificuldades de relacionamento. Então qualquer problema que aconteça, a primeira associação que vem é o fato da adoção. Isso não é verdade, pois existem diversos jovens que não são adotados e apresentam dificuldades semelhantes", explica o psicólogo clínico de crianças e adolescentes Luiz Schettini Filho, que é autor de autor de cinco livros sobre o tema, entre eles Pedagogia da Adoção.

Mas apesar da pessoa adotada enfrentar problemas corriqueiros como qualquer outra, ela tem uma peculiaridade na sua história, que é a sua origem no sentido biológico. "Isso tem um certo peso psicológico, apesar de que a parentalidade se constrói em cima uma relação de afeto. O indivíduo que nasceu da barriga de uma outra mulher tem que entender isso de forma adequada, para não se sentir diferente e construir uma ideia de inferioridade", alerta. De acordo com Schettini, a criança adotada precisa tomar conhecimento de sua origem tão cedo quanto possível. "A idade melhor para dizer objetivamente sobre essa questão é entre 2 a 3 anos no máximo", diz.

Para o psicólogo, transmitir a história de origem desde a base é o grande trunfo para se construir uma relação familiar harmônica. "Os pais devem falar de uma maneira muito informal. Em geral, a criança não vai contestar quando for muito pequena. Mas, sem dúvida, quando for maior, ela vai voltar ao assunto e vai fazer perguntas. E aí os pais adotivos devem passar todas as informações disponíveis", alerta. Além disso, na adolescência é muito comum querer conhecer os pais biológicos. Se for possível, os pais têm que ajudar o filho nessa busca. "A negação é um empecilho a uma convivência saudável", afirma.

O próprio psicólogo também adotou cinco filhos. Hoje, aos 74 anos, ele fala que revelar a verdade desde o acolhimento da criança é o segredo de uma boa integração familiar. "Quatro filhos já saíram de casa e têm suas vidas. O quinto tem 11 anos e é especial. A mãe morreu no parto e, por isso, ele nasceu com sequelas neurológicas muito graves. Com exceção deste, que não tem condição de ter a informação a respeito da adoção, os outros souberam desde muito cedo. Hoje são pessoas adultas e nunca isso se constituiu um empecilho à felicidade. Sempre conversaram abertamente sobre o assunto e, atualmente, participam de movimentos a favor da adoção", relata.

Cuidado duplo

Foto: Arquivo Pessoal

Gabriele Resende e Iranete Miranda, sua mãe adotiva

Assim como Carla, Gabriele Resende, 12 anos, também foi adotada, porém seu caso é um pouco diferente. Hoje, a garota tem duas mães, a biológica e a adotiva. "Às vezes as pessoas perguntam de quem eu gosto mais. Então eu falo que gosto das duas da mesma forma", conta. Quando a mãe de Gabriele engravidou, trabalhava na casa de Iranete Miranda. Depois de acompanhar toda a gravidez, Iranete se encantou com o bebê. "Quando eu nasci, minha mãe adotiva começou a ter muito amor por mim. Então, eu comecei chamá-la de mãe e passei a dormir na casa", relata Gabriele.

Com o passar do tempo, a menina não conseguia mais ficar distante dos pais adotivos. Gabriele conta que quando tinha 7 anos, sua mãe biológica a tirou dos cuidados de Iranete e a levou para a casa dela. "Eu fiquei doente e entrei em depressão. Eu chorava muito de saudades. Então ela viu que eu não conseguia mais ficar longe da minha mãe adotiva e me devolveu", lembra. Hoje, Iranete tem a tutela de Gabriele e já está providenciando a adoção efetiva. Às vezes, ela visita sua mãe biológica, mas é a adotiva que assumiu todas as responsabilidades.

Tanto Carla quanto Gabriele são categóricas ao afirmar que querem adotar um filho no futuro. Para quem pensa da mesma forma, Carla dá um conselho: "é importante começar a contar sobre a adoção quando a criança ainda for bem pequena. Da mesma forma que fizeram comigo, eu faria com meus filhos", diz. "O melhor é contar aos poucos e, quando a criança chegar em uma idade que já consiga entender, os pais devem explicar a verdadeira situação".

Atualizado em 6 Set 2011.

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