Guia da Semana

O choque do novo (e do velho também)

A adaptação de quem sai de uma cidade pequena para morar na metrópole pode ser mais difícil do que parece

Por Fabrício Andrade

São Paulo/Stck.Xchng

Se você nasceu, cresceu e envelhece em uma cidade grande, pare de ler esta coluna. Você não sabe o que é mudar para cá. Mas se você, como eu, passou a maior parte da sua vida no silêncio pacato de uma cidadezinha qualquer - bem, talvez seja melhor parar por aqui também. Eu odeio pasto e vaca. E também acho concreto um troço de muito mau gosto. Mas se isso tudo faz algum sentido para você, então me acompanhe.

Mudei para São Paulo há dois anos. Já havia morado alguns meses na casa de um parente, mas, como um banho gelado, a cidade pedia que eu chegasse aos poucos. O choque é maior do que os paulistanos imaginam e os recém-chegados demonstram. Digo "choque" porque é a melhor definição para esse encontro. Eu adorava a metrópole tanto quanto a temia; e quanto mais ela me seduzia com suas possibilidades infinitas de bares, baladas, museus e outras tantas atividades, mais aquele oceano de opções me atordoava. Era um sentimento estanho de paixão e apreensão, desejo e angústia. Eu queria conhecê-la, talvez até amá-la, mas nem ela se entendia direito. São Paulo foi a minha primeira namorada paulistana.

Os calouros de outras cidades que começam este ano letivo em São Paulo ou no Rio devem saber do que falo. À emoção do ver o nome entre os aprovados se segue a pergunta: "E agora?" Onde morar? "Não, pai, eu não tô a fim de tomar ônibus, metrô e ainda ter que andar mais dez minutos!" Com quem morar? "Como assim ´por que não?´ Porque eu não quero dividir o apê com aquela menina, só por isso. Ela tem um cheiro estranho." Festas da faculdade? (Atende o celular do bar): "Pai, você tá louco. Você realmente acha que eu iria num bar terça-feira de manhã? O barulho é porque isso é uma cidade e aqui tem um monte de gente e carro, não sabia?"

Apesar das dúvidas, que não desaparecem, só mudam, e das mentiras sinceras que se contam aos pais, a verdade é que ninguém aprende a morar em lugares tão grandes. Não totalmente. Congestionamentos sempre serão inexplicáveis, a violência sempre será intolerável e motoristas vão sempre estar estressados. Ah, sim, e chove todo dia.

O que se aprende, na verdade, é a admirar a cidade pelo que ela tem de único. E, mais importante, deixar-se contaminar por ela, por suas contradições. Se ainda assim você não se sentir em casa, saiba que não é na sua cidade que você vai se sentir. Capitais, sinto lhe informar, têm este efeito: a sensação de não pertencer a lugar algum, mesmo pertencendo a todos; de estar em dois barcos e perceber que eles estão cada vez mais distantes. Mas no panic! Outros tantos ("caipiras" ou não) estão na mesma. "Você não é o único navio à deriva no oceano", diziam os Rolling Stones, que seus pais ouviam com a sua idade.

Acho que a saída é "se virar com uma ajudinha dos amigos", como me disse um velho amigo. Pois é com as músicas, os livros, os filmes e, principalmente, as amizades que eu me viro aqui. Não há muito a perder. Na pior das hipóteses, elas te dão uma carona de volta para casa.

Quem é o colunista: Fabrício Andrade.

O que faz: Estuda, trabalha e viaja (não necessariamente nessa ordem).

Pecado gastronômico: Gula é pecado ou virtude?

Melhor lugar do Brasil: Praia depois de feriado e dia santo.
Fale com ele: andradefabricio@yahoo.com.br

Atualizado em 6 Set 2011.

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