Guia da Semana

O drama da automutilação

Jovens fazem cortes e queimaduras no próprio corpo para extravasar suas inquietações emocionais

A gilete é o objeto mais utilizado pelos jovens para se cortar
Foto: Stck.Xchng

Descontentamento com o corpo, expectativas frustradas, insegurança sobre o futuro, cobranças da família e medo de decepcionar... Enfim, são muitas as angústias da adolescência e lidar com elas não é nada fácil. Alguns extravasam no esporte, outros preferem escrever, há jovens que optam pela música ou simplesmente desabafam com os amigos. Mas também existem aqueles que, com dificuldade de se expressar, descontam tudo no próprio corpo por meio da automutilação.

Arranhões, cortes, queimaduras, puxões de cabelo, bater a cabeça contra a parede são as maneiras que eles encontram para fugir da pressão, descarregar a tensão e diminuir a tristeza. Para a psiquiatra Vera Zimmermann, coordenadora do CRIA - Centro de Referência da Infância e Adolescência da Unifesp, esse comportamento se aproxima da patologia: "Eles não enxergam a pele como invólucro do corpo, como proteção. Na hora do exacerbamento da angústia, não há limites e eles só conseguem extravasar em si mesmos. A dor física expressa a dor emocional."

Cristina*, 15 anos, conta que começou a se mutilar aos 10 por causa de problemas familiares: "Eu me corto com gilete, caco de vidro, o que tiver por perto. Uma vez, na escola, quebrei uma lapiseira pra poder me cortar". Ela confessa que, apesar de não se dar bem com a mãe até hoje, os problemas que a motivaram naquela época ficaram para trás. Mesmo assim, ela continua praticando o cutting: "Eu já escrevi vários cadernos, mas não adianta, por dentro eu continuo me odiando. Uma vez, fiz um corte tão profundo no pulso, que quase perdi os movimentos da mão. Fui parar no hospital e inventei uma história qualquer para o médico."

Foto:Stck.Xchng
A psiquiatra explica que este comportamento é suicida, embora morrer não seja o objetivo final: "Essas pessoas têm a auto-estima extremamente baixa. O que elas fazem é um micro-suicídio. Elas acham que merecem o sofrimento, não a morte". Raramente o exibicionismo está ligado ao cutting. Muitos pais só descobrem que os filhos se cortam anos depois. Eles fazem isso na intimidade do quarto ou no banheiro e escolhem partes do corpo que podem ser escondidas, como pernas e barriga. Nos braços e pulsos, eles usam a mangas compridas e munhequeiras para esconder as cicatrizes.

Com tantos ferimentos e roupa por cima para esconder, é comum os cortes infeccionarem. Nas comunidades do Orkut, eles contam como fazem para evitar as infecções e, de quebra, aumentar a tão procurada dor. Alguns esquentam a faca ou o estilete antes de colocarem na pele e, depois do corte, jogam álcool por cima. As comunidades não fazem apologia à auto-mutilação, registram apenas a troca de experiência dos participantes e manifestações de apoio a quem quer parar.

Mutilação ou Body Art?
A psiquiatra Vera Zimmerman diz que as inscrições no corpo são elementos de identificação em um grupo, chegando até a perder o limite entre a estética e o sofrimento. Um exemplo de como isto é levando até as últimas conseqüências por algumas pessoas é a scarification, uma cicatriz parecida com tatuagem, mas feita com bisturi. Outra body modification um tanto dolorosa é o branding, que marca a pele com ferro quente, da mesma forma que é feito com gado. A média de preços é a mesma das tatuagens tradicionais e varia de acordo com o tamanho.
Durante a scarification e o resultado final
Foto: www.b0g.org


Érica*, 20 anos, começou a se mutilar aos 11 e só conseguiu parar há 3 meses: "Eu tinha alguns amigos que faziam e comecei a fazer também. Antes de me cortar, eu chorava, ficava desesperada, mas quando via o sangue e as marcas, me sentia aliviada", conta. Problemas com drogas foram o pontapé inicial para ela se cortar, mas também para procurar ajuda: "Eu era dependente de crack, mas também usava maconha e cocaína. Eu me cortava quando estava sob efeito da droga e quando tinha crises de abstinência. Quando percebi que estava no meu limite, procurei ajuda."

Os cortes de Érica
Segundo a Dra. Vera, quem recorre à auto-mutilação é porque não encontrou escapes saudáveis para a angústia: "Isso revela uma fragilidade na construção da personalidade e é um hábito muito difícil de abandonar. Se a pessoa consegue se aliviar das cobranças assim, ela vai repetir toda vez que se sentir pressionada". Cristina confirma a tese da médica e diz que não sente nenhuma necessidade de parar: "Não estou nem aí para o que os outros vão falar ou pensar. É assim que eu me sinto melhor", desabafa.

O cutting pode estar ligado a diversas patologias psíquicas, como depressão e personalidade borderline: "No tratamento, às vezes é necessária a prescrição de ansiolíticos, mas o principal é a terapia para descobrir a causa do problema", esclarece a terapeuta. Érica diz que, além do acompanhamento psiquiátrico, a fé é muito importante: "Nas duas primeiras semanas de abstinência, eu me cortava todos os dias, me machuquei demais. Os cortes eram cada vez mais profundos. É preciso acreditar em alguma coisa pra sair dessa, não estou falando só de religião. Minha família ajudou muito. Hoje, não sinto mais vontade de me cortar."

Não há dados estatísticos se quem sofre mais com a automutilação são os meninos ou as meninas, mas uma coisa é certa: as maiores vítimas são os adolescentes. A médica explica que as pessoas que têm crise de angústia na vida adulta a expressam de outra forma, como em compulsões alimentares ou até mesmo o suicídio.

*O nome foi trocado a pedido das entrevistadas.

Serviço:

Dra. Vera Zimmermann - Psiquiatra
Telefone: (11) 3673-6104
vera@tekowan.com

Atualizado em 10 Abr 2012.

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