Guia da Semana

O pai do Júlio

O diretor Fernando Gomes fala tudo sobre o Cocoricó, um dos programas mais educativos e populares da televisão

Foto: Divulgação/ João Caldas

Júlio conquistou as crianças

Criado em 1996, o programa Cocoricó conquistou um batalhão de pequenos súditos, que não cansam de cantar e dançar com as músicas animadas de Júlio, Alípio e sua turma. Do sucesso da TV para os palcos do teatro, os bonecos animados já levaram mais de 50 mil pessoas para as platéias do Brasil. Conversamos com Fernando Gomes, criador e manipulador do Júlio, além de diretor do programa e do espetáculo teatral. Saiba um pouco mais sobre as dificuldades e a satisfação de quem faz conteúdo infantil de qualidade para a televisão.

Guia da Semana: Qual é a maior diferença entre o Cocoricó da televisão e o do teatro?
Fernando Gomes: Primeiro, a linguagem. Também existe a questão da adaptação para o tridimensional, até porque um programa de bonecos tende a explorar ângulos mais curiosos. A gente esconde o manipulador com um corte de câmera, o que não dá pra fazer no teatro. Usa-se uma roupa preta para tentar se esconder ao máximo. Foi realizada uma longa pesquisa de linguagem. Se eu colocasse todo mundo com um boneco fantasia, ou seja, atores vestindo as roupas, todos estariam do mesmo tamanho e ia ficar bem diferente da TV. O meu objetivo foi se manter o mais fiel possível ao programa.

Guia da Semana: Você imaginava esse sucesso todo, na televisão e no teatro?
Fernando: Eu trabalho com bonecos há bastante tempo e sou apaixonado pela linguagem. Trabalho profissionalmente na Cultura, desde 1986, no Bambalalão, mas a minha paixão vem de antes, da época da Vila Sesamo e do Muppet Show. Sempre acreditei em programas de bonecos e acho que o Cocoricó foi a maior prova de que um programa do gênero pode ser produzido com qualidade, ficar bacana e ter retorno de público. O mais difícil é colocar isso na cabeça das emissoras. A minha grande sorte é que a TV Cultura, sem dúvida, é a que mais leva isso a sério.

Foto: Divulgação/ João Caldas

A turma do Cocoricó

Guia da Semana: Como surgiu a ideia do Júlio?
Fernando: Quando entrei na Cultura em 86, no Bambalalão. No final do ano, a chefia daquela época também era apaixonada por bonecos e resolveu apresentar de última hora um especial de natal com eles. Aí a gente pegou todos os bonecos da casa e juntou tudo em um apartamento. O resultado foi tão bacana que em 87 se repetiu, e em 89, surgiu Um Banho de Aventura com o Júlio. O roteiro já estava sendo criado e eu fui desenvolvendo o boneco paralelamente. Aí o especial foi desmembrado e virou episódios do Senta que Lá vem a Historia, do Rá Tim Bum. O programa se fixou quando a chefia resolveu criar um piloto para substituir o Glub Glub. O Julinho já estava escalado e está aí até hoje.

Guia da Semana: O que você mais gosta em trabalhar com crianças?
Fernando: A gente acaba caindo naquele lugar comum, mas o mais legal é que criança não engana. Ela não faz o social de falar que o espetáculo foi muito bom, achando uma porcaria. A gente está trabalhando com um público 100% verdadeiro. Temos a ousadia de acreditar que estamos fazendo um trabalho que vai ajudar a formar esse indivíduo.

Guia da Semana: Qual é a inspiração das histórias do Cocoricó?
Fernando: Além dos três roteiristas, temos um coordenador, psicóloga, professor e terapeuta. Discutimos antes de cada temporada os temas que pretendemos abordar. Às vezes, surgem temas delicados para a idade, como falar de morte, por exemplo. Outra coisa é falar de superação do medo, que é outro clipe polêmico, sobre um porquinho que acha que cai do berço e vai encontrar um monstro da palha. Muita gente fica chocada quando vê. Mas nesse clipe o porquinho supera o medo e termina abraçado com a mãe e dorme no colo dela, que não tem lugar mais seguro do mundo. Em todas as nossas brincadeiras existe um tipo de mensagem que tentamos passar lá no meio da história.

Foto: Divulgação/ João Caldas

Os bonecos seguiram os padrões da TV nos palcos

Guia da Semana: Qual é a sua opinião sobre os programas infantis na tv brasileira hoje? Você acha que tem qualidade?
Fernando: O maior problema sobre os programas infantis é que ele não existem mais. Com exceção da TV Cultura, ninguém mais faz. Até o ano passado a gente ainda tinha a Xuxa e o Sítio do Pica Pau Amarelo. Gostem ou não gostem, pelo menos tinha alguém fazendo. No SBT tem uma cabeça de desenho animado, que eu não considero programa infantil. O buraco é muito mais embaixo. Hoje quando as pessoas falam "vamos criar um prêmio de programação infantil", eu respondo dizendo que tem que instituir programa infantil, senão a TV Cultura sempre vai ganhar, porque não tem concorrência. A minha maior briga é instituir a obrigatoriedade dos canais abertos na produção dessa grade.

Guia da Semana: E por quê os canais não produzem esses programas?
Fernando: Eles alegam que não dá audiência. Mas tem outro agravante bem mais sério, que é uma legislação que proíbe o anúncio de produtos diretamente ligados ao universo infantil, dentro dos horários de programação para crianças. Você não pode anunciar porque teoricamente você está induzindo a criança a consumir. Só que se você não pode anunciar, quem é que vai patrocinar esse programa? Se a lei é assim, tem que ter incentivo do governo, obrigatoriedade. Mas todo mundo cruza os braços, e infelizmente, programa infantil é uma coisa quase extinta.


Atualizado em 6 Set 2011.

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