Guia da Semana

Quebrando o tabu

Assumir a homossexualidade especialmente durante a adolescência é uma decisão delicada, mas que pode contribuir para sua auto-confiança

Foto: Getty Images
 


Já virou até clichê falar sobre preconceito, mas evitar esse tópico quando o assunto é homossexualidade é praticamente impossível. A discriminação está presente na vida de todo mundo e ainda é uma das maiores barreiras que os gays e lésbicas precisam superar quando decidem assumir suas opções sexuais. Mas, mesmo com esse grande empecilho, alguns homossexuais não vêem motivos para não assumir suas escolhas e enfrentam o preconceito para viver numa boa com o estilo de vida que adotaram.

Porém, antes de sair gritando frases do tipo "Sou gay mesmo, e daí?", é preciso saber se essa atração que você sente por pessoas do mesmo sexo é real ou é só uma coisa passageira.

Acho que sou gay, e agora?
Não é novidade que a adolescência é a época ideal para desvendar muitos mistérios sobre a própria personalidade. Mas, algumas dessas descobertas - principalmente se relacionadas com a sexualidade - podem colocar muitas coisas em xeque e gerar grandes confusões em sua cabeça. Victor Camillo, 20, já sabia, desde a infância, que era diferente dos outros meninos. "Até mesmo nas brincadeiras eu demonstrava interesse com os brinquedos das minhas irmãs, a vontade era de sempre pegar um personagem feminino e colocar na brincadeira", conta o roteirista.

Mas, quando caiu na real e amadureceu o suficiente para perceber que era homossexual, Victor se preocupou. "Naquela época, me importava muito com o que as pessoas iriam pensar sobre mim. Foi uma fase bem complicada", lembra. O roteirista estava na 6ª série e foi discriminado pelos colegas pelo fato de que sua voz e alguns gestos eram parecidos com o das meninas. "Gozações e brincadeiras indelicadas eram feitas a toda hora e isso me irritava. É uma pena que muitos professores não estejam preparados para tratar deste assunto em sala de aula", diz.

Foto: Arquivo Pessoal
Victor e sua amiga, Tupi


Assim como Victor, o estudante de biomedicina Felipe*, 20, sempre soube que não era heterossexual. "Desde muito pequeno sabia que tinha algo em mim que era diferente dos outros garotos. Por isso, para muita gente, essa coisa de ´descobrir´ não faz muito sentido. Não existe um ponto na nossa vida em que a gente para e pensa ´oh, sou gay! Que susto!´", brinca. Antes de assumir sua opção sexual, Felipe precisou lutar contra o próprio preconceito. "Quando me dei conta que a minha atração por meninos estava aumentando, mais eu buscava as meninas. Eu não aceitava e achava errado", conta.

Segundo a psicóloga Silvana Martani, quando o adolescente se encontra nesse dilema, a melhor saída é recorrer aos pais. "Por achar que os pais vão reprimi-los, os adolescentes têm o costume de contar primeiro aos amigos mais próximos. Mas o ideal é conversar com os pais", alerta.

Como e por que assumir?
Assumir a homossexualidade para todos aqueles que convivem com você é uma decisão arriscada, mas que pode, sim, trazer muitos benefícios. Segundo Silvana, se abrir com os pais pode evitar maiores transtornos emocionais. "Se você tem uma relação aberta com seus pais, assuma logo. Quanto mais demorar, pior é", explica. A psicóloga diz também que o adolescente precisa, acima de tudo, "se respeitar pelo ser humano que é". "O exercício sexual vem depois", diz Silvana.

Victor só percebeu que jogar limpo com os amigos e, principalmente, com a família poderia ser melhor após se envolver em uma pequena confusão, há quatro anos. O roteirista foi passar um final de semana com o primeiro namorado e não avisou nada para a sua mãe. Ela acabou descobrindo onde ele estava e pediu explicações. "Depois de contar a mais pura verdade me senti totalmente leve, sem qualquer peso de mentira nas minhas costas, foi então que percebi que não havia motivo para mentir para mais ninguém", conta.

Foto: Getty Images
 


Depois disso, Victor descobriu que assumir a homossexualidade para a família podia ser uma saída para se sentir melhor consigo mesmo e admite que o apoio da mãe foi fundamental. "Me senti mais forte e sem medo de enfrentar as dificuldades da vida. A única pessoa cujas opiniões sobre mim me preocupavam era a minha mãe, e ela estava inteiramente do meu lado".

Diferente de Victor, Felipe planejou como faria a revelação para os seus pais. A idéia de contar tudo a eles surgiu depois que o estudante teve sua primeira experiência com alguém do mesmo sexo. "Aquela sensação de estar escondendo algo dos meus pais estava me matando, pois sempre os respeitei e dei satisfações da minha vida. Seis meses depois da minha primeira experiência homossexual, eu marquei uma conversa com meus pais e contei tudo. Eu tinha 17 anos", lembra.

Os pais de Felipe aceitaram, mas nunca concordaram com sua escolha. Apesar disso, o alívio do estudante foi grande depois de contar a verdade. "Você começa a se sentir mais a vontade com o seu jeito e a sensação de que todos estão te medindo some", diz.

E o preconceito?
Como já foi dito, ninguém está imune ao preconceito. Quando se trata de um assunto delicado como a homossexualidade, então, nem se fala. Quem se assume gay ou lésbica precisa saber que, mesmo contando com o apoio da família e dos amigos, nem tudo será fácil: o preconceito sempre vai existir, ainda que camuflado. "As pessoas têm que aceitar que os outros têm preconceito. É uma característica humana", explica Silvana.

Victor diz que hoje já não sofre mais preconceito por saber se colocar em seu lugar. "Sempre digo que o primordial para se viver bem é o respeito com você e com os outros", diz. O roteirista diz que hoje é capaz de ouvir algum comentário indelicado e não se sentir ofendido. "Se cada pessoa se preocupasse com sua evolução própria ao invés de tentar saber ou ficar confabulando sobre a vida alheia, o mundo seria melhor e sem tantas barbaridades que a gente escuta", conclui.

Felipe diz que nunca sofreu nenhuma forma explícita de preconceito. "A única coisa que aconteceu foi que, quando assumi minha homossexualidade, perdi alguns amigos heterossexuais". O estudante acredita que quem sofre com a discriminação são os que "extrapolam muito". "Em minha opinião, você não precisa se mostrar homossexual para todos. Mas se a pessoa se sente bem assim, eu respeito", diz.

Não entre em pânico!
Você sempre se achou diferente das outras pessoas da sua idade e, de repente, você começa a pensar que pode ser gay/lésbica. O que fazer? Confira algumas dicas para sair dessa situação sem entrar em desespero:

? Antes de qualquer coisa, converse com alguém em quem você confie muito.
? Tente ignorar as brincadeiras de mau gosto e o preconceito.
? Se tiver vontade e sentir necessidade, não tenha medo de ter novas experiências.
? Se possível, tenha uma conversa séria e franca com os pais.
? Se não houver apoio da família, tenha paciência e procure por pessoas que entendam sua situação.
? Se for necessário, procure ajuda profissional.



*O nome foi modificado a pedido do entrevistado.

Colaborou:
Silvana Martani
Psicóloga

Atualizado em 13 Set 2011.

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