Guia da Semana

Morde e Assopra: mais do mesmo

Os autores tendem a repetir trejeitos e comportamentos dos personagens nas suas novas novelas - são suas marcas registradas

Foto: TV Globo/Bob Paulino


Desde os tempos áureos de nossa teledramaturgia, é comum ver obras com certa semelhança estética, artística, de texto, de elenco, ou de tramas. Quase sempre se repete o que já deu certo uma vez. Alguns casos são inerentes, como a marca registrada de um diretor, por exemplo. Cada um tem a sua. Jayme Monjardim, Luiz Fernando Carvalho, Guel Arraes, Jorge Fernando, Denis Carvalho, entre outros, são diretores que sempre imprimem características próprias aos seus trabalhos. Mesmo porque, invariavelmente, trabalham com uma mesma equipe de técnicos.

Não vou discorrer sobre os atores que repetem sempre os mesmos tipos - deixo apenas dois exemplos: Rubens de Falco fez inúmeros vilões em novelas desde o retumbante sucesso de seu vilão em Escrava Isaura, em 1976, e Beatriz Segall, que quase sempre interpretou mulheres refinadas. Mas o caso dos autores de novelas é o que mais salta aos olhos nestas repetências dramatúrgicas em folhetins televisivos.

Tomemos o caso de Morde e Assopra, novela de Walcyr Carrasco que estreou em março. Mesmo que não fosse informado que é uma novela de Carrasco, fica claro que é dele! Lá está o seu texto tão característico. Lá está Flavia Alessandra, Elizabeth Savalla e outros atores costumeiros em sua obra. Lá está o seu universo ficcional, com caipiras, vilãs belas e passionais, bichos de estimação, fazenda com caipiras de sotaque carregado, vilãs com máscara de beleza, pessoas sendo arremessadas como em um desenho animado, e muita torta na cara - tinta na cabeça, no caso. Sim, é uma novela de Walcyr Carrasco!

Mas ao menos uma diferença já pôde ser notada. A direção de núcleo não é mais de Jorge Fernando - seu parceiro em trabalhos anteriores -, mas de Rogério Gomes. Acho importante que os autores mudem de diretores de vez em quando, para dar um "ar diferente" às suas obras e não deixá-las tão parecidas, técnica e esteticamente falando. Aqui cabe uma sugestão a Gilberto Braga que, desde Corpo a Corpo, do longínquo ano de 1984, só trabalha com Denis Carvalho em suas novelas do horário nobre.

Mas, mesmo com tomadas de câmera e imagens diferenciadas, a nova novela de Carrasco pouco trouxe de novidade ao seu universo, apesar de o autor nunca ter tratado antes sobre dinossauros e robôs. Os dinos são novidade no mundo de nossas novelas. Já os robôs não. A recente Tempos Modernos, de Bosco Brasil, apresentou um robô que teve que ser desligado quando mudanças foram feitas para salvar a novela do fracasso total. E, em 1984, Transas e Caretas, de Lauro César Muniz, pouca repercussão teve ao apresentar o conflito entre o antigo e o moderno - inclusive com um robozinho de estimação, tal qual Morde e Assopra.

A novela mal começou e já se percebe um forte apelo infantil na trama de Carrasco, maior do que em suas obras anteriores. Uma menina caipira, esperta e espirituosa às voltas com uma minivaca tem público certo: as mesmas crianças para as quais Carrasco já é famoso por escrever livros infantis. Bem fez o autor ao trocar de diretor: é o mínimo de "diferente" que Morde e Assopra apresenta na obra de Walcyr Carrasco. Gilberto Braga deveria seguir o mesmo caminho.

Leia as colunas anteriores de Nilson Xavier:

Araguaia, uma novela correta

Jaqueline, a alma de Ti-Ti-Ti

A novela que foi sem ter sido

Quem é o colunista: Nilson Xavier.

O que faz: Autor do "Almanaque da Telenovela Brasileira" e criador do site Teledramaturgia.

Pecado Gastronômico: doces e sobremesas.

Melhor lugar do mundo: São Paulo.

O que está ouvindo no carro, mp3, iPod: quase um pouco de quase tudo.

Fale com ele: nilson.xavier@globo.com


 



 


Atualizado em 10 Abr 2012.

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