Guia da Semana

A nova família de Walter Salles

Diretores e elenco de Linha de Passe falam sobre a produção do longa.

Foto: Ravi Santana
Vinícius de Oliveira, Walter Salles, Sandra Corveloni, Daniela Thomas, Kaíque Jesus Santos, João Baldasserini e José Geraldo Rodrigues.

Em 1998, o documentarista João Moreira Salles realizou para a GNT Futebol, que em três programas mostrava o fascínio do brasileiro pelo esporte, a partir das peneiras que existem nos clubes. A série acabou se tornando um filme, que chamou a atenção do irmão do cineasta, o também diretor Walter Salles. "Aquele documentário abriu os olhos da gente". Assim, em 2003, com a parceira Daniela Thomas, Walter começou a preparar o roteiro do que viria se tornar Linha de Passe.

A contribuição do irmão, no entanto, não ficou apenas aí. Os diretores se impressionaram com outro trabalho de João, também para o canal GNT. Santa Cruz, episódio da série 6 Histórias Brasileiras, mostra o surgimento de uma igreja evangélica. A partir de então havia duas frentes para criar a vida da doméstica Cleuza e seus quatro filhos, sendo um deles um pretenso jogador de futebol e outro um evangélico. Os demais, um motoboy e um garoto fascinado por ônibus, também foram inspirados em histórias reais.

"A primeira coisa a fazer foi tentar descobrir onde esse filme se passava, quem eram essas pessoas", revela Daniela Thomas. Assim, começaram a escolher as locações, que ficaram na Rua Laranja da Bahia, em Cidade Líder, periferia de São Paulo. A cidade foi escolhida pelo caráter dos personagens. Como eles precisam se reinventar para sobreviver, o lugar mais plausível para os diretores foi a capital paulista. O Rio de Janeiro chegou a ser cogitado no início, mas logo foi descartado por Salles. "Não fazia sentido voltar a uma cidade com uma cinematografia já tão explorada".

Foto: Ravi Santana
Descontração de Vinícius de Oliveira, Kaíque Jesus Santos, Sandra Corveloni, João Baldasserini e José Geraldo Rodrigues, a família de Linha de Passe.

Escolhido o local, era preciso decidir os rostos que iriam fazer parte daquela história. Elogiado pelas atuações, o filme não conta com nomes conhecidos no elenco. O diretor é bem pontual ao citar os motivos das boas interpretações. "A vivacidade se dá porque cada ator se apropria do seu personagem", elogia ele, que completa que "só trabalho com gente mais inteligente do que eu". Walter acredita que o princípio da coletividade do cinema é fundamental para o sucesso de seus filmes, por isso, cada um tem a sua responsabilidade.

E foi assim que Linha de Passe saiu premiado com o troféu de melhor atriz no Festival de Cannes. A vencedora, Sandra Corveloni, que faz o papel de Cleuza, nunca havia participado de um longa-metragem. Apesar da longa carreira no teatro, os diretores não a conheciam. "Este é um país que tem mais talento do que possibilidade de mostrar este talento", alerta Salles. Mudar sua vida, o prêmio não fez, mas deu mais espaço para ela divulgar suas peças, principalmente do Grupo Tapa. A atriz, no entanto, coloca a responsabilidade de ter sido escolhida no colega de cena Kaíque Jesus Santos, na época com apenas 12 anos.

A capacidade do jovem improvisar surpreendeu Corveloni. Como fizeram um dos testes juntos, ela acredita que foi selecionada para o papel pela química que houve entre eles. Nascido na Bahia e morador do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, Kaíque nunca tinha pensado em ser ator. Freqüentador seis anos da ONG Casa de Zezinho há 6 anos, ele fez lá os testes para o filme sem expectativas, estranhando ter sido escalado para a próxima fase. Agora, o jovem não tem mais dúvidas sobre o futuro. "Eu queria ser jogador de futebol ou bombeiro, mas surgiu isso e quero seguir até o fim".

Cena de Linha de Passe com Vinícius de Oliveira, José Geraldo Rodrigues, Kaíque Jesus Santos e João Baldasserini.

O novo ator está aprendendo tanto que chegou a dirigir uma das cenas de Linha de Passe. Em um momento, o personagem Dinho, de José Geraldo Rodrigues, surpreende o irmão Dênis, João Baldasserini, com a namorada no sofá de casa. Os diretores se encantaram com a forma como Rodrigues atuou, deixando o casal bastante constrangido. Quando foram elogiá-lo, José Geraldo confessou que foi Kaíque quem o instruiu naquela cena, demonstrando suas primeiras habilidades como diretor.

Quem também está querendo seguir na carreira de cineasta é Vinícius de Oliveira, que como Kaíque não tinha nenhuma intenção de atuar antes de ser descoberto por Salles para Central do Brasil. O diretor tenta dissuadi-lo. "Vai largar a melhor profissão do mundo, que é ser ator, pela mais inconstante". Mas o obstinado jovem não quer desistir. Vinícius, para o papel, treinou futebol por quatro anos, chegando a figurar entre os juniores do Santo André e do Palmeiras. Agora, com o filme pronto, quer se dedicar à faculdade de cinema que está cursando.

Para Salles, a parceria com ele foi um dos motivos de fazer o filme. "O encontro com o Vinícius para mim foi determinante, precisava revisitar este momento, como Truffaut". Além, também, de retomar a dupla com Daniela Thomas, com quem fez Terra Estrangeira e O Último Dia. Sem contar ainda o fato de voltar ao Brasil, após filmar Água Negra e Diários de Motocicleta. "É prazeroso e necessário voltar a trabalhar na sua própria língua". Independente do sucesso, Salles não tem dúvidas, "o filme foi feito por razões afetivas".

Atualizado em 10 Abr 2012.

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