Guia da Semana

"Bem-Vindo a Nova York" cria ficção em cima de caso verídico sobre política e abuso sexual

O escândulo de Dominique Strauss-Kahn é dissecado pelas lentes impiedosas de Abel Ferrara.

Em meados de 2011, o mundo da política presenciou um dos mais polêmicos escândalos de sua história. Dominique Strauss-Kahn, então diretor do FMI e um dos favoritos à presidência da França, viu a sua carreira desmoronar após a acusação de abuso sexual por uma camareira de um hotel de luxo em Nova York. Durante as investigações, foram levantadas outras denúncias, colocando o diplomata em prisão domiciliar. Pouco tempo depois, por insuficiência de provas, o caso foi oficialmente encerrado e DSK, nunca punido.

Conhecido por uma filmografia permeada por temas como crimes, drogas e prostituição, o diretor americano Abel Ferrara usou o caso como inspiração para seu novo longa. Em "Bem-Vindo a Nova York", ele disseca o escândalo de DSK sem abrir mão, entretanto, de boas doses de imaginação - o que fica claro logo nos créditos iniciais. Com nomes e situações fictícias, Gérard Depardieu dá vida a um Strauss (ou Sr. Devereaux, como é chamado no filme) não só mulherengo, como um verdadeiro depravado sexual. A ocasião do suposto estupro é reconstituída, bem como cenas de completa libertinagem, das quais se encaixariam perfeitamente nas páginas de qualquer novela de Oscar Wilde.

Quem não gostou nada disso, é claro, foi o próprio DSK que, após a estreia oficial do filme, no Festival de Cannes deste ano, prometeu processar o diretor por calúnia e difamação. O assunto é delicado: por mais que o aspecto fictício do filme seja esclarecido, a personagem de Depardieu é claramente inspirada em Strauss, e as conjunturas das cenas, bem como o estupro em si, nunca foram provados. Polêmica à parte, é impossível não se deixar impressionar pelas ácidas lentes de Ferrara, que denunciam mais do que um caso isolado, e sim todo um cenário político permeado pela prostituição, hedonismo e jogos de poder.

A tensão construída durante as duas horas de exibição toma fôlego a cada segundo e prende o espectador, que inevitavelmente mergulha no imaginário de Ferrara. Sem poupar cenas de sexo explícito, as primeiras passagens dedicam-se a construir a imagem de um Sr. Devereaux lascivo e decadente, representando a falência de um sistema corrupto comandado pelo egoísmo e abuso de poder de suas autoridades. A partir do momento da acusação, o filme muda o tom, infiltrando-se nas redes de intriga e corrupção. À medida em que o fim se aproxima, Ferrara tenta analisar a faceta psicológica de sua personagem, surpreendendo mais uma vez, pela apatia e falta de pudor com que ela é construída.

"Bem-Vindo a Nova York" é mais que um filme sobre o evento que o inspirou, é uma denúncia corajosa aos contornos mais traiçoeiros da nossa sociedade. Com estreia prevista apenas para novembro, o filme integra a programação da Mostra Imovision, que fica em cartaz em São Paulo entre os dias 24 e 30 de julho.

ASSISTA SE VOCÊ:

- Gosta de filmes sobre escândalos políticos 
- É fã de Abel Ferrara ou Gérard Depardieu
- Aceita filmes que misturam realidade e ficção  

NÃO ASSISTA SE VOCÊ:

- Prefere filmes leves e despretensiosos
- Não gosta de cenas de sexo explícito 
- Preferem filmes documentais fiéis à realidade 

Atualizado em 3 Set 2014.

Por Ricardo Archilha
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