Guia da Semana

Cinema latino

Colunista escreve sobre A Teta Assustada, longa peruano dirigido por Claudia Llosa.

Filme peruano vencedor do Urso de Ouro em Berlim nesse ano, A Teta Assustada é uma obra interessante assinada pela diretora Claudia Llosa. O filme se apresenta como uma fábula da vida de Fausta (Magaly Solier), a garota que "herdou", através do leite materno, um medo incontrolável de ser estuprada como a mãe, e daí o nome do filme. Esse estigma, que determina a personalidade da personagem, faz parte de um misticismo indígena real da zona rural peruana.

Fausta leva uma vida pobre, nas favelas de Lima e logo no início a trama ganha elementos surreais ao sabermos, após a morte dessa mãe, que era objeto de devoção da filha, que ela mantém uma batata em sua vagina como garantia de não ser violada.

É nesse momento que nos vemos diante do drama que a diretora quer contar, e isso é apresentado de maneira muito habilidosa. Ao invés de se apegar simplesmente ao fato dos estupros praticados pelo grupo terrorista Sendero Luminoso nos anos 1980, Claudia Llosa encontra no fato o semi-argumento para discutir a situação atual de seu país e relacioná-lo às mazelas sofridas.

Quando isso fica devidamente apresentado, podemos nos concentrar na maneira como a iluminação é utilizada ao longo da projeção. A ausência da luz pontua o filme, dita a narrativa, e confere à personagem uma variedade de feições, alternando a maneira como a compreendemos suas expressões em closes do rosto da errática heroína. Essa estética crua e sem requintes alcançada através do bom uso da matéria prima do cinema, poderia servir de exemplo a algumas produções brasileiras, bem como os planos-sequências com a câmera estática que faz com que o filme respire.

A Teta Assustada não é um filme primoroso e seu roteiro é um tanto confuso e óbvio em alguns momentos, principalmente quando Fausta estabelece a relação com a pianista Aída (Susi Sánchez), quando trabalha como empregada em sua casa para conseguir pagar um enterro digno à mãe, fato que é o principal fio-condutor da história, mas que se perde diante de tantos elementos, tanto de ordem sócio-cultural quanto de cunho individual, que são despejados na narrativa. Em certo momento não sabemos se aguardamos o êxodo nessa investida ou se torcemos pela descoberta de um novo rumo na vida de Fausta. Porém, levando em conta a juventude da diretora (32), e o fato do filme ser a única produção de longa-metragem peruana no ano de 2009, a simpatia com o filme aumenta.

Quem é o colunista: jornalista e escritor, seu primeiro romance, Furta-cor, foi lançado em 2006.

O que faz: editor da revista de cinema PLANO B - o cinema impresso.

Pecado gastronômico: parmesão.

Melhor lugar do mundo: Positano.

Melhor filme que já assistiu: nós que nos amávamos tanto.

Fale com ele: e-mail: iacocca@revistaplanob.com ou acesse seu site.

Atualizado em 6 Set 2011.

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