Guia da Semana

Foto: Divulgação


Achar que a expressão artística depende apenas do talento de seus criadores é pura ingenuidade do público. Pouca gente sabe o quanto a arte pode ser dolorosa, obsessiva ou até mesmo sádica. Talvez por isso, o filme Cisne Negro, dirigido por Darren Aronofsky, esteja levantando tanta polêmica.

Com quatro indicações ao Globo de Ouro e cinco ao Oscar, incluindo Melhor Filme, o longa retrata as agruras vividas por uma bailarina que sofre alucinações quando é convidada a assumir o papel principal do balé O Lago dos Cisnes.

Aronofsky talvez tenha se deixado influenciar pelo argumento do filme - que deflagra a obsessão dos bailarinos pelo perfeccionismo técnico - ao trabalhar com as complexas cenas másteres, isto é, sequências inteiras filmadas em apenas uma tomada.

O esforço valeu a pena. A direção emprestou ansiedade e frenesi à ótima interpretação da protagonista Natalie Portman e provocou uma proximidade física do público com a sua personagem. Em determinado momento, é possível ouvir as pessoas torcendo pelo sucesso da bailarina e compreendendo o seu estado de vulnerabilidade. Também é possível sentir sua ambição, seu prazer sexual, seu cansaço e entender suas paranoias. Para que a relação personagem/público se consolidasse ainda mais, a direção deveria ter assumido os momentos de terror do filme ao invés de amenizá-los. Na verdade, longe de dar medo, algumas dessas cenas chegam a ser engraçadas.

O filme denuncia, de modo velado, o abuso, a pressão e as disputas que acontecem dentro das companhias de dança, e que acabam minando a condição psicológica das bailarinas. Essas moças, em busca de superação, são levadas ao limite de suas forças, mas sempre em detrimento de suas integridades físicas, psicológicas e morais.

Tenho a impressão de que Cisne Negro não agradará a todos, mas que será um sucesso de bilheteria, justamente por conta das críticas divergentes lidas na imprensa e das opiniões conflituosas de seus espectadores. É o meu voto para o Oscar de Melhor Filme em 2011.

Leia as colunas anteriores de João Pedro Roriz:

Aversão da vida a dois

Tron e seus efeitos especiais

A versão 2010 de Hair

Quem é o colunista:"Sou um bandido corrompido pelas paragens do bem, muito além do homem descrito como poeta".

O que faz: Escritor, jornalista e ator. Autor de nove livros e peças de teatro. Faz palestras em escolas de todo o Brasil. É apresentador do programa "Rio Cultural", da Rádio Rio de Janeiro.

Pecado gastronômico: Todos, principalmente cerveja quando sai com os amigos!

Melhor lugar do mundo: Sua casa, principalmente na hora de escrever e/ou quando os parentes e os amigos o visitam.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: É muito fã de Chico Buarque. Também gosta de música clássica, ópera, rock e MPB.

Para falar com ele: [email protected], ou no seu site.


Atualizado em 6 Set 2011.