Guia da Semana

Crítica: “Nocaute” traz de volta aos cinemas o glamour e a disciplina do boxe profissional

Filme de Antoine Fuqua com Jake Gyllenhaal estreia no dia 10 de setembro.

Fazia algum tempo que um filme sobre boxe não aparecia entre as grandes estreias de cinema. O esporte, afinal, caiu para segundo plano desde que o MMA conquistou prestígio na televisão e, sem que percebêssemos, Rocky Balboa passou de herói contemporâneo a personagem nostálgico, remanescente de um século distante.

É para relembrar esse tempo que chega aos cinemas o novo longa de Antoine Fuqua (“Dia de Treinamento”), “Nocaute”. O filme pode não trazer grande novidade ao gênero, mas devolve às telas um pouco do boxe das antigas, evidenciando o contraste entre a luta como espetáculo (movida a força e adrenalina) e como esporte (regada a técnica e disciplina). Em destaque, está o papel do mestre como guia para uma transformação física e mental, como nos filmes clássicos de artes marciais.

Jake Gyllenhaal é quem carrega, nos ombros musculosos e nos olhos expressivos, toda a intensidade desse drama. Ele transformou seu corpo radicalmente para interpretar Billy Hope, um campeão explosivo e imprudente, que considera a defesa um acessório dispensável.

Seu estilo é mostrado com exaustão durante um longo combate nos minutos iniciais. Aos mais avessos à violência, este não é um momento agradável – mas é necessário para compreendermos o universo agressivo e glamoroso de Hope. Quanto mais ele apanha, mais é incentivado pelo público e por seu agente e mais energia acumula para o round final.

Sua lealdade, contudo, está com a esposa, Maureen (Rachel McAdams), que teme por sua saúde e pede que ele pare, o que ele começa a considerar depois de uma recuperação especialmente difícil. Este, porém, é um filme sobre luta e é claro que o protagonista não ficará longe dos ringues por muito tempo.

Logo, uma tragédia acontece e Hope se vê perdido, sem o apoio de Maureen e numa batalha judicial pela guarda da filha, Leila (Oona Laurence). Perturbado e descontrolado, ele precisará da ajuda de um novo treinador (Tick Wills, interpretado por Forest Whitaker) para colocar sua vida de volta aos trilhos.

O título original, “Southpaw”, faz referência a um golpe de esquerda que quebra as expectativas do adversário e pode inverter o jogo. A escolha faz todo o sentido, já que a trajetória de Hope sofre uma inversão semelhante, do caos ao controle, da vitória quase milagrosa ao sucesso pelo treinamento duro.

Apesar da relação entre Hope e Wills ser bem trabalhada (os dois, inclusive, compartilham sequelas semelhantes), o passado do treinador não é explorado o suficiente e o público não tem a chance de se envolver tanto quanto poderia. O mesmo vale para o principal rival de Hope, Miguel Escobar (Miguel Gomez), cuja presença serve mais para provocar e canalizar as ações do protagonista do que como um personagem por si só.

“Nocaute” deve seu impacto às atuações, especialmente de Gyllenhaal, Whitaker e da pequena Laurence, que conseguem emocionar em diferentes momentos. A história não foge muito do padrão queda-e-superação que se espera de um filme desse tema, mas a abordagem é bastante realista e as cenas de luta, magnetizantes. No final, o público ganha o que sempre sonhou e nunca encontrou nos ringues da vida real: um grande duelo com uma grande história por trás, para torcer até o último round.

Atualizado em 12 Set 2015.

Por Juliana Varella
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