Guia da Semana

Crítica: “Reza a Lenda” leva ação e adrenalina ao sertão nordestino

Cauã Reymond e Sophie Charlotte surpreendem com personagens sujos e brutos

Muito tem mudado no cinema brasileiro nos últimos anos. À medida em que o Brasil foi se tornando mais relevante no cenário político mundial e o acesso às informações e à cultura foram se democratizando, mais o cinema foi se permitindo absorver referências externas, se arriscando em técnicas até então pouco utilizadas por aqui e criando misturas que não são por isso menos brasileiras, mas sim mais universais.

Reza a Lenda” é um filme 100% nacional que mistura ação, faroeste, fantasia e drama sertanejo, como se o Grande Sertão Veredas encontrasse Mad Max, com um twist místico particular. O filme acompanha Ara (Cauã Reymond), Severina (Sophie Charlotte) e toda a sua gangue de motoqueiros numa jornada pelo deserto em busca de um milagre: eles precisam levar a estátua de uma santa para o altar correto para que ela faça chover.

A crença religiosa é um dos pilares do filme e faz um contraponto curioso à adrenalina das motos e da violência. Esses personagens não são movidos pela sede de sangue, apesar de serem bastante habituados a ela, mas sim pela fé. O que fazem, por mais pecaminoso que seja, é por um bem maior – o que dá a eles certo caráter heroico.

Quem se une ao grupo logo no início da aventura é Laura (Luisa Arraes), uma garota da cidade que viajava de carro pela região e acaba se tornando prisioneira. Não fica claro por que a gangue não a deixa ir embora no início, nem por que ela desenvolve uma atração por Ara (isso, simplesmente, soa errado), mas ela terá uma função importante na história, levando o protagonista à sua revelação final.

A chegada de Laura também provoca reações transformadoras em Severina: forte e confortável em sua posição de vice-chefe do bando, ela nunca havia experimentado o ciúme nem as inseguranças que vêm com ele. Charlotte abraça a personagem com unhas e dentes e entrega uma Severina intimidante, ágil e impaciente como um bicho do mato, mas feminina em seus poucos momentos de paz. A forma como ela se irrita e se desespera diante da possibilidade de perder “seu homem” fala mais sobre o desconhecimento dos próprios sentimentos e sobre seu instinto de sobrevivência do que sobre amor.

Quem também ganha destaque aos poucos é o personagem de Jesuíta Barbosa, Pica-Pau. Misterioso e reservado no início, ele acaba se rendendo ao ódio depois da morte de uma colega e tem seu ápice numa cena de tiroteio perto do final. Completa o elenco principal o vilão vivido por Humberto Martins, um coronel sanguinário que se considera dono da imagem da santa e jura vingança quando ela é roubada pela gangue.

 

O cuidado com a produção visual é um dos pontos altos do filme: os figurinos, por exemplo, misturam a crueza de camisetas rasgadas com a rigidez do jeans e do couro – improváveis num cenário desértico, mas coerentes com o universo do motociclismo. Cabelo e maquiagem, da mesma forma, fogem do padrão “impecável” para investir em visuais despenteados, sujos e pesados.

“Reza a Lenda” acerta ao inserir uma pegada pop ao cenário nordestino, mas esbarra em limites técnicos no que diz respeito à ação. Algumas cenas dependem demais de objetos recriados em 3D (como carros e motos) e acabam destoando do resto, fazendo com que pareçam falsas. Cenas de tiroteios também poderiam equilibrar melhor o close-up nos atiradores (usado à exaustão) com tomadas mais panorâmicas e que mostrassem melhor as vítimas. Afinal, a ideia é mostrar um ambiente violento.

Também incomoda um pouco o personagem de Martins, mais engessado que os demais. Sua apresentação se dá por meio de uma história tenebrosa, mas que perde todo o impacto ao ser contada com o timing errado. Também não são muito convincentes suas demonstrações de maldade, apesar de seu método (pendurar cabeças em balões de São João) ser bastante interessante – talvez essa ligação com a festa pudesse ser melhor explorada, revelando uma outra camada do personagem.

“Reza a Lenda” é um filme imperfeito, mas forte. Gestado por 20 anos na imaginação do diretor e roteirista Homero Olivetto, o longa traz referências daquele tempo tanto quanto deste, o que lhe dá um ar atemporal. O que poderia parecer pretensioso ou pouco original – uma ação hardcore num cenário desolado – não é, e inclusive surpreende o quanto o filme tem personalidade. O que lhe falta é tecnologia, um vilão mais forte e, talvez, uma ou outra virada diferente para que o final fosse mais impactante. Mas o caminho é esse. 

O filme estreia no dia 21 de janeiro nos cinemas.

Atualizado em 27 Jan 2016.

Por Juliana Varella
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