Guia da Semana
Cinema
Por Juliana Varella

Daniel Radcliffe vive poeta beat em "Versos de um Crime"

Filme captura espírito literário da época enquanto narra história de um crime.

Lucien Carr (Dane DeHaan) e Allen Ginsberg (Daniel Radcliffe) são os personagens centrais da história (Divulgação)

Mate suas coisas queridas, diz o professor. Mate seus impulsos infantis, suas manias, seus ídolos, e recomece. O professor Stevens (John Collum), à frente da turma de calouros na Universidade de Columbia, gostaria que o recomeço seguisse as tradições e a métrica clássica, mas não foi o que aconteceu a Lucien Carr, Allen Ginsberg, William Burroughs e Jack Kerouac naquele ano.

Versos de um Crime”, que estreia no dia 12 de junho, é uma mistura entre romance biográfico e thriller, que não se encaixa, entretanto, em nenhuma dessas categorias. O longa de estreia de John Krokidas narra com perfeição e detalhes uma fase-chave na história da literatura americana, nos anos 40, quando os principais nomes da geração beat se conheceram e deram os primeiros passos em direção à rebeldia que marcaria seus textos.

Versos de um Crime

O filme fala de literatura como fala de amor, guerra e crime, e o faz com linguagem poética, como a de seus biografados. Desde a fotografia, escurecida e amarelada, até a escolha de cada corte e cada enquadramento (sempre fechado, particular, ora observando os poetas de cima, ora caminhando com eles), tudo é consciente, como uma discreta assonância num verso livre.

Daniel Radcliffe (bem longe do Harry Potter que o consagrou) entrega-se de corpo e alma a Ginsberg, nosso ponto de vista nesta história de amizade, inspiração e assassinato. Um homem morre já na cena inicial – mas, mais do que descobrir o culpado, precisamos entender por quê.

Comecemos, então, por Ginsberg. Educado e cuidadoso com a mãe, louca, o jovem (filho de outro poeta, Louis Ginsberg/David Cross) mal consegue relaxar para comemorar sua entrada na Universidade de Columbia. Lá, encontra uma instituição rígida e tradicional, quebrada apenas pelos surtos de um poeta exibicionista: Lucien Carr.

Dane DeHaan em Versos de um Crime

Interpretado visceralmente por Dane DeHaan, Carr é uma espécie de furacão que suga as energias de quem orbita à sua volta. Ele é sedutor e ambicioso, mas é um poeta apenas nas ideias, pois jamais escreve. Ele é a inspiração rebelde para escritores como Ginsberg, que só precisa de uma brecha no seu círculo de mesmices.

O círculo é a forma que rege o longa, cujo início coincide com o fim. Citado num discurso atribuído a Yeats, ele representa a repetição, a morte e o renascimento – mas diz-se que pode ser ampliado caso um evento quebre o padrão. Carr quebra o padrão de Ginsberg, que mergulha num delírio criativo e transformador (numa sequência deliciosamente provocativa, ao som de jazz); e Ginsberg quebra o de Carr, que é obrigado a amadurecer.

Juntam-se a eles David Kammerer (Michael C. Hall), Kerouac (Jack Huston) e Burroughs (Ben Foster), que logo criam um movimento chamado “Nova Visão”. Sua poética não é exposta nos versos, mas nas ações – como a invasão de uma biblioteca e a destruição de livros clássicos, só para que trechos dispersos sejam colados à parede, formando uma “nova” literatura.

Michael C. Hall e Daniel Radcliffe em Versos de um Crime

Kammerer logo torna-se uma peça central: apaixonado por Carr, ele parece persegui-lo numa estranha relação de cumplicidade e medo. O personagem foi real e o caso ambíguo entre os dois nunca foi, de fato, desvendado. Na interpretação de Krokidas, as tensões são sexuais, tanto entre Carr e Kammerer quanto entre Carr e Ginsberg – que, sim, protagonizam um beijo bem quente, mesmo que rápido.

“Versos de um Crime” é um filme apaixonado por literatura, que prova em imagens e ações a força das ideias de uma geração de escritores. Para amantes de livros, será um cult. Para fãs de romances trágicos, será, no mínimo, marcante. Para todos os outros, é um filme que impressiona pelo visual, pela música e pelas atuações. Um must.

Assista se você:

  • Quer ver grandes interpretações de Radcliffe e DeHaan
  • Gosta (muito) de literatura
  • Se interessa por crimes passionais e suas nuances

Não assista se você:

  • Não se interessa por literatura americana
  • Não gosta de filmes biográficos
  • Não quer ver um filme com romances homossexuais

Por Juliana Varella

Atualizado em 6 Set 2016.

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