Guia da Semana

“Frank”: personagem sem rosto lidera comédia dramática indie

Filme estreia no dia 16 de abril nos cinemas

Esqueça qualquer expectativa que você tenha sobre “Frank”. Um filme cujo protagonista veste uma cabeça de cartoon gigantesca e é o líder de uma banda psicodélica tem, acima de tudo, a obrigação de surpreender.

O filme segue o ponto de vista de Jon (Domhnall Gleeson), um aspirante a músico que tenta encontrar nas situações mais cotidianas a inspiração para novas canções – em geral, sem sucesso. Um dia, após presenciar a tentativa de suicídio de um tecladista, Jon se oferece para substituí-lo num show.

A apresentação acaba sendo um desastre, mas, mesmo assim, a banda liderada pelo enigmático Frank (interpretado por um ator que manteremos em sigilo, mas que experimenta aqui uma postura totalmente diferente de qualquer outro papel em que já trabalhou) abraça-o como um novo integrante, e vai passar uma temporada no campo para gravar um álbum. O que acontece lá está além de qualquer explicação lógica, mas tem a ver com criatividade, loucura e as economias de uma vida inteira jogadas pelo ralo.

“Frank” é um filme sobre música tanto quanto é sobre solidão, sucesso e expectativas. Quebram-se as de Jon em relação a Frank e também as nossas em relação aos dois. Jon quer se sentir parte de uma banda revolucionária, mas não é. Ele quer que o Twitter lhe dê todas as respostas, mas não dá. Quanto a nós, queremos acreditar que Frank é um gênio da música e que Jon é o novato que vai  aprender com ele, mas também não é isso.

Ironicamente, são os personagens mais detestáveis (em especial a instrumentista histérica interpretada por Maggie Gyllenhaal) que trazem equilíbrio a essa estranha família – e entendê-la como uma família, por trás de todo o barulho, é essencial para se chegar são ao final.

O longa, escrito por Ron Jonson e Peter Straughan, é inspirado na história de um homem real chamado Chris Sievey - um músico que, nos anos 80, criou um personagem para comédias stand-up chamado Frank Sidebottom, que usava uma cabeça como a que vemos no filme.

Apesar de ser dedicado a Sievey, o Frank dos cinemas não é (nem pretende ser) o mesmo da vida real. Em primeiro lugar, ele não é apenas cômico. Sua postura é silenciosa e observadora e, à medida em que o conhecemos melhor, percebemos que sua identidade é essencialmente trágica.

A ligação com a música é um elo em comum entre os dois, mas até isso é distorcido no filme. Aqui, não se fazem canções “agradáveis”, mas criam-se obras de arte, íntimas e impenetráveis. Como consequência, o sucesso é apenas um horizonte distante na carreira-vida deste Frank – e talvez seja exatamente dessa distância que ele precise. 

Atualizado em 14 Abr 2015.

Por Juliana Varella
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