Guia da Semana

História de Ritas

Conhecida pela personagem que interpretou, Rita Cadillac é a estrela de um documentário que humaniza sua história e apresenta ao público uma mulher comum e batalhadora.


Foto: Divulgação

Em um ambiente claro e um tanto asséptico, uma loira de cinquenta e tantos anos usa um vestido preto, curto e colado em demasia - como se tivesse pouco mais de duas décadas de vida. Sem perder o sorriso, o carisma e a sensualidade, ela se desdobra em várias para dar conta de atender a repórteres, fotógrafos, apresentadores, fãs e curiosos de diferentes procedências. Todos são tratados por termos carinhosos, como 'querido', 'gracinha', 'lindo'. Personagem que habitou a imaginação de muitos marmanjos, a loira é Rita Cadillac e o local é o Espaço Unibanco de Cinema, na cultuada Rua Augusta, onde aconteceria a pré-estreia de Rita Cadillac, a Lady do Povo, que chega em algumas capitais em 09 de abril.

"Quando me ligaram dizendo que queriam fazer um filme sobre mim, eu não acreditei, achei que era uma pegadinha", revela Rita antes de posar para uma foto com um fã. Ela só foi ter certeza de que a coisa era séria mesmo quando o diretor paulista Toni Venturi (do elogiado Cabra-Cega) foi até sua casa e a apresentou o projeto pessoalmente. "Aí eu topei na hora", lembra a dançarina.


Foto: Diego Dacax

A obra mostra ao público a história de Rita de Cássia Coutinho alternadamente com a da personagem que interpreta há mais de 30 anos. A ideia de fazer um documentário sobre Cadillac veio das pesquisas que Venturi fazia acerca do massacre do Carandiru. "Vendo os filmes do Hector Babenco, do Paulo Sacramento e lendo o livro do Drauzio Varela, percebi que havia uma personagem que estava em todas as obras, era a Rita Cadillac. Foi aí que eu comecei a me interessar por ela", explica o diretor.

Com uma história difícil e ao mesmo tempo bonita e intrigante, Rita foi criada pela sua avó paterna, com quem sua mãe a deixou logo após o parto. O pai de Rita, figura idolatrada pela musa, morreu de leucemia antes dela nascer. Militante de esquerda, a avó da menina escondia diversas pessoas que eram perseguidas pela ditadura militar e, por conta disso, teve que colocá-la em um colégio interno.


Foto: Diego Dacax

Apesar de ter constituído uma carreira totalmente associada à sexualidade, Rita teve experiências traumáticas em relação ao sexo. Ao contrário do que se pode pensar, ela casou virgem e só teve a primeira relação com o marido após ter sido embriagada por ele. "Eu não queria consumar o casamento, tinha casado com ele para fazer birra pro Mario e não queria transar", revela. Mario foi o primeiro amor da vida de Rita, com quem ela quase teve a sua primeira vez, não fosse a irmã do rapaz ter aberto a porta do quarto na hora H.

Todas essas passagens são narradas no documentário junto com as histórias da mulher que ficou famosa a partir de sua carreira como chacrete - dançarina do programa do lendário Chacrinha.

A ideia de ir intercalando a história da Rita de com a de sua personagem, explica Toni, veio quando o diretor conheceu pessoalmente a mulher que pretendia retratar. "O lado de Rita associado à sensualidade já estava batido demais, não teria porque fazer um documentário apenas sobre isso", explica.


Foto: Diego Dacax

Mesmo não tendo como foco principal esse aspecto, o filme não deixa de abordar as histórias ligadas aos filmes pornográficos que Rita fez e o breve período em que ela teve que se prostituir para pagar suas contas e sustentar seu filho.

Um dos pontos fortes do documentário foi o fato de o filme ter abordado o segundo casamento de Rita de Cássia Coutinho, que chegaria ao fim dois anos depois, em 2009.

Rita quer viver até os 100 anos. Talvez por isso tenha deixado o bairro de Santana, em São Paulo, e mudado para Praia Grande, no litoral sul paulista, onde vive com seus dois poodles. Ao ser questionada sobre o que gostaria de fazer após deixar de ser dançarina, Rita não pensa duas vezes: "Quero trabalhar na TV, quem sabe um dia eu não apresente um programa?".


Atualizado em 6 Set 2011.

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