Guia da Semana

Misturando a arte ao cinema, "Saint Laurent" mostra o lado mais rock'n'roll do estilista

Nova cinebiografia do estilista não poupa sequências pesadas em um retrato fiel na cena artística dos anos 60.

Depois do filme sobre a vida de Yves Saint Laurent que estreou recentemente, uma segunda cinebiografia do estilista entra na mira dos cinéfilos - e amantes da moda, é claro. Saindo direto de Cannes, o longa de Bertrand Bonello, não autorizado por sinal, estreia em São Paulo ainda este ano e mostra um Saint Laurent muito mais icônico e rock'n'roll. Com 150 minutos de duração, a carreira e detalhes biográficos dão lugar a cenas recheadas de abuso de drogas e sexo, em uma ensaiada divisão para cada um desses aspectos.

Situado entre os anos de 1967 e 1976, o roteiro dedica-se ao auge da carreira do estilista. "Saint Laurent" ainda foca nos amantes do artista, como o empresário Pierre Bergé e o homme fatale Jacques de Bascher, vivido pelo galanteador Louis Garrel. A amizade com Andy Warhol não fica de lado, mostrando também o diálogo do filme com outros movimentos artísticos, e também sociais, da época. Violentas cenas de protestos pelas ruas de Paris são contrastadas com belíssimas modelos desfilando as criações de Laurent. Truffaut, Françoise Hardy e Velvet Underground são citados ao som de uma trilha sonora mais cool impossível. O papel do protagonista fica a cargo de um impecável Gaspard Ulliel, que até então atuou apenas em filmes europeus e em um ou dois best-sellers.

Homenagear ícones da história é prática comum nos cinemas - e no mundo da moda não é diferente. Da cinebiografia de Coco Chanel até o documentário da Vogue de Anna Wintour, diversos artistas já foram eternizados nas telonas. O diferencial é a forma com a qual eles são tratados. Diferente do primeiro filme que vimos sobre Saint Laurente, o longa de Bertrand Bonello parece ser mais sincero, não poupando as características mais cruas do estilista - as cenas de drogas são muito mais pesadas que (as poucas) sequências de sexo.

Aqui, julgamentos morais não são pauta - o que importa é a lealdade com a qual a personagem é apresentada. "Não faço comparações porque não vi o outro filme, me concentrei no meu projeto. Tomamos a liberdade de fazer o filme que quisemos. Para ser livres, precisamos trabalhar no nosso canto", disse Bonello em entrevista para o UOL.

Como era de se esperar, a direção de arte e figurino de "Saint Laurent" são encantadores e para nenhum fã de Xavir Dolan ou Lars Von Trier botar defeito. Vibrantes cenas em boates ou até os coloridos rascunhos e tecidos dão um tom de leveza e balanceiam as sequências mais pesadas do filme. Em "Saint Laurent", Bonello mostra não só a sua mão cheia como roteirista, como também o seu olhar afinadíssimo para as questões de imagem. Assistir ao seu filme é como visitar uma exposição na Palais Galliera ou encher os olhos com algum filme experimental de Warhol. Vale a pena conferir - e muito.

Atualizado em 13 Nov 2014.

Por Ricardo Archilha
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