Guia da Semana

No (outro) caminho das Índias

Com uma fotografia delicada e um enredo envolvente, as atrizes que queriam trabalhar no cinema indiano acabam passando por uma jornada espiritual

Foto: Divulgação


Na primeira cena de Bollywood Dream, longa brasileiro que estreou há duas semanas em São Paulo, as três protagonistas, vividas por Paula Braun, Lorena Lobato e Nataly Cabañas, têm que explicar ao rapaz da imigração indiana o que pretendem fazer na Índia. A única que sabe falar inglês serve de intérprete para as amigas. Sincera, uma delas diz: "Vim porque estou desempregada, tenho um filho e sou atriz, e sei que vocês produzem milhares de filmes por ano", ao que a precavida colega traduz como: "Vim para uma jornada espiritual". O início bem-humorado do filme da jovem cineasta Beatriz Seigner já antecipa o que o espectador encontrará ao longo dos 90 minutos do longa: leveza e momentos de rara delicadeza no atual cinema brasileiro. Filmado em 2008, Bollywood Dream  levou apenas 12 semanas para ser concluído, com locações em nove cidades indianas. 


Em formato que lembra o documentário, com uma câmera que segue as amigas em meio a belíssimas imagens da Índia, acompanhamos as peripécias das garotas em um país multifacetado, repleto de contrastes e peculiaridades. O espectador quase se sente como uma das meninas, que desembarcam em uma terra da qual sabem muito pouco, mas onde pretendem conquistar novas oportunidades, experiência e sucesso. A naturalidade do trabalho dos atores é uma das sacadas da direção, que optou por dirigir indianos e brasileiros seguindo o mesmo conceito que rege o jazz: dando liberdade aos atores para manifestar as emoções de cada momento.


Acreditando que Mumbai seja a "terra prometida" dos tempos de BRIC, elas se aventuram em busca de testes para ingressar nos musicais da Hollywood indiana. Nem os percalços que elas encontram no caminho as desanimam. As diferenças culturais são abordadas de forma singela, como nas cenas em que pedem a um garoto de uns dez anos que as ensinem a dançar - são as mais divertidas do filme. Exigente e sistemático, o menino vai até o fim para que as brasileiras aprendam as coreografias. As "aulas" acontecem na laje do hotel onde estão hospedadas, de onde é possível visualizar toda a cidade. 


Não há deslumbre com a "cultura exótica" nem aversão ao lado menos colorido do país. Há aceitação, comunhão, quase como se elas soubessem que tudo ia dar certo, que era preciso entender a Índia, absorvê-la. A cuidadosa fotografia do filme colabora para transmitir a sensação de que há ordem no caos. Enquanto procuram testes nas produções bollywoodianas, elas se deparam com a beleza das multidões, das vacas sagradas, dos rituais, da comunicação truncada, e descobrem mais a respeito de si.


Antes que remeta à autoajuda de livros como Comer, Rezar, Amar, que recentemente ganhou as telonas com Julia Roberts e sua `viagem espiritual` em países como Itália, Indonésia e esta mesma Índia, um aviso: não é isso o que o espectador vai encontrar. Nada de sorrisos fáceis e galãs como Javier Bardem. A "jornada" pela qual as personagens passam não é intencional. Ela é experimentada aos poucos, nos trens superlotados, nos templos que visitam, no questionamento que se fazem diariamente quase sem querer, e não nos ashrams de butique de Hollywood. Quando se dão conta, as moças já mudaram, já fizeram suas escolhas. Fazer filmes em Bollywood talvez não fosse, talvez, o mais importante. No final, o que disseram para o moço da imigração era a mais pura verdade.


Leia a coluna anterior de Vivian Ragazzi:

Enigmático e perturbador

Quem é a colunista: Alguém que gosta de ouvir (e de contar) histórias.

O que faz: Jornalista.

Pecado gastronômico: Comida japonesa e qualquer prato que leve camarão.

Melhor lugar do mundo: Normalmente, me atraem lugares com culturas milenares, como Turquia, India, Marrocos...

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: Rock clássico, MPB.

Para falar com ela: vragazzi@gmail.com


 

Atualizado em 12 Set 2011.

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