Guia da Semana
Cinema
Por Juliana Varella

“O Dançarino do Deserto” explora o caráter subversivo da dança no Irã

Filme se inspira na história real de um dançarino que montou uma peça clandestina no deserto.

Filme se baseia na história do dançarino Afshin Ghaffarian (Divulgação)

Um jovem dançarino e seus colegas numa universidade no Teerã decidem formar um grupo de dança clandestino, num lugar onde dançar é pecado e uma “polícia da moral” patrulha as ruas. A história de “O Dançarino do Deserto”, que estreia nesta quinta nos cinemas, poderia ser tema de uma distopia futurista, bem distante deste século, mas é baseada em fatos reais.

O protagonista, Afshin Ghaffarian, leva o nome do artista que inspirou o filme: um dançarino iraniano que, em 2007, organizou uma apresentação secreta no meio do deserto e, em 2009, foi obrigado a se exilar e levou seu protesto aos palcos.

O longa oferece um registro não apenas desta história, mas também de um período bastante agitado no país, quando os jovens foram às ruas protestar contra o presidente, pouco antes das eleições de 2009. Quando o resultado saiu (e Ahmadinejad foi reeleito), o povo voltou a se exaltar, alegando fraude nas apurações.

O filme apresenta Afshin (Reece Ritchie) como um garoto de cabelos compridos que, quando criança, via “Dirty Dancing” às escondidas e, na faculdade, quebra a censura do Youtube para aprender novos passos. Toda essa paixão pela dança acaba contagiando os amigos, estudantes de teatro e engenharia que se juntam a ele para ensaiar.

Uma moça logo chama a atenção do jovem. Ela é Elaheh (Freida Pinto), filha de uma dançarina de verdade (dos tempos em que ainda havia uma Companhia de Dança iraniana) que ajuda o grupo a evoluir tecnicamente. Paralelamente, ela vai revelando segredos que revoltam Afshin e denunciam outros problemas latentes do país.

O filme, feito para amantes de dança contemporânea, não economiza nas cenas de ensaios e apresentações, oferecendo ao mesmo tempo uma biografia e um espetáculo visual – especialmente na cena do deserto.

Além de deixar o público interessado no destino do personagem (ele conseguirá se tornar um dançarino de sucesso? Ficará com a mocinha?), o filme ganha pontos ao levantar uma discussão séria e urgente sobre censura. Quantos artistas não terão desistido de sua arte – ou do país – por medo da repressão? Quantos não terão morrido ou perdido suas famílias na luta pelo direito de expressão?

“O Dançarino do Deserto”, dirigido pelo inglês Richard Raymond, tenta dar ouvidos a uma juventude que tem se imposto nos últimos anos e leva ao púbico, como resultado, uma história doce de amor e arte – ingredientes essenciais na luta contra a violência.


Por Juliana Varella

Atualizado em 14 Abr 2015.

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