Guia da Semana

O fino humor americano


A Globo exibiu, há algumas semanas, uma bobagem chamada O Trapaceiro (2005), na qual Johnny Knoxville, aquele mesmo do Jackass, se passa por débil mental para vencer as olimpíadas especiais. O filme é um belo exemplar do mau gosto dos americanos quando se trata de humor, já que eles parecem adorar fazer piadas com deficientes, gordos, negros, estrangeiros e tudo que consideram fora o padrão.

Vide, por exemplo, a filmografia dos irmãos Peter e Bobby Farrelly, responsáveis, aliás, pela produção do Trapaceiro. Em Quem Vai Ficar com Mary (1998), tem um irmão retardado, respiração boca-a-boca em cachorro e gel de esperma. Já em Ligado em Você (2003), os alvos são irmãos siameses.

No filme O Amor é Cego, de 2001, Gwyneth Paltrow é transformada em uma obesa mórbida e Jason Alexander, o gordinho do Seinfeld, ganhou uma cauda. Tudo isso, para os Farrelly, é motivo de pilhéria.

Tudo bem. Apesar de não serem politicamente corretos, esses filmes têm seus momentos engraçados. O cinema americano, porém, consegue fazer bem pior em filmes como os da série O Professor Aloprado (1996 e 2000), com cenas e mais cenas de piadas de flatulência. Não sei vocês, mas gente peidando não costuma me fazer rir. O astro do filme é Eddie Murphy, que também estrela os igualmente sem-graça Doutor Dolittle I e II (1998 e 2001), em que as gracinhas consistem em papos com animais falantes.

Pode ser que você me ache chato, que estou exigindo demais de obras despretensiosas como as comédias. Acho, porém, que elas pelo menos deveriam fazer rir. Para mim é dificílimo achar graça naquelas incontáveis paródias do filme Pânico que fazem bastante sucesso por aqui. O Brasil, aliás, parece digerir muito bem o que há de pior no humor americano, já que desgraças como As Branquelas (2004), Vovozona (2000) e Não é Mais um Besteirol Americano (2001) costumam atrair o público aos cinemas e às locadoras.

Cineastas como Woody Allen e os outros irmãos, os Cohen, mostram que os EUA conseguem fazer humor de qualidade quando querem. Isso sem falar de Charles Chaplin (que era inglês, mas filmava nos Estados Unidos) e Buster Keaton. Tenho a impressão, porém, que o público premia cada vez mais a demência, já que a audiência de uma comédia, atualmente, parece ser inversamente proporcional à sua qualidade. Isso, aliás, é um problema do cinema em geral. Mas tudo bem. O importante é que a máquina continue rodando e os dólares entrando.

Leia as colunas anteriores do Robinson:

  • Cinema de alto orçamento: O preço do ingresso não anda ajudando os fãs da sétima arte

  • Movie Titles: Nomes escolhidos para alguns filmes que beiram o mau gosto

  • Invasões bárbaras: Como o comportamento alheio tira a paz de qualquer cidadão no cinema

    Fotos ilustrativas: Divulgação e www.sxc.hu Quem é o colunista: : Robinson Melgar, 29, não estudou e por isso ganha a vida escrevendo sobre informática. Seu sonho é virar a maior autoridade em cinema de sua rua.

    O que faz: é jornalista.

    Pecado gastronômico: x-calabresa.

    Melhor lugar de São Paulo: Rua Augusta.

    Acesse o site dele: www.morfina.com.br.
  • Atualizado em 6 Set 2011.

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