Guia da Semana

“O Passado” mergulha em drama familiar cheio de segredos

Novo filme do diretor de “A Separação” repete dilemas éticos do anterior, mas não alcança o mesmo efeito.

Em 2012, um iraniano surpreendeu ao vencer o Oscar de melhor filme estrangeiro e conquistar um relativo sucesso de bilheteria no Brasil. “A Separação”, de Asghar Farhadi, era um drama sobre dilemas éticos que não oferecia respostas e deixava o espectador atordoado, repensando suas próprias ações. Farhadi agora apresenta seu novo longa, “O Passado”, que chega aos cinemas no dia 24 de abril depois de passar pelo Festival Varilux. O filme, favorecido pela visibilidade do anterior, vem também mais carregado, como se amaldiçoado por sua sombra.

“O Passado” foi produzido na França e traz a charmosa Bérénice Bejo (de “O Artista”) no papel principal. Ela é Marie-Anne, mãe de duas meninas que mora com o namorado e seu filho de 5 anos. O ex-marido (que não é pai das crianças) vem de Teerã a Paris para assinar o divórcio.

O passado do título vai se revelando aos poucos, e logo percebemos que não é um só – mas o de cada personagem, numa rede que se entrelaça e se choca. A tensão emocional é traduzida em chuva: Marie e Ahmad (o ex, interpretado por Ali Mosaffa) estão frequentemente ensopados, e parecem não se importar. A tempestade é inevitável, como são as consequências de antigos atos.

Como a água, também os sons do ambiente têm significado especial: misturam-se à trilha musical criando pontos de tensão entre uma cena e outra (algo que lembra o brasileiro “O Som ao Redor”). O medo e a mágoa são crescentes, mas também constantes, como se a vida nunca estivesse totalmente livre de preocupações (nesse ponto, “O Passado” se aproxima muito de “A Separação”).

Bérénice entrega uma interpretação radicalmente oposta àquela que a consagrou em 2011. Aqui, ela é egoísta, do tipo que foge dos problemas. Chega a ser bruta com os filhos e o enteado.  Já Mosaffa é seu equilíbrio: sereno, racional, generoso o suficiente para dedicar um filme todo a resolver os problemas de outros.

Quem também se faz perceber é o pequenino Elyes Aguis, que vive Fouad (filho do namorado de Marie). Birrento como a mais endiabrada das crianças, ele protagoniza algumas das cenas mais sinceras do drama, mas também se controla e trava um diálogo pesado com o pai numa estação de metrô.

“O Passado” é um filme forte, cheio de sentidos muito pessoais, mas prejudicado pela expectativa. As imagens são limpas, dispostas em quadros perfeitos como na emocionante cena final. A trama, contudo, nos prende apenas enquanto assistimos àquelas vidas, atormentadas por problemas menos universais do que no filme de 2012. Depois, a experiência se esvai como a chuva que molhava Marie e Ahmad.

 

Assista se você:

- Gostou de A Separação
- Gosta de filmes europeus, mais centrados em dramas familiares
- Quer ver um filme mais “cabeça”

Não assista se você:

- Não gostou de A Separação
- Não gosta de filmes muito sérios
- Procura um filme leve ou romântico

 

Atualizado em 9 Mai 2014.

Por Juliana Varella
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