Guia da Semana

O polonês "Ida" questiona o papel da mulher e é forte concorrente ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

O diretor Pawel Pawlikowski tece uma bela trama sobre auto-conhecimento e redenção.

Aos poucos, os candidatos ao posto de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2015 estão chegando ao Brasil. "Ida", o escolhido da Polônia, é o primeiro deles. Não é à toda que o filme é dos maiores cotados a receber a estatueta. Nomeado ao mesmo prêmio no Globo de Ouro, "Ida" vem chamando atenção e a passagem por grandes festivais internacionais é a maior prova. Além disso, é certo que o longa de Pawel Pawlikowski é um dos melhores que vimos ao longo do ano.

A jovem noviça Anna está pronta para prestar seus votos e se tornar freira, só que antes disso, vai visitar a única familiar restante: sua tia Wanda, uma mulher cínica e mundana, defensora do Partido Comunista, que revela segredos sobre o seu passado. Anna descobre que o seu verdadeiro nome é Ida, além de pertencer a uma família judia, capturada e morta pelos nazistas. Após a revelação, as duas resolvem partir em uma jornada de autoconhecimento, para descobrir o real desfecho da história da família e onde cada uma delas pertence na sociedade polonesa.

Filmado em p&b, "Ida" encaixa-se ao chamado cinema de arte, aquele que experimenta, além do conteúdo, formas que fogem do padrão. A edição cuidadosa e o ritmo lento lembram as produções do cineasta sueco Ingmar Bergman, um dos mais importantes da história do cinema. A beleza de "Ida" não está só na sua história, mas na construção do paradoxo da protagonista, que é conduzida à uma viagem dentro de si, confrontando diretamente as suas crenças.

O filme é dividido por etapas do auto-conhecimento da personagem. A primeira delas é o fato de ser judia, um forte embate em relação a sua posição católica. Aos poucos, Ida coloca em xeque tudo o que acreditava ser até então. Em uma das cenas mais belas do filme, a noviça retira seu capuz, soltando os cabelos, mostrando que antes de ser uma freira, ela é, afinal, uma mulher. Os confrontos continuam: com a tia e sua personalidade que representa exatamente o oposto de Ida e, depois, os desejos sexuais reprimidos, ao se apaixonar por um saxofonista. O quão diferente ela é tia? O quanto ela está disposta a abandonar para ser quem realmente é? 

Mais do que o processo de auto-conhecimento, inerente à qualquer pessoa, "Ida" toca na ferida do papel da mulher e todas as renúncias que ela fazer para se enquadrar no socialmente aceito. A beleza da fotografia é uma conversa direta com a delicadeza do roteiro, uma tarefa que poucos cineastas conseguem exercer. Em meio a tantas ótimas indicações, "Ida", talvez seja a grande pérola do cinema internacional. 

Atualizado em 3 Fev 2015.

Por Ricardo Archilha
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