Guia da Semana

“O Sal da Terra”: biografia mostra Sebastião Salgado como um grande contador de histórias

Documentário foi dirigido pelo filho do fotógrafo e por Wim Wenders.

Muita gente nem sabia, mas, entre os indicados ao Oscar 2015, havia um representante brasileiro – ou, pelo menos, metade brasileiro. “O Sal da Terra”, documentário sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, foi dirigido pelo filho dele, Juliano Salgado, e por Wim Wenders, e chega aos cinemas neste mês trazendo uma verdadeira aula de fotografia, antropologia e, principalmente, História.

O filme ganha pontos ao se mostrar interessante tanto para quem ama fotografia quanto para quem não é tão íntimo desse universo. Na verdade, as imagens (estonteantes) clicadas por Salgado servem mais como ilustração para uma narrativa de aventuras do que como objeto propriamente dito.

“O Sal da Terra” segue dois caminhos paralelos: um é a trajetória do artista, de economista a fotógrafo e de observador da miséria a agente de mudança; o outro é a trajetória do filho, da criança que nunca via o pai ao companheiro de viagens que o documenta (referindo-se a ele, respeitosamente, como “Sebastião”).

Apesar do tom às vezes excessivamente didático das narrações, é difícil não se deixar levar por essa jornada ao redor do mundo. Partimos de Serra Pelada e passamos por Indonésia, Etiópia, Kuwait, Ruanda e Alasca, até surpreendentemente desembarcarmos na beleza de Galápagos – onde uma tartaruga de centenas de anos nos encara, acima de todas as diferenças. “Aquela tartaruga pode ter conhecido Darwin”, aponta o fotógrafo, amarrando as pontas de sua obra.

De fato, é a História que conecta tudo: uma história de guerras e violência, mas também uma história de pessoas, extremamente parecidas apesar da distância geográfica. Cada quadro é descrito pelo artista não por suas características estéticas, mas pelas histórias que conta. “As duas crianças com olhos vivos sobreviveram; a de olhar mais apagado acabou morrendo”, lembra-se, diante de uma foto tirada para o projeto “África”.

O fotógrafo recorda tantos detalhes porque, a cada viagem, instalava-se junto a uma comunidade durante meses, vivenciando suas maneiras e suas tragédias antes de captá-las em preto-e-branco. O resultado, como nota Wenders, é que Sebastião Salgado deixa de ser apenas um fotógrafo, para se revelar um grande contador de histórias, a quem gostaríamos de ficar ouvindo ao pé da lareira, horas a fio.

“O Sal da Terra” integra o festival EcoFalante de Cinema Ambiental antes de estrear em circuito comercial no dia 26 de março.

 

Atualizado em 19 Mar 2015.

Por Juliana Varella
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