Guia da Semana

Os Indomáveis

A refilmagem de Galante e Sanguinário mostra a história de dois homens que seguem princípios próprios: um da retidão; o outro, da ausência dela

Foto: Divulgação/Focus Filmes


Um amigo meu, que tem a ilusão de que eu conheço todo tipo de filme, me pediu essa semana uma boa dica de filme de bangue-bangue. Deixo de lado a modéstia e digo que, o que ele chama de bangue-bangue, eu chamo de western.

Sendo considerado um gênero tipicamente americano, o western já presenteou os amantes de cinema com grandes filmes e grandes diretores. E, apesar de já se ter anunciado sua morte como gênero muitas vezes, ele insiste em voltar de tempos em tempos.


Foi pensando nisso que desisti de indicar para o tal amigo títulos importantes e clássicos do gênero, como são considerados alguns filmes de John Ford, George Stevens, Sergio Leone e Howard Hanks. Também não optei por nenhum dos novos clássicos do gênero, que vieram para mostrar a força do western e refletir sobre o gênero em tempos modernos, como o filme do Clint Eastwood (Os Imperdoáveis), ou, mais recentemente, o filme dos irmãos Cohen (Onde os Fracos Não Têm Vez).

Escolhi indicar um filme menor, que também faz parte da safra magérrima que o gênero produz nos dias de hoje, mas que preserva certa inocência e certo ideal dos velhos bangues-bangues. Filmes em que honra e princípios definem o caráter de um homem.

 

Os Indomáveis (2007), refilmagem de Galante e Sanguinário, de 1957, é um filme sobre o embate de princípios. Um filme sobre a fé de um homem no caminho que decidiu trilhar e até onde está disposto a ir para chegar lá.


De um lado temos Dan Evans (Christian Bale), um fazendeiro endividado que corre o risco de perder suas terras. Embora tenha lutado na guerra e seja um exímio atirador, Evans é uma pessoa pacífica, que não acredita na violência. Mesmo quando seus credores incendeiam seu estábulo no meio da noite, ele se mantém firme em seus princípios. Do outro lado, temos Ben Wade (Russell Crowe), o temido líder de um bando que rouba, mata e aterroriza sem qualquer piedade.


Os caminhos de ambos se cruzam quando Wade é capturado e Evans, precisando de dinheiro, aceita receber uma boa quantia para ajudar a escoltar o bandido até a próxima cidade, onde ele será colocado num trem para a prisão de Yuma. Evans sabe que a tarefa é perigosa, pois o bando de Wade está solto e fará de tudo para resgatá-lo.

O embate entre Evans e Wade não se dá por armas, mas com palavras e gestos. O primeiro acredita em seus princípios e se preocupa em repassá-los aos dois filhos, de 14 e oito anos. Contudo, sente brutalmente o peso de seu descrédito diante da família, que o julga covarde. Isso fica claro através da esposa, que evita olhá-lo nos olhos, e no desprezo que sente no olhar dos filhos. Já Wade representa o oposto. Ladrão e assassino frio, ele se mostra implacável mesmo entre seus homens, não hesitando em executar qualquer um que, por descuido, ponha em risco as ações do grupo.

Mas Wade não é um vilão caricato e estereotipado. Ele é galante, irônico, oblíquo e, mais que tudo, carismático. Sua crueldade confunde-se com seu charme, sarcasmo e cinismo. Mais uma vez, o oposto de Evans, que é um homem sisudo, quieto, introspectivo. Ambos, veladamente, defenderão suas posições, tendo como pêndulo que oscila entre um e outro o filho mais velho de Evans, dividido entre o fascínio pelo criminoso e o amor que resta por seu pai.

Entre tentativas de fuga e perseguições desenfreadas, entre demonstrações de crueldade e de retidão de princípios, o desfecho desse confronto se dá não no clichê de um longo tiroteio, mas num pequeno quarto de hotel. Ambos, desprezando o caráter um do outro, colocam suas cartas na mesa e seus princípios como aposta. Duas linhas divergentes, mas sempre muito próximas, para dispor seus argumentos, mostrando até onde se sustenta um ideal; seja pela convicção num credo particular, seja pela total ausência de credo.


Ainda que o diálogo no quarto de hotel, pouco antes do fim, seja o ponto alto do filme, é na sequência final que se mostra claramente quem venceu o embate. E essa demonstração virá num simbólico gesto de ira implacável, que poderá também significar a tomada de um outro rumo, ou a impossibilidade dele.


Esta surpresa final, sua dubiedade marcante, encerra com perfeição um filme que se susteve sempre no campo do ideal e do caráter. Um filme sobre as decisões que marcaram as vidas de dois homens e definiram seus destinos, para o bem ou para o mal, de maneira incontornável.


Leia as colunas anteriores de Rogério de Moraes:

Os mercenários e o conflito de gerações

O Segredo do Grão

Duas Semanas de Filme

Quem é o colunista: gordo, ranzinza e de óculos.

O que faz: blogueiro, escritor e metido a crítico de cinema.

Pecado gastronômico: massas.

Melhor lugar do Brasil: qualquer lugar onde estejam meus livros, meus filmes, minhas músicas, meus amigos e minha namorada.

Fale com ele: rogercodegm@gmail.com ou acesse seu blog


Atualizado em 6 Set 2011.

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