Guia da Semana

Para atrás das câmeras

Colunista escreve a respeito do longa Cabeça a Prêmio, que conta com Eduardo Moscovis no elenco e marca a estreia de Marco Ricca como diretor.



Em sua estreia na direção, Marco Ricca demonstra segurança e boa mão para conduzir uma narrativa no seu tempo certo. Cabeça a Prêmio, que já chegou aos cinemas, é uma adaptação do romance homônimo de Marçal Aquino. A história se passa numa região fronteiriça do Brasil e tem como trama o envolvimento de um piloto de avião ( Daniel Hendler) - que faz o transporte de drogas de um lado para outro da fronteira - com a filha de seu patrão (Alice Braga).

Mas o filme é mais do que a aventura e a desventura desse casal. O romance deles traz, como pano de fundo, a sanha dos poderosos, a soberba e a embriaguês com que muitas vezes o poder encharca as pessoas.

Nesse contexto estão os irmãos Miro (Fulvio Stafanini) e Abílio (Otávio Müller), prósperos pecuaristas que, seduzidos pelo dinheiro fácil e pelo poder, passam também a fazer o transporte de droga pela fronteira. É o conflito amesquinhado, a tensão superficial prestes a romper-se que dá o tom da relação entre eles. De um lado o irmão mais velho, mão de ferro dos negócios, personificado pela obesidade patriarcal e o olhar de dono; do outro lado o ressentido irmão, que não se sente respeitado e na sua soberba de vice-rei "enxuga" seu uísque como quem trama a queda do rei.

Há também a dupla de ex-policiais, que prestam serviços de "segurança" para os patrões. São o braço cerceativo desse poder corrompido, que ameaça, promulga, lavra e executa sumários, a mando dos patrões.

O fronteiriço cenário do filme é a mais perfeita metáfora desses personagens, que se dividem, que atravessam suas próprias fronteiras em busca de algo que eles mesmos desconhecem, perdidos que se encontram num mundo de limites e matizes indefinidos. Como num diálogo emblemático entre os seguranças Albano (Cássio Gabus Mendes) e Brito (Eduardo Moscovis), onde se diz que naquele lugar as pessoas não entendiam o meio-termo; ou se está com Deus ou com o diabo, ou é bom ou é mau; no que um deles pergunta: e a gente é o que? E o outro responde: a gente é bom, só que está do lado errado.

Esse diálogo é a chave para se compreender a divisão difusa do caráter dos personagens, dessa história de amor, vingança e recalque. O grande destaque do filme, sem dúvida é a força de todo o elenco, sem exceções. Todos, absolutamente todos, estão impecáveis em seus papéis. Mas há ainda que se destacar Fúlvio Stefanini e seu olhar de dono, e Eduardo Moscovis e sua dúvida moral expressa nas feições duras, no calado de seu personagem, na atitude que vai da hesitação à ameaça de um olhar, onde a morte não tem receio de aparecer. E, por fim, Alice Braga que, na cena final, alcança um tom que paralisa o expectador diante de seu gesto final, numa cena de força imensa.

Marco Ricca consegue um resultado surpreendente em sua estreia como diretor. Realiza um filme com personagens intensos, marcantes, mas sem deixar cair a narrativa. Faz o filme se desenrolar num ritmo cadenciado, preciso, nem eufórico, nem sufocante. Conduz a história para o crescente final, onde os conflitos eclodirão com a mesma força contida que seus personagens demonstraram durante toda a produção. Cabeça a Prêmio é um filme forte sem precisar ser chocante, traz sua força na história de personagens, cujas fronteiras se confundem e cujo desfecho os redime ou os afunda ainda mais em suas próprias indefinições.

Leia as colunas anteriores de Rogério de Moraes:

Estilo para todos os gostos

Filme B

O que vem por aí

Quem é o colunista: gordo, ranzinza e de óculos.

O que faz: blogueiro, escritor e metido a crítico de cinema.

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Atualizado em 6 Set 2011.

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