Guia da Semana

Serra Pelada coloca em foco o garimpo brasileiro nos anos 80

Sonho da riqueza alimenta realidade miserável e violenta em novo filme de Heitor Dhalia.

“Você já matou um homem?”, pergunta um policial, recebendo de volta o silêncio de um par de olhos que ocupam toda a tela. “E aquele que está no hospital? Também está envolvido?”. O par de olhos, revelando agora o rosto de Juliano Cazarré, responde que não. “Ele é meu amigo”, explica, anunciando que Serra Pelada, novo filme de Heitor Dhalia, terá nessa amizade seu drama central.

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Juliano (Cazarré, que acaba de viver o vilão Ninho em Amor à Vida) é um homem bruto e sedento por poder, que viaja a Serra Pelada com o amigo Joaquim (Júlio Andrade) em busca do que todos procuram naquele início dos anos 80: ouro.

A região de Serra Pelada, no Pará, virou manchete nos jornais da época por concentrar a procura pelo minério no Brasil, naquele que se tornou o maior garimpo a céu aberto no mundo. Essas manchetes, aliás, são amplamente exploradas pelo diretor, que não hesita em misturar imagens de arquivos a gravações reais, com um visual tão propositadamente sujo que fica difícil diferenciar os dois.

Juliano, contudo, não é o protagonista desta história, mas sim seu colega mais fraco. Joaquim é professor e tem uma esposa grávida, mas decide largar tudo em nome do sonho do ouro. Como percebemos ao longo do filme, tanto ele quanto a mulher têm personalidade passiva e a separação acaba se estendendo por vários anos, sem que a pressão da saudade chegue a sufocar realmente qualquer um dos dois.

Quando chegam à Serra, os amigos encontram um ambiente dantesco: crateras profundas ocupadas por centenas de homens enlameados, alguns deles armados, no que mais parece um formigueiro sem rainha. Salve-se quem puder. Aos poucos, a dupla consegue comprar seu próprio morro e passa a administrar as vidas daquelas “formigas”.

Enquanto crescem como parceiros, Joaquim e Juliano começam a enfrentar a ira de outros empresários locais, interpretados por Matheus Nachtergaele e Wagner Moura, e têm suas vidas ameaçadas mais de uma vez. Vale notar que, ali, não era difícil encerrar um dia com dez ou mais mortos (não apenas no filme, como também na história real). Para piorar, Juliano se envolve com a noiva de um desses gigantes, vivida por Sophie Charlotte num papel bastante sensual.

A relação entre Joaquim e Juliano evolui para uma série de traições e perdões, que se repetem num ciclo predatório para os dois. Não que Joaquim seja estimado por sua inteligência, que permitiu que o negócio prosperasse sob a mão de ferro de Juliano, mas há entre eles algo como uma dependência emocional, que não é respeito nem amor, mas uma amizade cheia de espinhos.

O que chama a atenção no filme é que, mesmo encontrando ouro e ganhando muito dinheiro, ninguém parece se interessar em sair daquele lugar, por mais pobre e isolado que seja. No fim, Serra Pelada não se dá tão bem como um filme sobre amizade do que como um filme sobre a ganância e a animalização dos homens. Um filme sobre formigas raivosas e perigosamente iludidas.

Atualizado em 17 Out 2013.

Por Juliana Varella
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