Guia da Semana

Tilda Swinton e Tom Hiddleston são vampiros estilosos em “Amantes Eternos”

Filme de Jim Jarmusch tenta renovar o gênero com personagens hipsters e clima boêmio, mas resultado é apenas morno.

Chega ao Brasil, mais de um ano após o barulho em Cannes e seis meses depois do lançamento no Reino Unido, o novo longa de Jim Jarmusch, o romance vampiresco “Amantes Eternos”. O nome original, “Only Lovers Left Alive” (algo como “os únicos amantes vivos”), joga com a imortalidade dos protagonistas, mas ganha um segundo sentido quando se termina de assistir ao filme.

“Amantes Eternos” já nasceu Cult, se isso é possível. É de Jarmusch, um diretor de trabalhos pouco assistidos e muito cultuados (“Down By Law”, “Ghost Dog”, “Flores Partidas”), traz Tilda Swinton e Tom Hiddleston nos papéis principais e fala de vampiros. Não de uma forma juvenil aventureira, mas, sim, na linha sensual existencialista de “Fome de Viver”.

Adam (Hiddleston) e Eve (Swinton) habitam o mundo dos homens (“zumbis” para eles) com delicadeza, aconchegados em seus apartamentos escuros sem matar ninguém nem abusar de seu vasto conhecimento cultural. Afinal, eles, como os outros vampiros, são artistas excepcionais, mas desprezam a fama.

É interessante que o filme retrate a imortalidade como um acúmulo quase infinito de cultura, e não apenas de experiências históricas ou perdas. Nas casas dos amantes, livros ocupam o chão, as prateleiras, as malas e até a geladeira. Aparentemente, é isso o que fica entre um século e outro.

Swinton, branca, dolorosamente magra e de olhos assustados, nasceu para ser vampira e delicia-se com o papel. Já Hiddleston, o vilão Loki de “Thor”, “Vingadores” e “O Mundo Sombrio”, parece ter descoberto seu lugar: num quarto bagunçado, rodeado por guitarras antigas, ao lado de Tilda.

Os dois estão casados há mais de cem anos. Talvez por isso, vivem em casas separadas a um oceano de distância, reencontrando-se toda vez que as coisas ficam difíceis ou tediosas. Como é o caso agora: Adam está deprimido, decepcionado com a falta de cuidado dos homens com o mundo, a água e o próprio sangue (atitude que dificulta sua alimentação, cuidadosamente balanceada com O+ puro e desintoxicado).

Eve vai até Detroit para acalmá-lo, mas a relativa paz do casal é quebrada brutalmente pela chegada de Ava (Mia Wasikowska), irmã dela. Sua estadia é curta, mas suficientemente desastrosa para mudar tudo.

Muitas questões lançadas no filme fogem do vampirismo e saltam para o mundo real, humano e cheio de problemas. O sangue que adoenta os vampiros é como a água poluída, metáfora enfatizada num diálogo perto do fim. Por outro lado, longe dos discursos esse mesmo sangue é mostrado como uma droga, contrabandeado em hospitais e sorvido em pequenas doses estimulantes. A contradição não é por acaso.

A visão de Jarmusch sobre os vampiros, como sobre os humanos, é 100% irônica: são criaturas cultas, elegantes e ricas, mas têm instintos que fazem desaparecer toda a doçura em instantes. Seria sua guerra por sangue como uma guerra simbólica por água, diante da qual os homens voltariam a agir como selvagens? Ou seria esta apenas uma história de amor e sobrevivência pelos séculos, de dois observadores cansados de verem se repetir os mesmos erros?

Belo e estiloso, “Amantes Eternos” enche os olhos e agrada quem procura boas atuações. Para quem espera um desfile de caninos e pescoços nus, contudo, o filme decepciona. Seguro demais em sua crítica social, o longa perde a chance de surpreender e acaba entrando na mesma monotonia de seus protagonistas, entediados com a vida politicamente correta do mundo moderno. Seria o tédio, também, proposital?

Assista se você:

  • Quer ver boas atuações
  • É fã de Jim Jarmusch, Tilda Swinton ou Tom Hiddleston
  • Gosta de histórias com vampiros

Não assista se você:

  • Não gosta de filmes lentos
  • Não gosta de filmes muito alternativos
  • Espera ver um filme sombrio ou assustador

Atualizado em 14 Ago 2014.

Por Juliana Varella
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