Guia da Semana

Um cinema em busca de identidade


"Ainda que muita gente desconheça, existe um número elevado de bebês que nascem com o que se chama de ambigüidade genital", constata Lucía Puenzo. Foi a partir dessa realidade que a cineasta escreveu o roteiro de XXY, o qual também dirigiu. O filme ganhou o prêmio Gran Prix da Semana da Crítica em Cannes e é o filme indicado pela Argentina para concorrer o Oscar 2008 de Melhor Filme Estrangeiro.

XXY narra o encontro de duas famílias argentinas muito distintas entre si. Suli, Kraken e a adolescente Alex moram em uma pequena cidade costeira do Uruguai. Sua vidas pacatas são agitadas pela visita de Érika, ex-colega de colégio de Suli, seu marido Ramiro e o filho de 15 anos do casal.

O motivo da visita é de que Suli tem esperanças de que Ramiro, prestigiado cirurgião, possa operar Alex, que nasceu com os dois sexos. Suli persegue o sonho de ter uma filha mulher. Mas a idéia não é aceita pelo seu marido, pai protetor que vive perseguido pelo medo de que a sociedade discrimine sua filha.

Alex é uma jovem ambígua, que está em plena fase de questionar a sua sexualidade. Possui aparência de menina, atitude de menino e uma presença avassaladora que atrai o tímido Álvaro. O garoto também vive sua puberdade e, ao conhecer Alex, se choca com sua identidade.

E, apesar de que o centro da trama é a sexualidade de Alex, todos os outros personagens se envolvem num circulo no qual se descobrem a si mesmos. E isso apenas é possível com a presença do outro, com a convivência entre duas famílias que pensam ser completamente opostas.

XXY não se limita contar o caso especial de Alex, mas fala sobre temas universais como identidade, livre arbítrio, sobre a relação do indivíduo com o seu corpo e sobre as relações familiares. E aborda essas questões de forma intimista, sem a necessidade de grandes cenas melodramáticas ou fatos surpreendentes.

Consegue trazer à luz um tema delicado como a intersexualidade sem pudor e hipocrisia. Isso se percebe em cenas como a que Alex tem relações sexuais com Álvaro, ou quando Alex se vê pelada no espelho. E principalmente, se diferencia por se distanciar de uma visão simplista da sexualidade, na qual existem apenas dois tipos de sexo possíveis.

Além disso, a diretora trabalha muito bem as cenas detalhistas e sutis nas quais conhecemos a complexidade de seus personagens. Mas peca em momentos que tenta explicitar relações na história que não foram trabalhadas e deixa de explorar temas importantes. Uma cena interessante - e desperdiçada - é a que Kraken vai conversar com um hermafrodita. Ele conta que foi operado diversas vezes durante a sua vida e explica que isso o traumatizou. Mas como o personagem fala de maneira indireta e rápida, o espectador não consegue entender bem a questão. E o assunto é chave para entender a escolha da família de não operar Alex.

Apesar de certos deslizes, o filme se destaca pela sua sensibilidade e qualidade. Com um elenco impecável, atores consagrados como Ricado Darin, que interpreta Kraren, são eclipsados pelas excelentes atuações de Inês Efron, como Alex, e de Martin Piroyanski, como Álvaro. Já a Direção de Fotografia se sobressai ao enfocar a natureza do povoado, que assim como os personagens, é crua e particular.

Lucía Puezo mostra primazia em seu primeiro longa-metragem e faz jus ao seu sobrenome. A cineasta é filha do diretor Luis Puenzo, ganhador em 1986 do único Oscar conseguido pela Argentina por A História Oficial. Pode ser que seja difícil para Lucía conseguir uma vaga para concorrer ao prêmio conquistado pelo pai, em meio a filmes como o romeno 4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu, ganhador da Palma de Ouro em Cannes deste ano. Mas a cineasta é forte candidata a entrar para a lista das mulheres que estão dando ares de renovação para o Novo Cinema Argentino, entre nomes como Ana Katz, Albertina Carri e Lucrecia Martel.

Quem é a colunista: Paula Regina Ferreira, uma paulistana tentando sobreviver em terras argentinas.

O que faz: ex-estudante de jornalismo e estudante de Cinema.

Pecado gastronômico: tudo o que seja comida brasileira.

Melhor lugar do Brasil: a Zona Norte de São Paulo.

Fale com ela: paularegina@gmail.com

Atualizado em 6 Set 2011.

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