Guia da Semana

Um drama particular

Colunista escreve a respeito da produção Villa Amalia, do diretor francês Benoit Jacquot


Ao vermos pela primeira vez os expressivos olhos azuis de Isabelle Huppert, por meio do retrovisor do carro, seguindo seu companheiro de 15 anos até a casa de outra mulher, logo imaginamos que estamos diante de um thriller. O deleite maior do filme Villa Amalia está, talvez, na descoberta da transformação de um suspense em um silencioso drama particular, marcado pelas reflexões de Ann, uma renomada pianista contemporânea que decide mudar sua vida drasticamente após a descoberta de uma traição e o reencontro com uma importante figura de seu passado.

Ao reencontrar Georges, um amigo de infância que parece salientar o desejo de Ann de fugir de si mesma, descobrimos que sua insatisfação com a vida parece ser constante. Seu apartamento, antes de ser esvaziado pela mudança, já parece vazio, sem vida, reflexo de um casamento falido e de uma carreira saturada. Em outro momento, quando assistimos a personagem interpretar uma de suas composições ao piano, temos a sensação de que Ann está sozinha, ensaiando, até que um travelling de câmera - muito bem planejado - revela um auditório lotado. Displicente, a pianista abandona a apresentação, sufocada pelo desprazer do que está desempenhando ali.

Em sua quinta colaboração com o diretor Benoit Jacquot, Isabelle Huppert escolhe uma personagem um pouco menos complexa mas, ainda assim, extremamente introspectiva, capaz de honrar o estilo francês. A câmera "ausente" de Jacquot capta o sofrimento silencioso de Ann ao soltar um sufocante grito de desespero - que jamais ouvimos - dentro do carro, após presenciar a traição de seu marido Thomas ou, em outro momento, ao queimar suas fotografias, partituras e gravações. Essa mesma câmera nos guia através das descobertas da personagem, que não parece ter grandes problemas para se desfazer de tudo - marido, casa, pianos e roupas - para procurar a paz.

 Ann, então, parte em uma viagem pela Europa, apagando seus próprios vestígios e se desfazendo de seu passado recente, até encontrar uma pequena casa na costa da Itália, rodeada pela mata virgem e pelo mar. O clichê de utilizar a constante busca por si mesmo na natureza é amenizado pela impressão de que só isso não é o suficiente para acalmá-la.

Em certo momento, Georges diz que é difícil desaparecer hoje em dia, mas a personagem nunca desejou desaparecer, apenas fugir. A fuga, por outro lado, é impossível, pois o desconforto de Ann está dentro dela mesma e de suas relações mal resolvidas com suas verdadeiras vontades, com sua família e com seu passado.

Quem é a colunista: uma cinéfila apaixonada pelo incomum.

O que faz: jornalista de uma rádio em São Paulo.

Melhor filme: Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

Pecado gastronômico: Comida japonesa.

Melhor lugar do mundo: Qualquer cinema, em qualquer lugar.

Fale com ela: marina mailto:marina.alves23@gmail.com  

Atualizado em 6 Set 2011.

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