Guia da Semana
Filmes e séries
Por Juliana Varella

Como a Netflix está obrigando os cinemas a se reinventarem

Mobilidade e assinaturas são tendências irreversíveis no mercado de filmes.

Cinemas e serviços de streaming vivem uma guerra por audiência, mas a tendência é que ambos evoluam juntos (Fotolia)

A Netflix não está poupando esforços para transformar a forma como nos relacionamos com a televisão e com o cinema. Depois de revolucionar o mercado televisivo oferecendo temporadas completas de séries numa tacada só e incentivando a febre das “maratonas”, o serviço de streaming agora quer reduzir o tempo entre os lançamentos nos cinemas e a sua casa. A zero.

A primeira grande investida da empresa nos cinemas aconteceu no último fim de semana, quando ela lançou “Beasts of No Nation”, sua primeira produção original, simultaneamente no circuito comercial e no canal. A ação só não foi mais bem sucedida porque as quatro principais redes norte-americanas se recusaram a exibir o filme – o que só comprova o quanto essa estratégia ameaça o estado atual das coisas.

Atualmente, os cinemas contam com uma exclusividade de 90 dias em média para a exibição, depois dos quais o filme pode ir para DVD/Blu-ray, para a televisão ou para serviços de Video on Demand e streaming. Essa janela tem se reduzido progressivamente e tudo o que a Netflix tenta fazer, agora, é acelerar um processo que já vinha acontecendo há tempos devido à pirataria e às mudanças de comportamento do consumidor.

A estratégia não é inédita: filmes menores ou experimentais, como “Bubble”, de Steven Soderbergh (2006) e “Margin Call”, de J.C. Chandor (2011), já foram lançados simultaneamente nos cinemas e em outros meios, e não é de hoje que os indies estão apostando todas as suas fichas em estreias online. O problema é quando um desses lançamentos, como “Beasts of No Nation”, consegue fazer barulho suficiente a ponto de o público começar a se questionar.

Os tempos, afinal, são outros. Com preços impraticáveis combinados à melhoria da qualidade das televisões e à rapidez da internet, as pessoas estão trocando as salas multiplex pelo conforto de suas camas sem pensar duas vezes. Hoje em dia, priorizar a exibição nos cinemas faz tanto sentido quanto medir o sucesso de um filme pelo valor das bilheterias. Há uma quantidade enorme de fracassos comerciais que evoluíram para grandes hits após o lançamento em home video – por mais que nenhuma plataforma consiga, ainda, trazer tanto dinheiro quanto uma sala IMAX.

O que os estúdios encaram, agora, não é apenas o embate entre um canal de streaming e algumas redes de cinemas: é uma tendência. Cada vez mais, as grandes salas deverão se especializar em filmes que realmente exigem uma experiência maior (como uma obra imersiva em 3D ou uma superprodução fantástica), enquanto a maioria dos títulos encontrará seu público em telas domésticas e dispositivos móveis.

Os estúdios precisarão encontrar uma forma de tornar esse home video mais lucrativo, sem ferir o bolso do público (que sempre encontrará alternativas gratuitas ou mais baratas, mesmo que ilícitas), enquanto os cinemas terão que se reinventar, oferecendo eventos insubstituíveis. O processo já começou: cinemas brasileiros vêm mesclando sua programação regular com exibições de partidas esportivas, peças teatrais, episódios de séries de TV e filmes antigos. Por enquanto, a medida parece estar funcionando.

Quanto ao Netflix, esse também precisa se preocupar em acompanhar a evolução do público – afinal, outros serviços semelhantes (como o PopCorn Time) já estão nos seus calcanhares. A produção original de conteúdo – e de qualidade, onipresente nos principais prêmios e festivais – foi um tiro certo. O modelo de assinatura, também.

É provável que, no futuro, redes de cinemas também adotem diferentes tipos de assinaturas, permitindo aos fãs assistirem a uma quantidade de filmes por um preço fixo, por exemplo. Alguns blockbusters (como “007 contra Spectre”) já experimentaram criar ingressos especiais para que seus fãs tenham “passe livre” para revê-los quantas vezes quiserem.

Para as TVs, o sistema de aluguel individual de filmes ainda é forte, mas o crescimento da Netflix e de iniciativas como a da Disney (que está planejando montar um serviço de streaming no Reino Unido, segundo a revista Variety) mostra como as pessoas preferem pagar por um pacote cheio de opções a desembolsar uma quantia qualquer por um único produto – o que envolve um risco muito maior de arrependimento.

Os filmes continuarão, isso é certo. As pessoas nunca vão deixar de se encantar com histórias bem contadas, sejam elas projetadas numa sala escura cheia de estranhos, sejam na palma de suas mãos. Se pudermos fazer uma única aposta para o futuro do cinema, é que ele existirá em múltiplas plataformas e elas se complementarão. Sem que uma precise, necessariamente, excluir ou boicotar a outra.

Atualizações:

No dia 22 de outubro, o YouTube também anunciou um serviço próprio de assinaturas, chamado YouTube Red. Nele, os assinantes poderão assistir aos vídeos sem publicidade e baixá-los para assistir offline. A empresa ainda revelou que pretende produzir conteúdo original.

Segundo o site Business Insider, a Paramount adotou uma estratégia semelhante à da Netflix para lançar "Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma" nos EUA. O filme terá apenas 17 dias de exclusividade nos cinemas e, em seguida, estará disponível em home video. Para convencer os cinemas a participarem do acordo, o estúdio prometeu uma porcentagem dos lucros obtidos com a cópia digital. Como aconteceu com "Beasts of No Nation", muitos cinemas se recusaram a exibir o filme nessas condições.


Por Juliana Varella

Atualizado em 16 Jan 2016.

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