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Por Álvaro Saluan, Pizza Fria

A relação de World of Warcraft com o coronavírus

Quando se trata de uma epidemia ou uma pandemia global, os seres humanos são o melhor curinga. Sendo assim, isso.

Quando se trata de uma epidemia ou uma pandemia global, os seres humanos são o melhor curinga. Sendo assim, isso torna difícil a construção de modelos matemáticos precisos para prever como o progresso da doença irá acontecer. Mas o que um game, em especial World of Warcraft, tem a ver com o surto atual do coronavírus (COVID-19)?

Certamente, vimos muitas respostas totalmente humanas ao coronavírus nas últimas duas semanas. Diversas pessoas entrando em pânico e acumulando comida, papel higiênico e desinfetante para as mãos. Alguns se apegam à negação e outros ainda desafiam os pedidos de “distanciamento social”, seguindo a sua rotina de frequentar restaurantes, bares, shows e assim por diante. Os modelos epidemiológicos elaborados são um pouco mais capazes de explicar essas imprevisibilidades, em parte devido a um surto virtual ocorrido em World of Warcraft há quase quinze anos, conhecido como “Incidente no Sangue Corrompido” ou “Corrupted Blood incident“, em inglês.

world of warcraft e coronavírus
Seria Hakkar, o “paciente zero” do Corrupted Blood? (Imagem: Divulgação)

A origem acidental da epidemia Corrupted Blood

E acredite, este surto não foi intencional. Em 2005, a Blizzard Entertainment adicionou em World of Warcraft uma nova masmorra, chamada “Zul’Gurub”. Esse desafio foi criado para jogadores altamente avançados, onde deveriam derrotar um “chefe final” chamado Hakkar. O boss desta dungeon era um deus do sangue conhecido como Soulflayer (ou Esfolador de Almas, em tradução literal), que possuía, entre seu arsenal de armas e magias, um feitiço de debuff chamado “Sangue Corrompido”, que chamaremos ao longo da matéria pelo nome original, Corrupted Blood. Esse golpe fazia com que os jogadores infectados sofressem dano em intervalos regulares de repetição, drenando gradativamente seus “pontos de vida” até que seus avatares explodissem em uma nuvem de sangue. A única cura era matar Hakkar.

A Blizzard achou que isso garantiria que a infecção não se espalhasse além desse espaço. Pois bem, eles estavam redondamente enganados. Em vez de permanecerem firmes, muitos jogadores infectados entraram em pânico, se teletransportando para fora da masmorra antes de morrer ou matar Hakkar. Sendo assim, levavam a doença com eles a lugares lotados, como as cidades do jogo. Para se ter uma ideia, jogadores de nível mais baixo, com menos pontos de vida, “morriam” muito rapidamente após a exposição ao vírus mortal.

epidemia cadáveres
Os mapas ficaram repletos de cadáveres. (Imagem: Divulgação)

O maior fator na rápida disseminação da doença foi uma falha na programação, de modo que companheiros animais não jogáveis ​​também foram infectados. Entretanto, eles não apresentaram sintomas, mas eram portadores e acabaram espalhando a doença ainda mais rapidamente. Ou seja, eram vetores. À medida que as infecções pelo Corrupted Blood se espalhavam incontrolavelmente, os espaços de jogos ficavam repletos de “cadáveres” virtuais e os jogadores começaram a entrar em pânico. Os esforços em quarentena não tiveram êxito em interromper o surto. No final, pelo menos três servidores foram afetados, e a Blizzard teve que reiniciar o jogo inteiro para corrigir o problema.

O que tem o Corrupted Blood a ver com epidemiologia?

Um epidemiologista chamado Eric Lofgren, então na Tufts University, por acaso era um jogador ávido de WoW e ficou fascinado pelos paralelos do mundo real com o modo como a epidemia se desenrolou no mundo virtual. Ele e sua colega da Tufts, Nina Fefferman, foram coautores de um artigo de 2007 publicado na Lancet Infectious Diseases, examinando as implicações potenciais do incidente Corrupted Blood para refinar os modelos epidemiológicos existentes, já que eles poderiam usar dados concretos para mostrar como os jogadores realmente reagiram durante o período do surto.

Os doutores Eric Lofgren e Nina Fefferman. (Imagem: Internet)

Por exemplo, alguns jogadores tentaram ajudar na cura de feitiços, inadvertidamente piorando as coisas. Ou seja, seus esforços sofreram reposição constante daqueles suscetíveis à magia, em vez de deixar o surto seguir seu curso. Havia os inevitáveis ​​caçadores de emoções que foram às áreas infectadas por curiosidade, tornando-se novas vítimas. Sendo assim, Fefferman os comparou a jornalistas que viajam para zonas de guerra que se colocam em risco de obter uma história. Havia também um punhado de jogadores que espalharam maliciosamente a infecção de propósito – algo que foi documentado em surtos do mundo real – e um jogador até assumiu o papel de profeta do Dia do Juízo Final, parado na praça da cidade para narrar a carnificina que se desenrolava no jogo.

Os estudos de Fefferman e Lofgren

Fefferman está agora na Tennessee University, em Knoxville, onde estuda como pequenas decisões individuais podem resultar em grandes mudanças em uma determinada população. Esse trabalho anterior sobre o surto Corrupted Blood continua a fazer parte dos dados de sua pesquisa.

“Isso me levou a pensar profundamente sobre como as pessoas percebem ameaças e como as diferenças nessa percepção podem mudar a maneira como elas se comportam”, disse Fefferman recentemente à PC Gamer. “Muito do meu trabalho desde então tem tentado criar modelos de construção social da percepção de risco, e não acho que teria chegado a isso tão facilmente se não tivesse passado muito tempo pensando nas discussões que os jogadores do WoW tiveram em tempo real sobre o Corrupted Blood e como agir no jogo, com base no entendimento que eles construíram a partir dessas discussões”.

Lofgren agora está na Washington State University, uma região dos EUA particularmente afetada pelo coronavírus. Seu trabalho atual concentra-se no estresse que esses tipos de surtos colocam no sistema de saúde.

“Para mim, foi uma boa ilustração de quão importante é entender o comportamento das pessoas”, ele disse recentemente à PC Gamer sobre o estudo anterior do WoW.

“Muitas vezes vemos epidemias como essas coisas que simplesmente acontecem com as pessoas. Existe um vírus e ele está fazendo as coisas, evoluindo. Mas, na verdade, esse é um vírus que está se espalhando entre as pessoas. Portanto, entender como as pessoas interagem e se comportam e cumprem ou não com as normas estabelecidas pelas autoridade são coisas muito importantes. Aliásx essas coisas são muito caóticas. Você não pode realmente prever ‘ah sim, todo mundo vai colocar em quarentena. Vai ficar tudo bem’. Não, eles não vão“.

E bem, é exatamente isso que estamos observando no Brasil e no mundo, onde as pessoas ainda insistem em ir a eventos e lotam praias durante o período de quarentena.

Qual a relação de World of Warcraft com o coronavírus?

Portanto, não é surpreendente testemunhar as pessoas se comportando de maneira muito semelhante à pandemia de coronavírus, como os jogadores do World of Warcraft, em 2005.

Corrupted Blood foi um evento inesperado com severas consequências. Tratamos esse vírus (COVID-19) como se fosse inesperado, mas a natureza é realmente boa em deixar as pessoas doentes”, disse Lofgren. “Se você pensar novamente em termos de jogos, estamos fazendo testes de resistência contra novas doenças emergentes o tempo todo. E às vezes você falha. Temos epidemias recorrentes com algum grau de frequência. É como se livrar das pessoas que preveem terremotos porque não há um há algum tempo. E, sim, logo você terá outro”.

Sendo assim, nós do Pizza Fria incentivamos aos nossos leitores a permanecerem em quarentena, evitando assim a propagação do vírus em uma maior escala. Aproveitem o período para jogar ou executar atividades que possam ser feitas dentro de casa. Assim, todo mundo se previne e os riscos de proliferação se reduzem.

A história original foi retirada do site ArsTechnica.

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Por Álvaro Saluan, Pizza Fria

Atualizado em 18 Mar 2020.

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