Guia da Semana

Jeito de boneca

Por festas infantis com o encanto e a ingenuidade de antigamente.

Foto: Getty Images

Meus primos foram os padrinhos. A boneca, com vestido solene e sapatinho de verniz, foi batizada na pia do banheiro. Seu cabelo foi molhado com água da torneira e ela ganhou um nome. Depois, veio a festa: um almoço de domingo, com churrasco, maionese, tubaína e arroz doce. É verdade que os adultos faziam esses almoços sempre, mas, na minha imaginação fértil de menina, aquela foi a celebração do batizado da minha boneca.

Há anos não lembrava isso. Mas, vendo uma vinheta com ideias para festas em casa, senti-me emocionada e grata por momentos como esse. Lembrei do frisson dos meus dias de aniversário. A festa começava semanas antes, com a lista de convidados, a lista das comidas que eu tinha mais vontade de comer, pensando como enfeitaríamos a casa. Ia à padaria escolher o MEU bolo, que vinha com o meu nome escrito em calda de chocolate. Impossível chegar a hora dos parabéns sem uma dedada no chantilly.

No dia, a excitação começava cedo, com o cheiro dos quitutes domésticos e o colorido de marias-moles e gelatinas. A festa não tinha comidas da moda, nem brinquedos eletrônicos, nem animadores contratados, nem presente de lembrança, nem nenhuma atração extraordinária. Mas tinha embrulhos de presente que eram rasgados na hora, revelando brinquedos que podiam ser aproveitados na hora, junto com os amigos.

Sabiamente, as festas eram aos sábados, sobrando o domingo para a arrumação. A mim cabia recolher o lixo pela casa, retirar a mesa, guardar a louça, trocar a toalha, varrer tudo. Ia lembrando como foi cada detalhe... e nem sentia o trabalho. A velha foto revelada era outro prazer: quando a farra parecida ter acabado, chegavam as fotos! Montar o álbum estendida o clima da festa por mais uma semana.

Na era das superproduções, até festinhas infantis ganham ares de mega evento, com receptivo, promotores uniformizados, programação, figurino, gelo seco e pulseirinha. Alcançam orçamentos cinematográficos e são como um filme, onde aniversariantes e convidados atuam como figurantes.

A falta de produção de outrora era ocupada por uma aura de encanto. Em acampamentos na sala de estar (com tendas feitas de edredom), piqueniques no quintal, gincanas na rua, churrascos na laje, banhos de mangueira e matinês de carnaval havia espaço para a imaginação e a espontaneidade - especialidades infantis.

Havia espaço para a "dona da festa" não se preocupar tanto com a decoração do ambiente - o que minimiza o estresse com a ideia de haver bagunça. Espaço para comida simples, trivial, natural. Espaço para as crianças criarem suas próprias fantasias e se divertirem com elas. Espaço para levar bolo em papel-alumínio pra casa, o que será um prolongamento da festa - mais eficaz que tranqueiras produzidas por chineses semiescravos. Com tanta agitação, quase faltava espaço para as fotos. Já no final, alguém lembrava e o povo se reunia, trocando de lugar a cada clique, para parecer que as fotos tinham sido tiradas ao longo da farra.

Uma das minhas mais deliciosas memórias da infância é a "brincadeira de praia". Um dia, meu pai arranjou uma banheira antiga num ferro-velho e a pôs no quintal. Eu deitava ao lado dela, com meus brinquedos de praia, sobre uma passadeira, com a cabeça sob o meu guarda-chuva. Ficava ali horas, lendo, brincando, tomando geladinho. Mais de uma vez, convidei coleguinhas para o programa, que logo embarcavam na brincadeira. Teria amado dar uma festa out-door na minha praia particular.

Fico deprê com as mesmas festas padrão, com convite padrão, decoração padrão, monitores bizarros, temas vazios, comida sem graça, crianças dançando o Rebolation, presentes depositados em caixões e lembranças da 25 de Março (quem quer lembrar dessas festas?). Os adultos odeiam e as crianças não sabem que não gostam, porque não têm a oportunidade de vivenciar uma infância mais leve.

As celebrações de uma família dizem muito sobre sua dinâmica e valores. Como tempo livre é cada vez mais escasso, é fundamental que o convívio familiar seja de qualidade. Por isso, proponho que se pense em soluções mais criativas e significativas para as festas infantis. Você pode reunir as amigas da sua filha para fazerem um mega bolo de aniversário num sábado à tarde. Pode chamar as crianças para usarem massa de brigadeiro, bicho de pé, cajuzinho, beijinho e confeitos para moldar centopeias, trenzinhos e o que a imaginação mandar.

Dá para montar uma "caça ao tesouro" no condomínio com as crianças do prédio. Pode ser um campeonato de bola ao gol, pingue-pongue ou careta - quanto mais lúdico melhor. E você pode simplesmente comprar a comida: crianças amam pipoca, picolés, biscoito de polvilho, aqueles doces de beterraba e batata doce...

Acho que até as casas de hoje estão cada vez mais chatas, se comparadas às casas das nossas avós, onde todo mundo que entrava sentia-se bem-vindo. Sem nenhuma pretensão de parecerem perfeitas, eram lugares perfeitos para o ócio, o descanso, a contemplação, a bagunça, a conversa fiada, a diversão. Não é à toa que foram cenários de muitas festas de aniversário.

Creio que toda criança merece um aniversário na sua casa, com a sua família e os seus amiguinhos. Nem que seja para celebrar o fato de que essa criança tem casa, família e amigos.

Leia as colunas anteriores de Rosa Fonseca:

Pisando em ovos

Um natal gastronômico

A turma do verde

Quem é a colunista: Com formações em Publicidade e Gastronomia, Rosa Fonseca é chef de cozinha, professora e colunista.

O que faz: Trabalhou em restaurantes como o Félix Bistrot e o Beth Cozinha de Estar. Hoje, atua como personal chef.

Pecado gastronômico: Chocolate e queijo da serra.

Melhor lugar do Brasil: Minha casa.

Fale com ela: rf_contato@yahoo.com.br

Atualizado em 7 Ago 2012.

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