Guia da Semana

Pisando em ovos

Para conquistar seu espaço é preciso muita calma, paciência e força de vontade.

Foto: Getty Images

Em fevereiro desse ano, um chef-celebridade causou furor ao mostrar uma receita com carne de gato na TV. A bizarrice revoltou a opinião pública e ele acabou suspenso do canal italiano, onde apresentava um programa de culinária.

Além da parte óbvia, essa manchete chama minha atenção pelo neologismo chef-celebridade. No mesmo dia, o seguinte diálogo povoa a novela das 8h: "Ela não é artista. É jornalista.", esclareceu alguém. "E jornalista que aparece na TV não é artista?" concluiu a interlocutora.

Tem jornalista artista, atleta artista, chef artista, estudante de minissaia artista, prostituta artista, desocupado artista. Apareceu na mídia é artista, é celebridade - um espécime típico da atualidade, que se reproduz nos quatro cantos do planeta - e das cozinhas. O que caracteriza uma celebridade é que ela não depende de mérito para alcançar a notoriedade: é famosa por ser famosa.

Voltando à gastronomia, faço uma lista mental de chefs-celebridade. Vem-me à mente a foto posada de um padeiro-celebridade abrindo as portas do seu novo apê para uma revista e um editorial de moda com uma chef-model, mostrando looks para ir à feira abastecer o restaurante. Penso em centenas de ingleses lotando teatros para assistir ao Jamie Oliver (um chef cheio de méritos que virou celebridade) cozinhar ao vivo. Penso nos reality shows de cozinha e nas cozinhas que parecem reality. E no crescente número de chefs-garoto-propaganda que vendem tudo: banco, xampu, celular, revista de coluna social e até sopas instantâneas 100% artificiais.

Aos 30 anos, depois de construir uma carreira corporativa, decidi tornar-me cozinheira - uma decisão alógica vinda da alma. Muni-me de humildade e retornei ao banco da escola. Lembro da empáfia dos meus coleguinhas, no auge de seus 17 anos, aspirantes a famosos.

Logo achei trabalho em um bistrô, onde engatei um namoro com a cozinha francesa, que terminou em casamento. Lá conheci cozinheiros retirantes, um souz-chef irritante e um chef blasé. Aprendi a cozinhar gostoso, sorrindo, com rapidez, organização, disciplina e concentração. Dou muito valor a quem fica 16 horas por dia em pé sob 50oC, sem folga, sujeito a queimaduras, cortes, produtos químicos, choques térmicos e elétricos, LER (lesão por exercícios repetitivos) e salários modestos. E que, depois do trabalho, ainda tem fôlego para jogar uma pelada.

O souz-chef me escandalizava. Era grosseiro, gritava. Certo dia cismou com uma caneta na minha orelha. "Você acha que a minha cozinha é padaria?". Puxou-a repentinamente, com força, pelas minhas costas, arrancando um chumaço do cabelo preso. Perdi a compostura. "Seu filho da pu...., pu... que o pariu, caralh..., merd..., bost..., inferno!
Devolve a porr... da caneta agora!". Ele riu. Gargalhou, na verdade. Depois me abraçou.

Por incrível que pareça, ali iniciou uma amizade. Aprendi demais com ele, um chef vibrante, com zilhões de horas de fogão, uma pessoa cheia de méritos. Descobri que ele se faz de arrogante, porque acredita que as pessoas esperam isso de um chef. E que leva os outros ao limite pra testá-los. Mas quem demonstra fibra ganha um admirador.

Decidi mergulhar nesse mundo-cão e me transferi para a melhor faculdade de gastronomia do país. Isso não me impediu de viver episódios (in)dignos de Hell's Kitchen, comandados por docentes-celebridades. Felizmente, tive também mestres brilhantes sem estrelismo, a quem guardo enorme respeito.

Quis desistir. Chorei. Orei por persistência e lucidez. Se o amor pela cozinha não viesse da alma, teria sucumbido. O jogo político, que tanto incomodava no ambiente corporativo, era ao menos mais inteligente e instigante do que as disputas pueris protagonizadas em cozinhas que deveriam ser profissionais.

Certa feita, surgiu a oportunidade de gerenciar um centro de culinária, com cursos gourmet, iniciantes e profissionalizantes e eventos enogastronômicos. No anonimato dessa cozinha, longe do status dos chefs-celebridades, críticos-celebridades e clientes-vips-celebridades, fui feliz. Achei o pote no fim do arco-íris: o prazer, a paz e o sentido que procurava quando decidi deixar o conforto de uma carreira consolidada.

Vibro com os alunos, seus semblantes iluminados, gestos públicos e discretos de afeição e reconhecimento. Adoro quando me escrevem um tempão depois, só pra dar um alô. E quando me dão receitas secretas de família - o melhor dos presentes! Nunca esquecerei o casal emocionado, agradecendo por um banquete: "queremos que você saiba que fez parte de um momento muito importante nas nossas vidas, que sentimos o seu carinho em cada detalhe e que jamais vamos esquecer você e esse dia". Nem eu.

Trabalhar é dividir algo que o universo deu para você. Se você recebeu o dom de cantar, é justo que devolva isso para o mundo na forma de música. Quero dividir meu gift (adoro o sentido da palavra em inglês) ensinando tantos quanto eu puder a comerem bem. Não entendo que valor tenha dividir com o mundo a marca da roupa que você veste, onde você corta o cabelo ou as festas que você frequenta.

Em recente visita ao Brasil, Patrick Terrien, 60 anos, o primeiro da Le Courdon Bleu, a mais prestigiada escola de gastronomia do mundo, deu à Revista Veja sua percepção sobre o atual mercado de gastronomia: "O problema é a quantidade de jovens cheios de autoestima que se acham preparados, movidos pela ideia equivocada de que têm algo de genial. Falta-lhes técnica, que só é aprimorada com exercício. Tentam disfarçar sua mediocridade sob o rótulo de uma cozinha autoral que, nesses casos, traduz-se na tentativa de substituir conhecimento por marketing pessoal."

É fato que a indústria das celebridades gera bilhões. Bilhões delas a cada ano. Mas, na singularidade das cozinhas domésticas, ainda é possível ser singular.

Leia as colunas anteriores de Rosa Fonseca:

Um natal gastronômico

A turma do verde

Síndrome de Caco Antibes

Quem é a colunista: Com formações em Publicidade e Gastronomia, Rosa Fonseca é chef de cozinha, professora e colunista.

O que faz:  Trabalhou em restaurantes como o  Félix Bistrot e o Beth Cozinha de Estar. Hoje, atua como personal chef.

Pecado gastronômico: Chocolate e queijo da serra.

Melhor lugar do Brasil: Minha casa.

Fale com ela: rf_contato@yahoo.com.br

Atualizado em 7 Ago 2012.

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