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Por Redação Guia da Semana

Nas veias do mangue

Expoente máximo da música brasileira no início dos anos 90, a Nação Zumbi volta à sua terra natal para gravar seu DVD ao vivo. Veja a entrevista com o vocalista Jorge Du Peixe.

Fotos: divulgação


No início de 90, surgiu das ruas do Recife uma banda que catalisava o caos e difundia uma mistura musical que ia da sonoridade regional do maracatu, passava pelas batidas do hip hop, funk até os ritmos sincopados eletrônicos. Liderados por Chico Science, a Nação Zumbi encampava letras socialmente conscientes e, como um grito de socorro, chamava a atenção para as péssimas condições sociais do Nordeste. Foi assim que o Manguebit - e não "Manguebeat" como grafa a imprensa - surgiu, tornando-se no país um dos movimentos musicais de maior destaque na década.

Depois de 15 anos de lançamento do seu primeiro álbum, Da Lama Ao Caos, o grupo resolve fazer o primeiro registro na terra natal, em 9 de dezembro, no Marco Zero de Recife. Jorge du Peixe (que tomou o posto de vocalista após a morte de Science, em 1997), Lúcio Maia (guitarra), Dengue (baixo), Pupilo (bateria), Gilmar Bola Oito (vocal e percussão) e Toca Ogan (vocal e percussão) comandam o repertório que passa pelos sete discos da carreira do grupo e ainda contam com participações especiais de Paralamas do Sucesso, Arnaldo Antunes, Siba e Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A.

Em meios aos preparativos do show, o Guia da Semana conversou com o Jorge Du Peixe para conferir como anda a expectativa para o novo trabalho a ser lançado no primeiro semestre de 2010. Confira!

Guia da Semana: Quando surgiu a idéia de fazer esse DVD comemorativo?
Jorge Du Peixe:
São 15 anos de estrada. A Sony relançou há pouco tempo o nosso primeiro álbum, Da Lama ao Caos (1994), da fundação da banda. Passado dois anos da gravação do nosso primeiro DVD, achamos que era um tempo bom para lançar esse trabalho, baseado nesse show bem amarrado dessa última turnê, Fome de Tudo (2007). Além disso é o nosso primeiro registro em nosso chão, em Recife. O primeiro foi feito em São Paulo, pois não era possível gravar em Pernambuco pela falta de infraestrutura. Como hoje já é possível, vamos gravar no Marco Zero, aberto para o público, de onde nós já passamos por lá. Tivemos momentos bons e parte dos nossos convidados também. É em um tom de festa que estamos registrando esse show.

Guia da Semana: Qual será o critério para a seleção de músicas?
Jorge:
Quando você tem sete discos, se torna uma coisa complicada. Metade do repertório vem do último álbum ( Fome de Tudo) e é claro que tem um momento que faz referência ao Da Lama ao Caos, trazendo uma seqüência especial dele. Nossa preocupação está em não chocar com o que fizemos nos trabalhos anteriores.

Guia da Semana: E os artistas participantes?
Jorge:
O Paralamas tem uma história de grande importância no país, passou por vários gêneros e momentos difíceis e está até hoje na ativa, lançando discos novos. O Fred Zero Quatro porque nos compartilhou com tudo isso, desde os anos 90 em Recife, no mangue, e dividimos letras até hoje. Já o Arnaldo Antunes chegou a conhecer o Chico (Science), convidou para participar do disco, trocamos ideia ao longo dos tempos e ele fez algumas participações em shows. Na verdade trouxemos os amigos para participar do palco e da festa. Todos eles trabalharam com a gente de uma forma ou outra.



Guia da Semana: O que mudou no Nação Zumbi depois de 15 anos de carreira?
Jorge:
Muita coisa! Posso dizer que somos mutantes; a diferença de um disco para outro é muito importante pra gente. Não vale a pena se repetir, você vai assimilando coisas novas, ouvindo outras músicas, assistindo filmes, quadrinhos, livros. Tudo isso acaba se refletindo a cada disco, a época, as situações, tudo que o cerca. Eu acho que a gente deveria pensar que nenhum disco é igual a outro e nada é igual a nada.

Guia da Semana: Quais são as principais diferenças do cenário independente dos anos 90 e atual?
Jorge:
A indústria fonográfica está passando por uma fase de transição. Temos que se adequar a novos formatos de se apresentar e distribuir música, coisa complicadíssima atualmente no mundo inteiro, como compartilhamento, internet, licenciamento livre. Tudo isso acabou mexendo com valores antigos. Eu posso dizer - até de uma forma romântica - que a ideia do álbum é muito importante e é corajoso quem ainda o faz hoje em dia, porque estão tentando acabar com o formato. O álbum faz o artista divulgar depois, levar para o palco tudo que foi criado. É um registro para ficar. Eu acredito muito na volta do vinil quase que "impiratiável". O vinil está voltando a todo gás.

Guia da Semana: Vocês apóiam essa volta?
Jorge:
Apoio completamente. Baixo algumas músicas no esquema de preview, mas faço questão de comprar o disco para ter o encarte e a capinha. Começamos nos anos 90 e vimos à ascensão e queda de um império das indústrias fonográficas. Agora estamos passando por outra fase, se deparando com uma situação onde pessoas dizem que o álbum não é mais importante. Nós achamos importante ter o álbum, e que as pessoas baixem da internet, mas que isso não coloquem em risco o primeiro, pois o último impulsiona muita coisa ilegal, pregando uma liberdade sem critérios do universo digital.

Guia da Semana: Junto com o Mundo Livre S/A vocês fundaram o movimento Manguebit, que misturava ritmos regionais com rock, hip hop, maracatu e eletrônica...
Jorge:
Esse movimento é uma metáfora maior da fertilidade cultural que Pernambuco oferece. Não é simplesmente juntar ritmos e tal. Nós olhamos em nossa volta e vimos o que a gente tinha com uma bagagem cultural própria de Recife e fizemos uso de parte dela junto com a linguagem do século 20, de rádio, TV e internet. Pensamos em uma metáfora maior, em pensar monólitos e não uma batida única. Tanto que o termo "Manguebeat" foi criado pela imprensa, a nossa ideia era o Manguebit, com "bit" de computador, que era uma letra do Mundo Livre S.A. Houve uma confusão e acabou se transformando em "beat" de batida. Mas de maneira nenhuma é uma batida única, ela prega pelo plural e pelas diversidades de estilo que o país oferece.



Guia da Semana: Como a banda encara hoje o fato de ter criado tendências e não simplesmente seguir o som do momento, como tantos grupos fazem?
Jorge:
É mais cômodo e viável para eles. Nós fazemos música para nós mesmos. Nós tentamos fazer aquilo que a gente gostaria de ouvir. Acho importante pra caramba ter um critério seu, porque você se satisfaz com o que está fazendo e o que vier é lucro.

Guia da Semana: Como era a parceria com o Chico Science no primeiro álbum (Da Lama ao Caos)? O que ele deixou para o Nação Zumbi?
Jorge:
Ele deixou todo um pensamento. Nós temos a mesma postura ainda de fazer o que estamos afins. Amadurecemos muito do primeiro disco pra cá, na relação com a mídia e com o público. Somos centrados no que fazer e hoje temos muito mais credibilidade, o que ajuda pra caramba. Isso aconteceu mesmo depois de especulações, da morte de Chico. Hoje devemos muito a ele e a cada subida no palco vamos levar o tom da sua irreverência. Não era só um companheiro de banda, era um irmão, era uma família, maloqueragem, som, uma coisa muito caseira mesmo.

Guia da Semana: Qual o segredo para viver de música independente no Brasil?
Jorge:
Quando você faz música, não é questão de ser dependente ou independente. O pessoal que se diz independente, depende muito mais de tanta gente do que de uma gravadora. Tem a distribuição, gravação de clipe, isso envolve muitas pessoas. Ser independente é fazer parte de uma gravadora muito grande que banque tudo pra você. Mas hoje em dia as pequenas bandas musicais podem ser lançadas no ciberespaço e podem vingar ou não. Tem também muita gente boa que está sendo passada para trás por algumas pessoas que estão com um brilho momentâneo, efêmero. Tem que ter espaço para todo mundo e a música está sendo ouvida, pensada e distribuída de uma maneira muito estranha. Os caras que estão cedendo espaço acabam ganhando mais que o artista na verdade.

Guia da Semana: Foi difícil difundir o maracatu em cidades que não são berços, como São Paulo e Rio?
Jorge:
Muito pelo contrário. Você vê a quantidade de pessoas comprando tambor, pessoas de Recife que resolveram morar aqui (São Paulo), fora do país, na Alemanha, Inglaterra, EUA. É questão de ter conhecimento daquele gênero musical. O frevo está sendo descoberto agora, são poucos os registros, muita coisa ainda está no vinil, assim como o maracatu, que é uma coisa secular. Tentaram prender o samba ao morro e ele invadiu o planeta, está tomando o país de assalto, é uma identidade cultural que, com o tempo, espalha como água. A ideia de prender o Maracatu a Pernambuco é questão de tempo. Nós usamos de uma outra maneira, colocando uma parte mais elétrica, contrariando os turistas, enfim... Como diria Chico, se soou bem aos ouvidos, está tudo certo!

Guia da Semana: Quais os próximos projetos da Nação?
Jorge:
Lançar esse DVD no primeiro semestre do ano que vem. Temos um projeto paralelo, que se chama Los Sebozos Postizos, que é parte da Nação Zumbi cantando clássicos de Jorge Ben e foi gravado há pouco tempo. Na seqüência pensar em um novo disco da Nação Zumbi, com algumas letras novas, mas nada ainda certo. A vontade já é grande de começar a mexer no próximo álbum.


Atualizado em 6 Set 2011.

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