Guia da Semana
Teatro
Por Redação Guia da Semana

Um musical para sempre

Colunista escreve a respeito de musical lançado durante a década de 70, em cartaz até hoje na Alemanha.



Quem acompanha minha coluna aqui já deve ter percebido que gosto muito de filmes antigos. E que também aprendi recentemente a gostar de musicais, um gênero que até alguns anos atrás eu desprezava por puro preconceito. Juntando os dois - filme antigo e musical - me lembrei de um exemplar dessas duas categorias que certamente foge de tudo que você já viu por aí. Só isso já valeria buscá-lo em uma locadora ou mesmo comprá-lo numa boa loja de filmes. Mas além de ser um filme fora de qualquer órbita comum, é também um clássico cult e uma divertidíssima experiência de cinema. Um breve resumo da história certamente lhes dará uma ideia do que falo.

Um jovem casal comum, ainda noivos, perdidos em uma estrada, no meio da noite e debaixo de uma forte tempestade. Um pneu furado. Eles precisam de um telefone para pedir ajuda. Encontram então um castelo sombrio. Entram e conhecem o Dr. Frank-N-Furter, um cientista louco vindo da Transilvânia, transexual assumido e degenerado, que veste quase todo o tempo um corpete com cinta liga. Ele acaba de realizar sua maior criação e no melhor estilo "Frankenstein" dá vida a Rock, um humanóide loiro, alto, musculoso, bronzeado e vestindo uma sunga dourada. Isso tudo é só um aperitivo do que se vai encontrar no clássico musical The Rock Horror Picture Show.

Lançado em 1975, o filme é dirigido por Jim Sharman e conta com canções de Richard Hartley. Causou euforia em sua época, ficando quatro anos em cartaz em Londres, onde durante as sessões os jovens se levantavam, cantavam e dançavam junto com o filme. Na verdade, o musical está em cartaz até hoje em um cinema de Munique, na Alemanha, que o exibe semanalmente em sessões sempre à meia-noite. Com mais de 30 anos em exibição, é o recordista absoluto de maior tempo em cartaz.

The Rock Horror Picture Show é uma sátira divertida e nada correta dos filmes B de ficção científica e terror da época. É também uma ácida e muito bem-humorada ironia dos costumes conservadores da sociedade, como o casamento, a virgindade e a repressão dos desejos sexuais. Seu protagonista, Dr. Frank-N-Furter (numa atuação memorável de Tin Curry) simboliza a máxima libertação da sexualidade e a marginalização inevitável que tal libertação traria a uma pessoa sob os olhos da sociedade hipócrita.

Comédia degenerada assumida, não economiza em incisivas críticas, todas elas paramentadas de descarado deboche e deliciosas performances. Performances que são um capítulo à parte, bem como suas ótimas composições, músicas que realmente nos fazem querer dançar e, no melhor (ou não) sentido, querer se libertar de nossos preconceitos comezinhos.

Além de Tim Curry como o promíscuo e libertador transexual, estão no elenco Barry Bostwick, no papel de Brad, a perfeita caricatura do noivo hetero, que sempre tem tudo sobre controle, ainda que meio apalermado; e a deliciosa Susan Surandon no papel de Janet, a típica donzela frágil e ingênua. Subverter (ou seria perverter?) os princípios "caretões" desse casal será o objetivo do Dr. Frank que, com sua falácia e atitudes "reprováveis", tentará mostrar ao casal que a vida pode ser muito mais interessante quando liberta de certos preconceitos.

The Rock Horror Picture Show não é um filme comum, nem que vá agradar a todos. É por isso que ele se qualifica como cult e não como clássico. A diferença é que no caso de filmes cults, quase sempre, ou se ama ou se odeia, sem meio-termo. A maior virtude de The Rock Horror Picture Show é ser divertido, antes de tudo, e despojado de grandes pretensões. Faz isso sem pender para o banal, o que já é mérito mais que grandioso em se tratando de comédias, gênero dentro do qual a banalização muitas vezes é o que força o riso, insosso e sem sentido. E se tem uma coisa que esse filme ao faz é cair na vala-comum do gênero e só por isso já merece uma conferida.

Certamente a melhor maneira de apreciá-lo é despindo-se de preconceitos e pudores e, acima de tudo, se deixando levar pelas músicas, pelas performances e por sua sátira de gênero. Afinal, você pode até discordar da visão "trans-radical" do Dr. Frank, de seu figurino e atitudes bizarras, mas não se pode passar por ele e pelo filme indiferente. E tirar as pessoas da indiferença é, na minha visão crítica, uma das mais desejadas qualidades de um bom filme. Mesmo que para isso seja necessário um cientista louco transexual e suas provocativas teorias.

Quem é o colunista: gordo, ranzinza e de óculos.

O que faz: blogueiro, escritor e metido a crítico de cinema.

Pecado gastronômico: massas.

Melhor lugar do Brasil: qualquer lugar onde estejam meus livros, meus filmes, minhas músicas, meus amigos e minha namorada.

Fale com ele: [email protected] ou acesse seu blog


Atualizado em 6 Set 2011.

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