Guia da Semana
Turismo
Por Redação Guia da Semana

Descida radical

Última chamada para conhecer parte de uma estrada pavimentada no tempo do império.

Foto: Arquivo Pessoal


Tempos atrás, um jornalista americano classificou a Graciosa como uma das estradas mais perigosas do mundo, ao lado da estrada da morte na Bolívia. Para quem conhece a estrada, a afirmação foi mais do que exagerada. Agora, se o cara ainda tivesse a percorrido como nós percorremos no feriado de Tiradentes (de bike e sob chuva), ele teria um infarto.

A estrada tem lá sua dose de perigo. Uma infinidade de curvas, com algumas que mais parecem um círculo completo. Mão dupla. E o seu charme maior: 10 quilômetros de paralelepípedos. Tudo isso gera alguns acidentes, mas tão dramáticos como as quedas da estrada boliviana. O que ajuda muito a diminuir a força dos acidentes (ou causa alguns) é o visual da estrada. Sem dúvidas, uma das mais belas estradas de serra do Brasil.

Descer a Graciosa é o mais tradicional passeio de bike para quem mora em Curitiba. Todos colecionam histórias sobre descidas (e às vezes subidas). E como tempero, noite de lua cheia, frio, chuva e etc... Eu nunca vi alguém sair de casa pra pegar chuva na descida, mas como nunca sabemos o que vamos encontrar na serra... Há também as aventuras que acabamos buscando pelo caminho, como a trilha do alemão. Tem gente que a ama. Outros praguejam só de pensar.

O traçado original da Graciosa começa no trevo do Atuba, junto a BR116. No tempo de D. Pedro, ela ia até a cidade. No trevo, encontramos uma avenida que nos leva até Alphaville e de lá para Quatro Barras. Aos poucos, essa parte da nossa história está sendo apagada pelo progresso. Tudo em nome de ajudar o turismo na região, já que quem vai de carro para descer a Graciosa, prefere entrar pelo portal na BR 116, evitando Quatro Barras. Pedalando, parte da graça de fazer o trajeto vai se perder. Para ver como era a pavimentação no tempo do império é bom se apressar.

Falar em descer a Graciosa, não é bem o que parece. De descida direta mesmo, temos 14 quilômetros. Mas, antes de começar este trecho, passamos por 54 quilômetros de sobe e desce entre asfalto, terra e pedras. Estas últimas, em duas versões: presas e soltas. Para botar uma pitada de aventura existe a trilha do alemão. Esse trecho era o traçado original que levava ao mirante. Reza a lenda de que ali vivia um germânico que espionava o porto de Paranaguá para o Eixo no tempo da Segunda Guerra.

O mirante do alto da serra é onde começa a festa. O incrível aqui, mesmo com chuva fina, é achar alguém desanimado. Depois de reagrupar, combinamos as paradas no meio do caminho e começamos o melhor da festa. É soltar e ser feliz. Uma parada obrigatória é o núcleo da Ferradura, para o melhor pastel de palmito que já comi na vida. Tem o equivalente a meio vidro de palmito de recheio. Não há como recusar.

O final do passeio é em Morretes. Mas para chegar lá, é preciso voltar a pedalar. Do fim da descida, em São João da Graciosa, até a cidade do barreado e balinhas de banana, são mais 16 quilômetros. Os últimos seis são uma reta que parece infindável. A volta, para quem não agendou uma van, é o velho e bom trem, que leva três horas para subir, ou o ônibus que só leva duas bikes por vez. Para quem vai voltar de trem vale a recomendação de sair cedo de casa e comprar a passagem assim que chegar à estação.

No total, são cerca de 80 quilômetros de pedal, que cada vez que faço sempre parecem diferentes. Cada descida é uma história diferente nessa estrada, que além de bela, também tem muita história.

Leia as colunas anteriores de Marcelo Rudini:

Colônia Ucraniana

Cicloturismo - Vale Europeu

Gramado e Canela pedalando

Quem é o colunista: Fotógrafo e editor do site Onde Pedalar.com

O que faz: Fotógrafo editorial.

Pecado gastronômico: Um só? Na Bahia, Biju; em São Paulo, pizza; em Curitiba, Strogonoff de nozes e, em Belo Horizonte, feijão.

Melhor lugar do mundo: Aquele que te faz se sentir bem, equilibrado.

Fale com ele: [email protected]

Atualizado em 6 Set 2011.

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