Guia da Semana
Turismo
Por Redação Guia da Semana

Do inverno para a cidade vermelha

A busca pelo sol e pelo molho perfeito em Bolonha.

Depois de um ano e meio morando na Alemanha, decidi que já estava mais do que na hora de conhecer os países mais quentes, o que daria no mesmo que dizer "qualquer outro dos países vizinhos". Ainda mais porque, depois de um longo inverno rigoroso, eu precisava de sol.

Para aqueles que esperam ansiosamente que eu diga algo do tipo: "Não há nada melhor do que o sol, as praias, o ritmo e a ginga do brasileiro, povo que, mesmo com dificuldades, ainda sim possui alegria de viver", sinto muito. Eu sentia falta do sol, como qualquer ser humano privado por um longo período de sua exposição.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a ausência de exposição à luz solar pode causar a depressão sazonal, mal que assola muitos dos habitantes dos países de clima temperado. Não queria ser mais uma de suas vítimas, precisava cuidar da saúde.

Com pouco dinheiro, mas muita vontade de viajar pela ensolarada Itália durante a primavera, eu precisava de uma opção barata e eficaz. Nada melhor do que ir de trem.

O sistema ferroviário na Europa funciona muito bem e, em cada cidadezinha, por menor que seja, há, pelo menos, uma ferroviária. Na Alemanha, elas recebem o nome de Bahnhof (Lê-se Banrof). Na Bahnhof, fui até o guichê de informação sobre viagens (Reisebüro) para descobrir o que o sistema ferroviário europeu me oferecia. Descobri o Interrail (ou Europass, para os estrangeiros que não moram em solo europeu). O Interrail é um passe ferroviário, válido para determinados países, agrupados em oito regiões ou zonas.

Imagem: Interrail

Zonas e Preços do Interrail**
? Passageiros com até 26 anos:
- 1 zona (16 dias) - 195,00 EUR
- 2 zonas (22 dias) - 275,00 EUR
- Todas as zonas (1 mês) - 385,00 EUR

? Passageiros com mais de 26 anos:
- 1 zona (16 dias) - 286,00 EUR
- 2 zonas (22 dias) - 396,00 EUR
- Todas as zonas (1 mês) - 546,00 EUR


Definitivamente, a melhor opção para estrangeiros que queiram viajar por diversos países durante um determinado período.

Estava muito claro o que eu deveria fazer: Comprar um passe válido para todas as regiões e viajar, sem itinerário pré-definido, por um mês.

Mas a vontade de conhecer todos aqueles países era tanta, que resolvi acelerar a minha chegada à Itália. Descobri com alguns amigos alemães a existência de uma companhia aérea, Ryanair, que fazia vôos baratos por toda a Europa. Assim, poderia ganhar tempo, quando quisesse cruzar o continente europeu, voando. Vim descobrir, mais tarde, da pior forma, o porquê dos vôos da Ryanair serem tão baratos! Seus aviões são de segunda mão, não há serviço de bordo e a companhia utiliza aeroportos secundários, bem afastados da cidade, para fazer suas decolagens e pousos. Mesmo assim, sempre ficava admirada ao ver no site da empresa ofertas de vôos por 0,50 de euro, mais impostos, o que contabilizava 15 euros*.

Tinha sérias dúvidas sobre a capacidade de vôo dos aviões da Ryanair. Mas eu estava lá, era jovem e não tinha dinheiro. Preferi apostar no controle de qualidade europeu. Por um preço tão baixo, não podia ser muito seletiva quanto ao destino. Dentre as poucas opções que eram oferecidas pela companhia, escolhi Bolonha. Se macarrão à bolonhesa no Brasil era bom, imagina como seria direto na fonte!

Quando cheguei à Bolonha, para a decepção da minha pele, estava chovendo. Não havia sol, mas o fato de eu ter sobrevivido àquele vôo já era o suficiente para alegrar o resto dos meus dias. Não era só eu que estava aliviada, quando o avião pousou, os passageiros, acompanhados pela tripulação, aplaudiram calorosamente a façanha do piloto.

Depois do pouso um tanto festivo, era preciso pegar um ônibus até a civilização mais próxima, outros 10 euro. Quando cheguei à rodoviária principal de Bolonha, imaginei que seria necessário desenferrujar o meu inglês, há muito substituído pelo alemão, para descobrir onde era o albergue.

Ledo engano. Em Bolonha, quase ninguém fala inglês. Eu abordava executivos em terno e gravata para perguntar que ônibus eu deveria tomar. Como resposta, apenas balanços de cabeças seguidos de "no, no". Nada. Aquilo não era possível! Só restava uma coisa a fazer: Estender a mão e unir os dedos com o polegar, balançando para cima e para baixo, enquanto pronunciava, com o meu melhor sotaque italiano a palavra "Ostello" (albergue), que o meu guia de albergues internacionais gentilmente trazia ao lado da palavra em inglês "hostel".

Não sei se foi por compaixão, por testemunharem aquela cena, ou por realmente ser eficaz o uso da mão associada àquela palavra, mas essa tentativa surtiu efeito. Entrei no ônibus indicado e constatei 2 km adiante do ponto que eu desejava descer que, ao contrário dos ônibus alemães que paravam em todos os pontos invariavelmente, os ônibus italianos paravam quando e se o motorista desejasse.

O albergue da juventude de Bologna fica em um bairro afastado da cidade, mas o preço é justo: 15 euro com a carteirinha internacional de desconto e com café-da-manhã incluso. Tomei banho e decidi celebrar a minha chegada à Itália com uma pizza margherita, a primeira de muitas pizzas italianas legítimas que eu iria comer durante a minha viagem. Surpreendentemente, pizza margherita na Itália não tem manjericão, e sim orégano. O que nós chamamos de "margherita", eles chamam de "caprese". Depois de tantas constatações, eu só queria dormir.

No dia seguinte, fui conhecer a cidade de Bolonha, eu estava louca para comer um autêntico macarrão à bolonhesa. Sem saber, eu tinha escolhido como início da minha jornada a cidade que abriga a primeira universidade ocidental do mundo! Em meio a ruas estreitas e construções medievais remanescentes, eu me sentia no romance de Umberto Eco. Havia o antigo mosteiro, que abrigava a biblioteca, e ao lado, uma suntuosa construção, a Universidade de Bolonha.

Foto: Maria Paula Roncaglia
Muito perto dali, estava a Praça Magiori, que foi o centro do comércio e da vida política e cultural da cidade durante a Idade Média. Apesar de o centro de informações, também localizado na Praça Magiori, oferecer mapas explicativos sobre as construções lá existentes, recomendo a visita guiada.


Foto: Maria Paula Roncaglia
Dignos de menção a Igreja de San Petrônio, iniciada em 1390 abrigando algumas das principais esculturas italianas, o palácio municipal e, perto dele, a Fontana del Nettuno, com a representação dos rios conhecidos na época em que foi construída (1566), e que para a minha surpresa, incluía o Amazonas.


Depois de muitas informações históricas, resolvi passear na parte não-turística de Bolonha, para sentir como a cidade era. Quanto mais eu andava pelas ruas e via a arquitetura do local, mais eu achava que a cidade inteira era vermelha. Ainda bem que estava chovendo, não conseguiria imaginar andar naquela cidade com sol. Seria algo vermelho e quente, começava a entender o porquê de a cidade dar nome ao molho.

Cansada de tanto andar, decidi comer o tão esperado macarrão à bolonhesa. Entrei no primeiro restaurante que encontrei, longe do bairro turístico, pois era mais barato. Abri o cardápio e procurei pelo meu objetivo: Não encontrei. Como não havia macarrão à bolonhesa em Bologna?

Acho que a minha cara de desespero alarmou o garçom. Ele veio até mim e falou: "Prego". Das minhas experiências prévias com a língua, eu já sabia que isso queria dizer "pois não". Eu arrisquei: "Do you speak English?". Para a minha surpresa, ele falava inglês. Perguntei pelo "bolognese sauce" e respirei aliviada quando percebi que, em Bolonha, havia sim macarrão à bolonhesa, mas eles o chamavam de "Pasta con Ragú" e estava excelente.

Do restaurante, decidi ver a cidade mais um pouco. Andei pela via Rizzoli até avistar as duas torres inclinadas, remanescentes do que, segundo o guia da cidade, adquirido no centro de informações turísticas na Praça Magiori por 2 euros, foi o símbolo de poder e riqueza da cidade. Aparentemente, havia dezenas delas, como se formassem uma floresta, mas hoje restam apenas duas, a Torre degli Asinelli, a principal, construída em 1119, com 98 metros, e a Garisenda, de 1109, com 46 metros.

Depois de achar que havia visto tudo o que queria em Bologna, fui para a ferroviária para pegar o próximo trem para Verona, a cidade da Julieta. Pelo que haviam me contado, quem passasse a mão no busto dela, teria sorte no amor. Verdade ou não, achei melhor garantir!

Balanço da viagem:

Interrail: excelente.
Ryanair: Recomendável apenas quando se quer ganhar tempo e quando a viagem em trens noturnos não for possível.
Hospedagem: o albergue é longe, mas é recomendável. É interessante fazer a carteirinha internacional dos albergues (de 12 a 20 euro, dependendo da idade), para ganhar descontos de até 30% do valor da diária. Também é muito útil comprar o guia internacional dos albergues credenciados, adquirido em qualquer albergue credenciado. Como há um certo padrão de qualidade exigido para eles constarem no guia, você não terá surpresas desagradáveis.
Bolonha: Cidade muito vermelha, com a universidade ocidental mais antiga do mundo.

* não há plural para o termo euro

** preços sujeitos a alteração
Quem é a colunista: Sou uma pessoa como todas as outras, o que me faz extraordinária é ter um sobrinho japonês, loiro e com os olhos azuis! O que faz: sou jornalista de formação, escritora de coração, professora e tradutora de inglês e alemão por opção.
Pecado gastronômico: macarrão com molho vermelho da minha mãe e chocolate.
Melhor lugar do Brasil: casa dos meus pais em Marechal Cândido Rondon, no Paraná.
Como falar com ela: [email protected]


Atualizado em 6 Set 2011.

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