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Por Redação Guia da Semana

Do tráfico à formação artística, uma questão de oportunidade

O grupo Afroreggae mudou a realidade de muitos jovens carentes das favelas do Rio.



Conheci o Afroreggae em julho de 2006, através de um apaixonante bate papo com o Junior, seu criador, na casa do Marcelo Loureiro. Foi maravilhoso, e desde então acompanho a evolução do projeto. Agora, dois anos depois, tive a incrível experiência pela impecável organização do CJE/FIESP (Comitê Jovens Empreendedores) de vivenciar tudo de perto.

Fomos ao Rio de Janeiro em um grupo de empresários interessados na melhora do país, realizar inclusão social e ações solidárias multiplicadoras, fazendo uma espécie de tour na realidade de parte da pobreza que o Brasil enfrenta diariamente. Nossas paradas principais foram os núcleos de atividades do Afroreggae.

Começamos pelo Cantagalo, onde o desenvolvimento maior é para formar artistas de circo. Assistimos a lindíssimas apresentações de dança, malabarismo e etc, de onde inclusive, por tamanha dedicação e o sonho de dar certo, saíram alguns alunos para fazer turnê com o Cirque du Soleil.

Ao fim das apresentações desse dia, um emocionante relato. Norton Guimarães, 51 anos vai ao centro do picadeiro e inicia "Me emociono muitas vezes com esses meninos pela vida que eu levava. Há dois anos atrás, meu caminho era bem diferente...". Contou sua história inicial de assistir agressivas brigas dos pais quando pequeno, receber pouco carinho e atenção, entrar totalmente na droga, traficar, assaltar bancos, foi preso e liderou rebeliões na cadeia, fez parte da Falange e depois Comando Vermelho.

Norton complementa chorando "Meu coração foi mal algumas vezes, mas me emociono. Num Natal, em visita à cadeia perguntei a minha filha qual presente ela gostaria de ganhar. A resposta foi que eu nunca mais voltasse para lá". E foi nesse momento que decidiu sair da criminalidade. Ao sair em liberdade condicional, sua condição de ex-presidiário fechara todas as portas de emprego. Passou por fome e o desespero e após um tempo conseguiu uma barraquinha, mas sem dinheiro nem para comprar óleo e batatas para poder vender algo, acabou apelando a Igreja, onde recebeu uma cesta básica.

Um dia cruzou com Junior. Na época já devia seis meses de aluguel, e escutou "Na semana que vem vá lá na firma, pagarei seus aluguéis e te darei emprego", com a condição de fazer o possível para pagar de volta através de dedicação e transformação. Guimarães nos diz, ainda chorando, depois de completar um ano e sete meses de Afroreggae "Quantos meninos não estão perdendo a vida há essa hora? Ou se drogando? Eu acredito em vocês, jovens empresários, para evitar e melhorar essas condições. Obrigado por estarem aqui".



Para mim a frase mais certeira e forte em meio a esse depoimento foi "Uma caneta na mão de um político corrupto, mata muito mais que qualquer fuzil". Não se deixem levar apenas pelo resultado final, sem enxergar de onde provém. Atenção a quem elegemos, e após elegermos, que exijam ações como cidadãos. Não podemos ser meros espectadores da corrupção e desigualdade. Chega de hipocrisia!

Nesse mesmo dia, à noite, seguimos para um baile funk (Furacão 2000). É triste ver a conduta e letras agressivas. Algo voltado para diversão e distração que acaba induzindo ainda mais à violência.

Dia seguinte. Partimos para o Complexo do Alemão, um dos mais violentos lugares da cidade e considerado um dos maiores bunkers do Comando Vermelho.

Logo na entrada da favela, deparamos com a polícia especial em um ambiente protegido por sacos de cimento e metralhadoras apontadas a cada esquina. Ao ingressar na "área de risco", andamos com a sensação de ser observados a todo instante, e a cena de meninos carregando fuzis passou a ser normal naquele lugar, até vi uma bazuca enorme (daquelas vistas apenas em filmes como Comando para matar ) com os dizeres "CV" (Comando Vermelho) cravados. Além disso, o comércio de droga rolando solto, tudo ali, bem ao nosso lado. O que nos choca naquele momento é o cotidiano de milhares da população. Isso só no começo, imagine nas regiões mais altas, àquelas as quais ninguém de fora consegue (ou deve) chegar.

No meio daquilo tudo, conhecemos mais um núcleo do Afroreggae, com apresentações especiais, sorrisos, energia maravilhosa, esperança, vitória, sucesso, e o mais importante: oportunidades. E surge um novo relato marcante: de Dongo.

Foi gerente geral de duas bocas, perdeu os três irmãos no tráfico, sobreviveu em combates e tiroteios. Numa gravação de documentário cruzou com Junior e recebeu a oferta de um emprego por R$ 450,00. "Aceitei", diz ele e complementa "Não pelo dinheiro, é claro, fazia muito mais com as drogas, mas pela oportunidade. Nunca na minha vida eu tive uma oportunidade de um emprego". E emocionado finaliza "Estou a quatro anos aqui, e digo por todos, que não trabalhamos no Afroreggae, a gente vive o Afroreggae. É maravilhoso ser um multiplicador de tudo isso".

Próxima visita: Parada de Lucas. Ali crianças e violinos emocionaram a todos. Assistimos a uma apresentação, onde os pequenos nos mostraram através da música, como essa distância de mundos é triste e injusta. Lindas, impecáveis, organizadas, concentradas e de postura perfeita, emitiram sons de música clássica com o delicado som dos violinos. Só isso já me deixou emocionada.



Para finalizar, tocamos para a favela de Vigário Geral (onde o movimento começou). A Vigário era famosa em todo o Brasil pela violência, é agora reconhecida como um pólo gerador de arte e cultura. Do início ao fim da visita, houveram apresentações artísticas qualificadas. É o máximo ver a alegria de todos em se apresentar e poder mostrar o trabalho. Almoçamos lá mesmo na "Pensão da Chupetinha".

Uma mulher que passa a imagem de forte, durona e mandona, recebeu o grupo como se fossem filhos, fez um banquete de comida caseira super especial e se emocionou e chorou ao se despedir, agradecendo a visita e carinho. Afinal, quem deixa seu fim de semana de lazer para visitar a essas comunidades? É uma cena rara a aparição de pessoas interessadas em conhecer melhor e de perto para buscar mudanças.

Passamos também pela apelidada "Faixa de Gaza", rua que divide Vigário Geral e Parada de Lucas, e foi cenário da divisa entre a atuação do Comando Vermelho (Vigário Geral) e Terceiro Comando (Parada de Lucas). Os moradores das comunidades eram proibidos de circular entre as duas favelas e até cachorro que cruzasse por ali, era baleado.

E na divisa entre as duas comunidades, há uma escola. Consta ter gerado crianças vítimas da troca de tiros. Hoje com muito da ajuda do Afroreggae, é possível o trânsito tranqüilo entre as comunidades.

A busca do grupo e especialmente do CJE, é simplesmente diminuir as distâncias, sensibilizando e mobilizando empresários e pessoas com possibilidade de fazer algo, multiplicando cada vez mais essa força e união. Temos todos nós uma missão nada fácil e muito grande, mas sim, se todos darem as mãos, grandes chances de evoluir o mundo.

Ainda sendo os mesmos, estamos um pouquinho diferente depois desse final de semana. É absolutamente impossível tapar os olhos para tudo o que vivenciamos. Na missão de atuar em busca de mudanças, parabenizo a iniciativa do CJE, agradeço pela experiência, e ao Afroreggae, que completa agora 15 anos. Carrego uma enorme e crescente admiração.

Quem é a colunista: Fernanda Suplicy, uma pessoa com paixão por projetos e trabalho social.

O que faz: Além da sua empresa, FSUPLICY, é responsável pelo Gueri-Gueri (maior carnaval de rua de SP), colaboradora da revista Vogue Noivas e editora de imagens do Wedding Guide.

Pecado gastronômico: Bolinho de arroz do Ritz

Melhor lugar do Brasil: Fernando de Noronha

Fale com ela: [email protected]






Atualizado em 6 Set 2011.

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