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Por Redação Guia da Semana

Estique o pescoço

Sobrevivente das brincadeiras antigas, empinar pipa é uma prática saudável que pode acontecer livre das linhas cortantes.

Fotos: divulgação/Silvio Voce

Colorindo o céu da cidade principalmente na época de férias, a pipa é um objeto de lazer antigo, presente não só nas mãos juvenis, mas com muito marmanjo durante as horas vagas. De criação chinesa, primordialmente era usada por militares, mas aos poucos ganhou a conotação popular até se tornar o que é hoje, mobilizando pessoas em todo mundo com campeonatos, revistas segmentadas e especialistas na área.

A nomenclatura do objeto varia de acordo com a região. O papagaio veio de Portugal (introdutores da brincadeira aqui), mas tantos outros são chamadas, como: quadrado, raia, pandorga, barril, pepeta - sem esquecer o mais famoso: pipa, gíria carioca e espalhada pelo país inteiro.

Na China, grande parte da população deixa o trabalho de lado algumas horas do dia para levar ao ar esses aeroplanos de papel. Donas de casa, guardas, funcionários públicos e trabalhadores da construção civil ficam em parques abertos mostrando seus brinquedos coloridos. É uma ótima atividade de terapia e ainda melhora a postura, por fazer com que a pessoa se mantenha ereta olhando para o céu - bom para corrigir os problemas de coluna que surgem com o avanço da idade.

Embora no Brasil não exista profissionalismo, é considerada esporte em outros países, como Alemanha, Holanda, Espanha, Japão e Estados Unidos - onde torneios internacionais acontecem com calendário fixo. Aqui ela ainda é realizada por muitos, principalmente próximos de rodovias, parques e áreas periféricas, uma forma de diversão barata.

O artefato feito com papel de seda, duas varetas e cola também encontra suas variantes mais sofisticadas. Hoje, vão das tradicionais até modelos inusitados, inventados de acordo com a criatividade do pipeiro. Pode ainda ser construída com materiais diversos, do papel ao náilon para as velas e do pinho ao bambu para as varetas, dependendo dos ventos locais. Os preços vão do simples, por R$ 0,50, até os mais luxuosos de R$ 5,000,00.


Silvio Voce é um dos poucos brasileiros que leva essa brincadeira a sério. Há 20 anos trocou o curso de engenharia aeronáutica no CTA - Centro Técnico da Aeronáutica de São José dos Campos, SP, por um projeto arriscado e sem muitas perspectivas, o de construir e empinar pipas. Hoje trabalha somente com isso, dono de uma empresa de eventos ministra palestras, promove revoadas, torneios e workshops sobre o tema.

"Fui movido pelo nosso antigo sonho de voar, sonho este que nos acompanha desde o homem primitivo que percebe suas limitações diante da capacidade dos pássaros. É a partir daí que inicia seu desejo por asas", e completa. "Prático, pois a pipa oferece a possibilidade do homem voar com os pés no chão".

Nessas duas décadas participou de competições no exterior, ganhando prêmios na categoria criatividade (3º Meeting internacional, Itália; Dieppe Festival, França e Verdum Festival, Canadá) e beleza (Hamburg Kite Festival, Alemanha). Devido a sua influência na área, recebeu da Associação Mundial de Eolismo, a principal entidade do esporte, o título de membro, primeiro e único no Brasil. Isto aconteceu depois de sua apresentação na abertura da Eco-92, no Rio de Janeiro, quando colocou no ar um múltiplo - várias pipas atreladas - representando cada um dos países filiados à ONU.

O perigo está na linha

Silvio é autor de 14 livros falando sobre o tema, organiza o Campeonato Paulista de Pipas e Papagaios que ocorre uma vez por mês e ainda montou um Pipódromo no Parque Ecológico do Tietê, visando maior segurança para a atividade. "Minha idéia é divulgar e difundir a prática, promovendo ações com entidades carentes e escolas, evitando assim a cultura do cerol, que além de correr o risco de vida vai contra o espírito do esporte".

O cerol é uma mistura de vidro moído com cola que alguns soltadores de pipas passam nas linhas que envolvem os carretéis. Proibida por lei, ela traz riscos tanto para praticantes quanto para observadores. Ao entrar em contato com cabos elétricos, o cerol pode ocasionar curto-circuito e descarga elétrica, além do rompimento do fio que provoca corte na eletricidade. Caso atinja uma pessoa, ele causa graves conseqüências, como corte profundo e até mesmo a morte.


Segundo estatísticas da Associação Brasileira de Motociclistas, a cada 100 acidentes envolvendo pipas, 50% são no estado de São Paulo, sendo 25% fatais. Já a Eletropaulo, empresa distribuidora de energia elétrica de São Paulo, informou que, de janeiro a maio deste ano, foram registradas 5.513 ocorrências na rede elétrica da cidade, com maior incidência em janeiro, com quase três mil casos. Em 2007, o número ultrapassou os 16 mil, com quatro mortes. O maior índice foi em julho, com 3.130 registros.

O Diretor do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo (Stieesp), Sérgio Canuto, justifica: "Os incidentes em redes elétricas chegam a aumentar três vezes com a chegada das férias, isso porque muitas crianças enroscam as linhas de pipas na fiação e recorrerem a barras de ferros e metais para tirarem de lá". Sérgio relata que o último caso ocorreu na metade de julho, com o falecimento de uma criança da região do ABC, por curto circuito enquanto empinava pipa.

Embora não goste de papagaios, o motoboy Ademir Soares quase perdeu a vida por causa de um. "Estava atravessando a Marginal Tietê à tarde e de repente senti uma coisa no meu pescoço, pulei na hora no chão, sorte que não tinha carro do lado. Acabei levando 25 pontos e o médico disse que teria morrido se ficasse na moto. Hoje uso uma antena que me protege contra isso".

A legislação brasileira pune os pais, no caso dos menores que usam o cerol nas linhas, se for comprovado que foram responsáveis por alguma morte ou acidente. Eles respondem por crime de homicídio ou lesão corporal de acordo com a gravidade, podendo ser condenados a até três anos de prisão.

Fora isso, alguns lugares tentam penalizar de outras maneiras. No estado do Rio de Janeiro, desde 2001, o infrator que desrespeitar a regra paga uma multa de R$ 850,00. Em Sorocaba, interior de São Paulo, a lei pune em R$ 1.000,00 quem for pego (ou responsável) praticando a ilegalidade. Na Capital Paulista, o valor é de R$ 70,00.

Embora algumas pipas se transformam em obras de arte e ilustrando os céus das metrópoles, ainda é necessária a conscientização para muitos brasileiros em busca de torná-la um objeto de diversão pura, saudável e segura. Para dessa forma, como afirma Silvo Voce, "o homem redimir o seu frustrado desejo de voar".

Dicas importantes para empinar pipas

? Soltar pipa apenas em locais afastados da rede elétrica ou vias de transporte.

? Nunca use fios metálicos nem papel laminado para confeccionar a pipa. Eles são condutores de energia e podem causar choques fatais.

? Se a pipa ficar presa nos fios elétricos, não tente retirá-la.

? Não use cerol. Além do risco de ferir ou mesmo matar, o cerol costuma cortar os fios de alta e baixa tensão.

? Não jogue objetos na rede de energia elétrica, como arames, correntes e cabos de aço.

? Em caso de relâmpagos, recolha a pipa imediatamente. Elas podem atrair os raios.

? Não solte pipas em dias de chuva ou vento muito forte.

? Prefira pipas que não precisam de rabiola.

? Não suba em telhados, lajes, postes ou torres para recuperar pipas.

? Caso presencie um acidente desse tipo, para separar a vítima do condutor de energia use objetos de borracha ou madeira, evitando os de metal ou que estejam molhados.





Fontes:

Silvio Voce: engenheiro aeronáutico e eolista
Sergio Canuto: Diretor do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo (Stieesp)

Site: www.pipas.com.br

Atualizado em 6 Set 2011.

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