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Por Redação Guia da Semana

Lugar de mulher é no volante!

Longe da cidade e do asfalto, elas ensinam que são tão boas quanto os homens no off-road.

Fotos: Arthur Santa Cruz


Trilha, poeira, chuva e lama. Juntos, não parecem bons ingredientes para um passeio familiar. Para algumas mulheres esta é a situação ideal para fugir do caos da cidade, dos problemas cotidianos, buscando aventura e diversão no meio do mato. A equipe do Guia da Semana acompanhou como elas se comportam em uma competições de off-road, presenciando o 21º Raid do Batom, promovido pelo Jeep Clube Brasil, para o Dia Internacional da Mulher.

E como não poderia ser diferente, as mulheres não foram coadjuvantes, algumas encarnando até personagens de desenhos animados ou quadrinhos. Beth Boop, Penélope Charmosa e Gato Félix em seus jipes equipados e devidamente enfeitados para a ocasião, compareceram ao ponto de partida do Raid, a Avenida Anhaia Mello, zona leste. Previsto para sair às 9 horas, aos poucos o local foi invadido por off-roads: Jeep Willys, Niva, Land Roover, Suzuki, Toyota e outros, preparados para percorrer 120 quilômetros de asfalto e trilhas, num percurso que durou aproximadamente seis horas. Com a planilha em mãos, mais de 70 carros passaram por Guarulhos, Mairiporã, Atibaia, Bom Jesus dos Perdões até chegar à sede da Jeep, em Piracaia, interior de São Paulo.

Para inscrição, uma taxa de R$ 30,00 por veículo com direito a duas camisetas (piloto e navegador), demais ocupantes (chamados Zequinhas) pagaram R$ 15,00 com a camiseta. A única regra criada para este evento era só ter mulheres ao volante - que ainda sim foi burlada por alguns marmanjões.

Este ano, a tradicional corrida feminina não seguiu o formato competição, motivos de crítica para algumas participantes e de incentivo para outras se integrarem ao grupo. O diretor-técnico do Jeep Clube do Brasil, Sérgio Pratusiavicius, comenta. "A mudança ocorreu para atrair mais o público feminino, transformando-o em uma confraternização, evitando assim que as menos preparadas se sentissem desmotivadas para participar."

Entenda mais

Utilizados no transporte de soldados da Segunda Guerra Mundial, os jipes tinham a característica de andar por terrenos acidentados, onde um carro de passeio não andava.

Os 4X4 chegaram ao Brasil na década de 80. As primeiras competições (rally) começaram em 1983, com os modelos Willys (primeiros jipes fabricados). Com a globalização, houve um aumento do número de fabricantes e da procura pelos carros.

O Jeep Clube de São Paulo foi fundado em 1983, e hoje em dia cada estado do Brasil possui seu clube. As reuniões em São Paulo acontecem na Avenida Professor Luiz Ignácio Anhaia Mello, 1505, (restaurante Garage Burger), todas às quintas feiras.



Saindo na frente

A bi-campeã do Raid do Batom, Sandra Regina de Andrade, 49 anos, participou do evento pela quinta vez. Com mais de 30 torneios na bagagem, ela é a atual campeã paulista do Torneio de Regularidade na categoria aberta, competição que premia quem melhor cumprir os objetivos traçados na planilha de viagem, com tempo e velocidade média determinado pelos organizadores.



"Este ano minha filha não pode participar, devido a um mal estar, por isso meu namorado está aqui comigo como navegador", afirma Sandra, que compete normalmente com a filha Marjorie Ricciardi, de 18 anos. Essa foi a mesma dupla vencedora da categoria feminina no ano passado. O namorado Heitor Rodrigues assume não gostar muito do mundo off-road. "Ao contrário dela, eu desvio dos buracos e tenho dó de meter o carro na lama, mas pra ela não, quanto mais sinuoso o terreno, melhor. No fim, eu que tenho que cuidar da limpeza do carro. Por ela, o Troller ficaria imundo".

Quando Heitor é escalado para exercer a função de navegador, isto significa, traduzir as informações da planilha (roteiro de viagem criado pelos organizadores) para o piloto (no caso Sandra), ele toma algumas precauções. "Nós sempre levamos Dramin e saquinhos plásticos. Às vezes passo mal por causa da planilha que tenho que ler com o balanço do Troller, uma mistura não muito legal".

Dificuldades à vista

Não só os enjôos, mas o próprio formato do trajeto não dá moleza para as marinheiras de primeira viagem. O sol a pino e baixa umidade no ar transformaram os trechos de terra em puro pó, em algumas partes perdendo quase toda visibilidade. Em meio a vegetação remanescente, com borboletas coloridas e pássaros exóticos, alguns jipes não suportam a força emprenhada nos motores e quebram ou ficam presos em buracos que nem a tração nas quatros rodas consegue impedir que o obstáculo passe batido.

Um exemplo disso é o Jeep Willys de Geraldo Lourenço, 47 anos, que não estava com o pneu apropriado para uma subida íngreme. À bordo, na primeira participação no Raid, a esposa Maria e a filha caçula Giovanna rezavam enquanto o cheiro de borracha de pneu e embreagem denunciavam a impotente tentativa de sair do lugar. Graças ao guincho de outro jipeiro, o carro não ficou na ladeira. Depois disso, Lourenço lembra com um sorriso embaixo do grisalho bigode, fazendo planos para a próxima aventura.

O automóvel de off-road mais feminino era também o mais animado. Com o eclético fundo musical de Ivete Sangalo, CPM-22, Funk e outras bandas, o sexteto arriscava pela primeira vez, sozinhas, o evento. A poeira entrando pelos vidros abertos e tingindo o rosto suado e a branca camiseta, não impediu a aposentada Norma Perez, 69 anos, de dançar, cantar e brincar no passeio inteiro, enquanto a motorista Lurdes Almeida ignorava pedras, morros e cascalhos, impondo a Land Rover do marido mato a dentro.

Alguém tem que ficar com as crianças!

Abordo de um Mitsubishi, a artista plástica Cláudia Tielas, 39 anos e a biomédica Andréa Sucena, 41 anos, participaram pela terceira vez do Raid do Batom. A dupla já conquistou o Campeonato de Turismo Light da Copa Mitsubishi - torneio realizado somente com carros da marca - e estava desanimada com o formato atual da competição. "Isso tudo é muito parado, gosto de sentir adrenalina da velocidade e a corrida contra o tempo", enfatiza Cláudia.

A artista plástica adquiriu gosto pelas competições de off-road através de um convite da Mitsubishi quando comprou o carro, que quase custou o casamento. "Fui com meu marido - ele como navegador, eu como piloto - como ele não entendia nada da planilha, fiquei nervosa, pois queria chegar à frente e ele queria curtir o passeio. Brigamos e, a partir daí, cada um ficou na sua, até porque, alguém tem que ficar com as crianças", ironiza Cláudia.

Elas conheceram-se através dos filhos e as duas tornaram-se inseparáveis em competições. "Os maridos levam as crianças para o kart ou só aparecem na cerimônia de premiação e agente fica toda a emoção da corrida", resume Andréa.

E assim, o Guia da Semana acompanhou todo o passeio, comprovando que para se embrenhar no mato é preciso de três coisas: vontade, coragem e uma corda no carro, porque você nunca sabe quando ele vai atolar. Entre as paradas previstas e imprevistas, descobrimos que o mundo 4 X 4 não é dominado só por homens, muitas mulheres deixam seus maridos e namorados em casa e saem para a aventura, com prazer de transpassar buracos e obstáculos, com lama e poeira, pois afinal, se está na trilha é para se sujar.

Quem paga a conta?
Não só de diversão vive quem pratica esse tipo de competição. Para entrar em um é necessário ter os equipamentos recomendados pelo regulamento da prova, variando de acordo com o nível de profissionalismo do torneio (como Turismo, Graduado e Super Máster).

Os carros precisam ter tração nas quatro rodas para enfrentar terrenos íngremes e pneus feitos de uma borracha diferente e com desenhos especiais das utilizadas no asfalto. Um pneu de trilha no asfalto consome muito mais rápido. Existem pneus que chegam a custar até R$ 1.500,00.

Os preços dos 4X4 variam bastante, de acordo com o ano, modelo e opcionais embutidos. como ar condicionado, computador de bordo. Um Jeep Willys 1957, por exemplo, custa mais ou menos R$ 20.000,00, já um Troller 2005, vale por volta de R$ 80.000,00.

Para participar de um Raid, Sandra Regina afirma que não gasta menos de R$ 500,00. "Além da inscrição, arcamos com gasolina, alimentação e hospedagem - em viagens para interior e fora de São Paulo - isso sem contar com a manutenção, indispensável. Quando você chega em primeiro lugar, você recebe um parabéns e um aperto de mão, mais nada", reflete Sandra, apontando para a falta de patrocínio uma das principais causas de não concorrer em mais torneios.

A manutenção é realmente o grande problema desses aventureiros. Cláudia Tielas chega a gastar R$ 3.000,00 com limpeza e revisão completa do carro e motor após uma competição, além de ter pneus próprios para trilhas, que custam R$ 800,00 cada um. "Com certeza é uma brincadeira cara para se fazer, não precisa só gostar de correr".




Atualizado em 6 Set 2011.

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