Guia da Semana

Guia da Semana



Viver em uma cidade como São Paulo, gigante e acelerada, muitas vezes significa abrir mão de momentos preciosos da existência. O ócio se tornou crime e soa absurdo deixar as obrigações de lado. Afinal, todo tempo é dinheiro nas metrópoles que não dormem e a sobrevivência grita.

Ainda assim, a todo o momento se reafirmam a fragilidade do ser humano e sua dependência dos elementos naturais primitivos. E o cansaço do corpo e da alma já faz com que em diversos pontos do planeta, especialmente na Espanha, França e Itália, cada vez mais pessoas optem por um estilo diferente. Vidas alheias à ultravelocidade, à acumulação e ao consumo, princípios de um sistema aparentemente inevitável. Aparentemente.

Esta cultura de retomada da posse sobre o tempo recebeu o nome de Movimento Slow. Descrita por Carl Honoré ("Devagar"; Editora Record; R$ 40,00), a iniciativa vem sendo adotada por cidadãos e organizações esparsos pelo globo e chegou a virar regra em cidades inteiras no interior da Itália. Mesmo em centros urbanos como Barcelona e Roma, são claros os sinais de derrota da otimização obstinada.

Segundo a filosofia slow, todas as velocidades desnecessárias devem dar lugar à qualidade de vida individual e coletiva. Como numa utopia fantástica, pessoas cozinham, comem, bebem, dormem, trabalham, convivem, fazem sexo e, principalmente, contemplam o mundo sem a urgência fatalista dos ponteiros.

Um dos seus princípios fundamentais é o contato com a natureza. Uma tarefa ingrata para os paulistanos, que convivem com baixos índices de arborização urbana e deterioração dos espaços públicos. Desvalorizadas, praças, parques e ambientes públicos em geral tornaram-se sinônimos de redutos marginais.

Afastados das origens filosóficas e democráticas da Ágora grega, onde os cidadãos se encontravam para discutir política e praticar democracia, pois estavam abandonados ou cercados por grades e muros, são poucos os lugares públicos efetivamente acessíveis na cidade. A regra, entretanto, comporta exceções e uma das mais belas é a Praça do Pôr do Sol.

Situada na Vila Madalena, entre a Avenida Diógenes Ribeiro de Lima e a Rua Desembargador Ferreira França, originalmente batizada Coronel Custódio Fernandes Pinheiro, a praça justifica o apelido famoso. De suas encostas é possível admirar panorâmicas privilegiadas e seus frequentadores são premiados todos os dias com uma das mais belas visões do sol poente em São Paulo.

O desfile de cores no céu ajuda a formar um público cativo no lugar. Casais de namorados, famílias, amigos em rodas de violão e esportistas driblam, com muita boa vontade, limitações como a falta de sanitários, a grama alta, o lixo acumulado, os arranha-céus que atrapalham a bela visão e, claro, o medo da violência - especialmente durante as noites.

Estes problemas, no entanto, não devem servir de obstáculo, mas sim de alerta cidadão. Em primeiro lugar, não visite a Praça do Pôr do Sol sem cuidar do lixo produzido no passeio. Além disso, vale lembrar que todas as ações de governos se determinam por prioridades. E em uma cidade de proporções exageradas, depende de muita pressão e ação da população chamar atenção para um ou outro lugar.

A Prefeitura de São Paulo disponibiliza o telefone 156 e um site para críticas, sugestões, solicitações ou reclamações referentes à administração. Já utilizei o serviço para exigir o corte da grama e a limpeza da praça, com sucesso. O policiamento, frequente para coibir casais e grupos festivos, deve ser acionado (190) em caso de ameaças.

Finalmente, fica a sugestão de uma visita ao Bar do Seu Zé, próximo ao local (ruas Cardeal Arcoverde x Simão Alves) e famoso pelas empanadas chilenas e pela cerveja gelada. Um brinde à Praça do Pôr do Sol, ao ócio criativo e à cidadania.

Foto: Vandreia Ribeiro - Veja mais fotos aqui!

Quem é o colunista: Rafael Martins Gregório.

O que faz: Jornalista, músico, advogado e escritor.

Pecado Gastronômico: Pizza, chocolate, sorvete. Guloseimas exóticas em geral.

Melhor lugar do mundo: Minha cama e um colinho bom.

Fale com ele: rafaelmgregorio @gmail.com ou acesse seu blog.

Atualizado em 6 Set 2011.