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Por Redação Guia da Semana

Os mistérios do Alto Acre

De Rio Branco a Assis Brasil, os caminhos da Floresta e da história se encontram.

Fotos: Bruno Cesar Dias

Entrada do Seringal Cachoeira, fonte de borracha e castanha do Brasil, por um igarapé

O verde e o novo ocupam os 164,2 mil km² do Acre, estado repartido em 22 municípios e segmentado geograficamente nas regiões alta e baixa. A divisão diz respeito às nascentes hidrográficas. Por estarmos no hemisfério sul, os rios 'sobem' para o mar em direção ao Equador, fazendo o Vale do rio Acre ser nomeado "Alto Acre", mesmo estando ao sul do estado. Já o Vale do rio Juruá é o "Baixo Acre", local onde todas as águas dessa parte da Amazônia desaguam.

Compreendendo os municípios de Jordão, Feijó, Taracauá, Marechal Taumaturgo, Plácido Lima, Porto Walter, Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul (segundo maior município do Estado), o Vale do Juruá se destaca pela exuberante biodiversidade, hoje protegida pelo Parque Nacional da Serra do Divisor. Lá está também a nascente do Rio Moa, ponto mais a oeste do Brasil, na divisa com o Peru.

Já o Vale do Rio Acre compreende as cidades de Porto Acre, Plácido de Castro, Bujari, Senador Guiomard, Capixaba, Epitaciolândia, Brasiléia, Assis Brasil, Xapuri e a capital, Rio Branco. E é nesse pedaço de Brasil que agora vamos entrar.

Rio Branco


O Palácio Rio Branco, símbolo do poder e da luta do Estado

Depois de um dia de conexões chega-se à cidade de Rio Branco, capital do Estado fundada em 1902 e atualmente com 319.825 habitantes. Sua porta aérea, o Aeroporto Internacional Plácido de Castro, de tão pequeno cabe dentro de uma quadra de tênis. Esse desenvolvimento acanhado, motivo de vergonha para muitos acreanos, vem se transformando.

Diversos prédios e construções estalam de novo em toda a cidade, com destaque para o chamado Distrito Industrial, um dos bairros mais recentes de Rio Branco, e onde, além do aeroporto, estão instalados o campus da Universidade Federal do Acre (UFAC), a Câmara de Vereadores, o novo Tribunal de Justiça, sedes de indústrias, igrejas evangélicas e condomínios de maior porte, com edifícios de mais de 10 andares. Os próximos a subirem serão a sede do governo do Estado, um novo aeroporto e o primeiro shopping center da cidade, que trará para Rio Branco suas primeiras lojas de redes de porte como Americanas e Magazine Luiza, além de duas novas salas de cinema, essas com sistema de som 3D. A previsão de entrega desta obra é para setembro.

De arquitetura simples por conta de todo atraso nacional e de sua recente idade (98 anos), o centro da capital demonstra civilidade e até um certo bucolismo. Suas principais construções públicas, o Museu Palácio Rio Branco e a Catedral Nossa Senhora de Nazaré, datam do final da década de 40, e algumas casas e construções particulares já estão marcadas pelo tempo, como o Art Decô da Galeria Comercial Meta (referência de centro comercial da cidade, com nove lojas de roupas, CDs e artigos esportivos). Mais modernos são o Memorial dos Autonomistas, a Prefeitura e a Biblioteca dos Povos da Floresta.

Em meio a ruas e praças arborizadas, o rio Acre corta a cidade. No sítio de sua fundação, Rio Branco vê ressurgir um importante conjunto histórico-cultural. Parte do casario do ciclo da borracha começou seu processo de reformas há 12 anos, remoçando construções como o Cine-Teatro Recreio e a Sociedade Cultural Tentâmen - os primeiros palcos locais abertos para receber as companhias artísticas que se atravessavam a Amazônia -, e devolvendo a beleza ao Calçadão da Gameleira, na margem direita do leito.

Os ventos da retomada histórica chegaram também nas construções da Praça da Revolução, do outro lado do rio. Originário de 1926, o antigo mercado municipal, agora apelidado Novo Mercado Velho, voltou a se o ponto de compras de artigos da floresta e de comidas típicas como o mingau de banana com tapioca e a baixaria. A próxima reinauguração será a do Mercado dos Colonos, em fase final de reforma. Como no passado, o espaço reunirá barracas dos produtores das áreas rurais com frutas, verduras e demais mercadorias da terra.

As duas margens são ligadas pela Passarela Joaquim de Macedo e, ao cair da tarde, os calçadões ficam cheios de mesinhas, convidando moradores e turistas para aproveitar a happy hour apreciando petiscos, chope gelado e Guaraná Baré (da Ambev) em meio às estátuas representativas do povo acreano.

Outro destaque é o Parque da Maternidade, com seis mil metros extendidos por Rio Branco e que conta com anfiteatro, ciclovia, calçadão, playgrounds e pistas de skate, além de bares e restaurantes. Ao longo de sua área foram abertos diversos espaços culturais como a Biblioteca da Floresta, a Casa do Artesão e a Casa dos Povos da Floresta, entre outros.

Quase na saída da cidade, no sentido sul, chega-se ao Parque Chico Mendes, uma área de 11 m² com floresta primária, zoológico, réplicas de malocas indígenas, ciclovia, reprodução do espaço do seringal e um memorial do líder político, e o estádio Arena da Floresta, campo de mando do Rio Branco Futebol Clube. O 'Estrelão', apelido carinhoso da agremiação, é a casa dos craques locais e atualmente se encontra na terceira divisão do campeonato nacional.


Contrastes em Brasiléia, cidade de fronteira do Alto Acre

Senador Guiomard e Capixaba

Pastagens, pequenos charcos e o que sobrou da vegetação ciliar da Floresta ocupada pela pecuária marcam a mudança de paisagem da BR-317. Na saída de Rio Branco, Senador Guiomard e Capixaba são as duas próximas cidades cruzadas pela Rota do Pacífico.

Mesmo que batizada em homenagem ao político José Guiomard dos Santos, é com o nome de Quinari que os acreanos conhecem esta terra de um amendoim de excelente qualidade. Já Capixaba, apesar da referência ao povo do Espírito Santo, tem população de origem paranaense e é uma dos municípios com mais com maior índice de evangélicos do estado, acima de 70 %. O protestantismo representa quase 50 % do credo da população acreana.

Assis Brasil, Brasileia e Epitaciolândia

A partir de Capixaba começa a área pioneira dos seringais, que no auge do ciclo da borracha extendiam-se para além da divisa com o Amazonas até as terras bolivianas. Da região, foram visitados os municípios de Assis Brasil, Brasileia, Epitaciolândia e Xapuri.

São cidades de fronteira, com cotidiano marcado pela forte presença militar e policial, com agentes do Exército e da Polícia Federal regulando os acessos aos países vizinhos. Ao Peru, a ligação é feita pela ponte da integração a partir de Assis Brasil. Já para chegar à Bolívia, pode-se escolher a ponte Wilson Pinheiro, em Brasileia ou uma velha ponte de alvenaria em Epitaciolândia. No entanto, militares dos três países têm sua preocupação com os rios, com suas águas sem nacionalidade definida e por onde todo o tipo de tráfico e contrabando passam.

Mesmo com tanta vigilância, as três cidades mantêm o ritmo pacato de interior, com conversa na praça e chamamento para a missa e cultos por alto-falantes. A mistura de etnias e povos produzem um interessante e rico portunhol, falado tanto quanto as línguas-pátrias.

Das três, Brasileia é a mais desenvolvida. Suas terras, atravessadas pelo rio Acre, foram escolhidas para receber os casarões dos donos dos seringais e das autoridades locais no auge da exploração extrativista. Hoje, todos podem apreciar esse pedaço de natureza sentados nos bancos do mirante municipal.

A cidade se destaca também por ser berço da luta sindical que inrompeu na década de 70 sob a liderança de Wilson Pinheiro. Fundador e primeiro presidente do Sindicato dos trabalhadores rurais de Brasileia, Pinheiro foi assassinado em 1980, oito anos antes de Chico Mendes, a quem influenciou e formou politicamente. Além da homenagem com o batismo da ponte com a Bolívia, o sindicalista tem sua história preservada no Memorial Wilson Pinheiro, instalado na antiga sede do sindicato.


Casa de Chico Mendes em Xapuri virou museu e traz um pouco da história desse herói nacional

Xapuri

Com 15 mil habitantes, Xapuri é o maior município da região e, desde o seu surgimento, em 1904, ostenta o título de Princesinha do Acre. Sua fundação e apelido estão diretamente relacionados à cultura extrativista da borracha na Amazônia, resultando na formação dos seringais e da luta política acreana a qual foi (e ainda é) palco nos últimos 100 anos.

O nome deve-se aos índios Xapurys, os primeiros habitantes da região e que foram aculturados pelos portugueses em meados do século XVII. Batiza também o rio Xapuri, afluente do rio Acre por onde  chegou o inglês Henry Wickham, trazendo as mudas das primeiras seringueiras que se alastrariam pela região, e por onde chegaram diversos mascates libaneses e sírios.

Essas influências encontram-se vivas até hoje, seja no adaptado casario de estilo inglês, e nas antigas lojas e armazéns da 'Rua do Comércio', trecho das ruas 17 de Novembro e 6 de Agosto às margens desse braço d'água. Já a Igreja de São Sebastião, segunda edificação católica da cidade (a primeira foi destruída sem deixar vestígios) e dois grandes colégios católicos são as marcas das edificações portuguesas.

As histórias do passado estão guardadas no Museu de Xapuri, que conta com rico, porém mal aproveitado, acervo. Já as da luta política permanecem acesas no Memorial do Seringueiro, no Centro de Memória Chico Mendes, na Casa-Museu da liderança e no Seringal Cachoeira. O local, palco das principais batalhas nas décadas de 70 e 80, hoje compõe a reserva agro-extrativista Chico Mendes. Passados 12 anos da conquista final, o Cachoeira dá a seus moradores a seiva da borracha e a castanha. Em contrapartida, eles começam a se capacitar para desenvolver o eco-turismo e o turismo de aventura na região, explorando assim, de forma econômica e sustentável, ainda mais riquezas desse pedaço de Brasil.





Atualizado em 6 Set 2011.

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