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Por Redação Guia da Semana

São mil faces...

Exposição em cartaz no CineSesc retrata a rua que há décadas simboliza a diversidade da metrópole.

Foto: Divulgação


Augusto, no dicionário, remete ao sagrado e ao divino. Algo ou alguém digno de respeito e veneração. Sobrenome de imperadores na Roma Antiga e, em séculos menos distantes, adjetivo qualificador da arte circense.

Para quem vive na cidade de São Paulo, Augusta significa "coração pulsante". O sobrenome de César dá nome à via que liga o Centro aos Jardins e alia, em um mesmo cenário, luxo e lixo, certo e errado, passado e futuro.

Habitada por comerciantes, prostitutas, executivos, mendigos, cinéfilos, gays, modistas, retrôs, jovens, velhos e principalmente artistas, a Rua Augusta é hoje um dos mais importantes pontos de referência cultural da cidade.

O lugar resistiu (e resiste) bravamente ao abandono do poder público, perseguições de autoridades e manifestações de retrocesso. Hoje, concentra em suas calçadas uma esperança à tolerância e à diversidade, alimentando-se feliz de seus evidentes contrastes.

Não por acaso, é terreno fértil para a arte. Especialmente a dos músicos, desde os que subiam a rua a 120 por hora aos que descem a ladeira de bar em bar, que encontram abrigo em diversos clubes de rock n' roll que nos últimos anos se instalaram na parte que liga a Avenida Paulista ao centro.

Nas décadas de 60 e 70, a Rua Augusta foi ponto de referência de consumo e estilo, especialmente para as mulheres da alta sociedade, algo como a atual Oscar Freire. Ícone da bossa nova na paulicéia, posteriormente serviu de refrão aos artistas da Jovem Guarda, ídolos de uma nascente classe média consumista e americanizada.

Já nos anos 80 e 90, a cena conheceu a decadência. Esta época ficou marcada pelo colapso dos pequenos comércios, rivalizados por Shopping Centers, cada vez maiores e mais numerosos, e pela degradação do espaço público.

Condenada ao estereótipo da prostituição e da marginalidade, nos últimos 15 anos, a rua experimentou uma recuperação curiosa. Como em inúmeros outros exemplos, o diferencial não foram ações de governos, mas sim de cidadãos comuns em ações de ocupação, cuidado e reciclagem cultural.

Assim é que na deterioração urbana de seu lado central, paradoxalmente aconchegante, ou na imponência elegante da face Jardins, a Rua Augusta é hoje um grande mosaico, com peças de diversidade estonteante. Da galeria Ouro Fino à Ouro Velho.

Muitas respostas tentaram, sem sucesso, decifrar o enigma. Aos ultraobjetivos e pragmáticos de toda sorte, um aviso gentil: a contradição é a regra do jogo.

A Augusta é impossível de definir. E esta é justamente sua mais precisa definição.

Um enquadramento difuso e arredio que justifica o plural no nome da exposição Augustas, do fotógrafo Eder Chiodetto, em cartaz no CineSesc.

Em panorâmicas que exaltam o movimento e parecem ultrapassar a fronteira entre a fotografia e o vídeo, Eder retratou algumas faces desta paisagem complexa. Bares, calçadas, pessoas.

A proposta de investigar os limites estáticos da imagem permitiu ao artista misturar à visão documental doses generosas de abstração. Os retratos se aproximam da sobreposição seqüencial de imagens a que chamamos cinema. Valem a visita e o passeio, em seguida, pelas calçadas da musa inspiradora.

Ao final, seja nos grafites, na vida pulsante, no lixo, na arte, nas fotografias, no vídeo ou no dicionário, a Rua Augusta segue imponente. Transformando os sonhos paulistanos, à mesma medida em que por eles se deixa transformar.

A exposição Augustas está em cartaz até 31 de janeiro de 2010, no CineSesc. Rua Augusta, nº 2.075. De terça-feira a domingo, das 14h às 21h, de graça. Mais informações pelo telefone 3082-0213 ou no site do SESC.

Quem é o colunista: Rafael Martins Gregório.

O que faz: Jornalista, músico, advogado e escritor.

Pecado Gastronômico: Pizza, chocolate, sorvete. Guloseimas exóticas em geral.

Melhor lugar do mundo: Minha cama e um colinho bom.

Fale com ele: rafaelmgregorio @gmail.com ou acesse seu blog.


Atualizado em 6 Set 2011.

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