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Por Redação Guia da Semana

Um colírio para a mente

Um passeio pela mostra Yoko Ono releva o universo misterioso da esposa de um dos maiores mitos da música.

Fotos: Luciene Cimatti


Movida por um misto de curiosidade e nostalgia, decidi ver a mostra Yoko Ono - Uma Retrospectiva, no Centro Cultural Banco do Brasil, que faz parte das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa. Através da exposição, conheceria mais sobre a artista plástica que causou furor na época dos Beatles, além de ver obras que respingam um pouco da história de John Lennon, testemunhada pela artista, hoje sua viúva. Só de pensar em subir a famosa escada e ler no teto com uma lupa a palavra "yes", pisando nos mesmos degraus que levaram o meu ídolo a se interessar pela autora da obra, já valeria a visita ao evento. Sem falar que é uma boa desculpa para passear pelo centro de São Paulo, para admirar e fotografar belos prédios antigos, como o próprio CCBB.

Como típica fã dos Beatles, também já tive minha dose de desconfiança de Yoko Ono. Afinal, dizem que ela foi o pivô de ter causado o fim da banda. Por outro lado, admito certa curiosidade por essa figura enigmática e irreverente, que impressionou ao ex-beatle e já causou tanta polêmica mundo afora. Depois da morte de John Lennon, ela saiu da sombra e só nos resta conhecer o seu trabalho e enxergá-la através de sua obra. O fato de saber que quando esteve aqui ela fez questão de passear pela capital paulista e conhecer seus principais pontos turísticos, denominando-a "uma cidade em ebulição, um caldeirão de cultura", já foi o primeiro passo para fazer as pazes com Yoko.

Logo no hall de entrada do centro cultural, há uma árvore feita para que os visitantes decorem com papéis onde escrevem desejos para a cidade de São Paulo. Essa é uma das características da exposição, onde a artista convida os espectadores a participar, desempenhando um papel ativo no processo criativo e na elaboração de algumas obras. Foi divertido caminhar sobre um rio de pedras, pintar um quadro coletivo, colocar memórias sobre minha mãe no painel My mummy is beautiful, buscar a saída num labirinto de vidro e ver peças de porcelana quebradas que podiam ser coladas.

A procedência oriental de Yoko Ono se revela na simplicidade com que suas idéias são apresentadas, o que me ajudou a apreciar mais a arte conceitual, apesar de ser leiga no assunto. É um tipo de arte para se ver com os olhos da mente, se entregando às sensações e expandindo nossa forma de enxergar a vida, para explorar seus diversos matizes. Um exemplo é a série Objetos e pesos na primeira parte da exposição, feita de balanças com diferentes objetos sobre ela, o que nos faz refletir sobre o valor de cada um deles na atualidade. Entre tantas obras, a série Trabalhos com instruções, na forma de frases em cartazes, me encantou. Para citar uma:

Obra de Limpeza IV
Anote todas as coisas que você teme na vida.
Queime.
Jogue óleo de ervas com aroma doce sobre as cinzas.
Y.O. 1996


À medida que subimos os andares, a exposição torna-se mais densa. Difícil não sentir certa melancolia na série Objetos de sangue, onde diversas peças são respingadas de vermelho, entre eles um jogo de mesa, taco de beisebol, porta-retrato, os óculos redondos e a camisa com o sinal da bala no peito, relembrando o assassinato de John Lennon.

Vi poesia na obra meio-quarto, que apresenta um espaço decorado com objetos e móveis cortados ao meio, representando a ruptura de um casal. Em seguida viria o que chamei de sala sinistra, por ter causado arrepios assim que entrei, vendo objetos quebrados e esculturas de corpos mutilados, que simbolizam a violência e degradação do planeta. Essa idéia se resume na obra em placa de concreto, que traz a inscrição que se repete: earth calling stop help us stop help us...

Por meio de poemas, performances, fotografias e instalações, Yoko Ono se expressa mostrando suas diversas facetas, desde a singela até a contestadora, e seu trabalho abre minha mente para as infinitas possibilidades de traduzir a vida. Saio de lá ainda com as palavras e imagens que mais me tocaram, na cabeça. Impossível é sair indiferente. Só não pude subir a famosa escada, como fez John Lennon, porque não era autorizado, e tive que me contentar com uma foto, tirada sem permissão mesmo.


Quem é a colunista: Alguém que adora animais, escrever, fotografar, passear por aí.
O que faz: Jornalista e professora de inglês
Pecado gastronômico: Todas as massas e muito chocolate.
Melhor lugar do mundo: Minha casa ao lado dos meus bichos. Ah e tem também a praia de Garopaba em SC.
Fale com ela: [email protected]

Atualizado em 6 Set 2011.

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