Guia da Semana

A versão 2010 de Hair

Mesmo com um ingresso caro e a música final traduzida, Hair é um grande e ótimo espetáculo

Foto: Divulgação


Dizem que todo crítico de teatro é um ator frustrado. Não é verdade. Mas ontem, na plateia do teatro Oi Casagrande, eu fui veementemente censurado pelos outros espectadores quando insisti em cantar a trilha sonora de Hair junto com o elenco da peça. Eu estava diante dos novos prodígios do teatro brasileiro - esses atores que cantam, tocam, dançam, sapateiam, dão cambalhotas, fazem malabarismo, contorcionismo e, além de tudo, ainda têm tempo para serem bonitos e interpretar bem. Pois é... Não teve jeito. Tive que sentir uma invejinha criativa!

Fiquei feliz por ter finalmente prestigiado a peça que só conhecia através de vídeos, partituras e livros. O cenário e a iluminação do espetáculo estão muito bonitos e em conformidade com a proposta cênica. O elenco, formado por atores desconhecidos do grande público, possui indiscutível talento vocal e corporal. A direção de Cláudio Botelho e Charles Müller, diferentemente de alguns enlatados americanos que ultimamente entraram em cartaz no Brasil, não se deixou engessar pelo selo "made in USA".


Na minha opinião, os diretores acertaram em respeitar algumas propostas cênicas criadas por Ademar Guerra na versão brasileira de 1969, dando uma conotação poética à única cena de nudez mantida no espetáculo. Tá bom, tá bom... Sabemos que isso transgride o roteiro original... mas, convenhamos: na década de 60, a nudez passava uma mensagem de liberdade e quebra dos paradigmas sociais. Hoje, já não causa mais o mesmo impacto no público, pois foi banalizada pela indústria cultural e pela internet, tornando-se um clichezão a la Gerald Thomas.

Mas não adianta discutir com a galera da velha guarda... Dirão que Ademar Guerra foi obrigado pelo AI-5 a reduzir e poetizar as cenas de nudez, e que o correto seria o elenco ficar nu em diversos momentos da peça. Credo! Sigamos uma linha de raciocínio mais moderna: no jornalismo, aprendemos que, se a informação tem ruídos, o receptor não presta atenção na mensagem. Nudez em excesso em uma peça tão importante como essa atrapalha na transmissão da mensagem. A cena atual ficou muito bonita e elegante. Meu irmão - que tem apenas 14 anos e não conhecia o roteiro - estava ao meu lado e se sentiu tão envolvido pela história que nem se surpreendeu quando o elenco começou a tirar a roupa.

A tradução do Botelho me incomodou um pouco. Meio forçada em alguns momentos. E, confesso, senti falta da frase "Let the sun shine" pelo menos na última estrofe da canção final. "Deixa o sol entrar" não deu o mesmo barato. O público até cantou essa música junto com o elenco, mas em inglês.


Se existe algo que realmente me incomoda nestes grandes musicais é o preço dos ingressos. Em Hair, então, o paradoxo se torna maior que o baseado de Jimi Hendrix. A peça fala sobre hippies, suas relações com as drogas, sua ideologia anarquista, militância contra a Guerra do Vietnã, conflitos íntimos e, principalmente, seu desapego em relação às riquezas materiais. Mas, paradoxalmente, o ingresso desta peça custa um terço do salário mínimo.

Mas quem sou eu pra julgar... Talvez os donatários brasileiros de Hair tenham feito uma pesquisa e descoberto que os hippies do passado se tornaram membros da burguesia e aristocracia atuais! Afinal, o que tinha de vovô animado na plateia...

Emocionei-me ao ver que esses megaespetáculos são possíveis de serem realizados em nosso país com um elenco totalmente desconhecido pelo grande público. Concordamos que o preço do ingresso deveria ser mais acessível e que a dupla Cláudio Botelho e Charles Müller deveria produzir mais obras nacionais... Mas Hair é Hair! É um marco. É histórico. Se já é complicado agradar totalmente um chato como eu, imagina como deve ser difícil agradar a tantas pessoas, jovens e velhos, intelectuais e baladeiros, maconheiros e caretas? Acredito que a experiência de assistir a essa peça é única e intransferível... Afinal, Hair é um sucesso de bilheteria e, pelo visto, continuará em cartaz no Rio de Janeiro no ano que vem. Assista! Eu estou cantando até agora: "Let the sun shine, let the sun shine, the suuuun shineeeee"!

Leia as colunas anteriores de João Pedro Roriz:

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A suprema felicidade?

Quem é o colunista:"Sou um bandido corrompido pelas paragens do bem, muito além do homem descrito como poeta".

O que faz: Escritor, jornalista e ator. Autor de nove livros e peças de teatro. Faz palestras em escolas de todo o Brasil. É apresentador do programa "Rio Cultural", da Rádio Rio de Janeiro.

Pecado gastronômico: Todos, principalmente cerveja quando sai com os amigos!

Melhor lugar do mundo: Sua casa, principalmente na hora de escrever e/ou quando os parentes e os amigos o visitam.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: É muito fã de Chico Buarque. Também gosta de música clássica, ópera, rock e MPB.

Para falar com ele: jproriz@gmail.com, ou no seu site.

Atualizado em 6 Set 2011.

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