Guia da Semana

Arranha-céu de Kafka

Eliana Monteiro fala sobre a direção de Kastelo, nova produção do Teatro da Vertigem, encenada em plataformas penduradas na fachada do Sesc Avenida Paulista, em São Paulo

Foto: Nelson Kao

Os atores Roberto Audio e Luisa Nobrega em cena de Kastelo, em balancim na parte externa do Sesc Avenida Paulista

Cercados pelos castelos de vidro da Avenida Paulista, os atores do Teatro da Vertigem utilizam mais um espaço inusitado como cenário para suas montagens. Depois de usar como palco uma igreja, um hospital, um presídio e o rio Tietê, o grupo encena o espetáculo Kastelo, uma livre adaptação da obra inacabada O Castelo, de Franz Kafka, literalmente na fachada do edifício da Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista, em São Paulo. Durante a peça, sete atores interpretam em plataformas móveis de 3,5 m de comprimento, a 10 m de altura, e levam para cena questionamentos sobre o universo do trabalho e as ilusões do mundo corporativo.

O enredo mostra o cotidiano de empregados de uma empresa que trabalham de maneira obsessiva, sempre com a intenção de pertencerem àquela realidade ilusória, mas, na verdade, estão sempre do lado de fora. Para que o público vivencie o dia a dia da "sociedade do trabalho", a cenografia reproduz um ambiente com cadeiras giratórias, arquivos de aço, gaveteiros e fichários. Apenas grandes janelas de vidro separam a plateia do elenco. Pela primeira vez na direção, Eliana Monteiro, que faz parte do Vertigem desde 1998, conta ao Guia da Semana sobre como o grupo escalou essa construção kafkiana.

Guia da Semana: O que motivou a escolha do romance inacabado de Kafka como inspiração para peça?
Eliana Monteiro: Na verdade, a primeira inspiração era questão da sociedade do controle e do trabalho. E no Vertigem, a gente teve várias aulas com o filósofo Peter Pál Pelbart. Nas conversas ele sempre citava exemplos de Kafka. Então, comecei a ler os romances kafkianos para ver se algum fazia um link com o tema. E O Castelo abordava tanto a sociedade de trabalho, como a de controle. Foi aí que surgiu a ideia, que não é uma adaptação, mas uma inspiração mesmo.

Guia da Semana: Como foi o processo de dramaturgia?
Eliana: O primeiro passo foi pegar o livro e, todos os dias, os atores traziam cenas sobre o que eles queriam dizer com aquele capítulo, já que o depoimento pessoal é muito forte no Teatro da Vertigem. Então nós trabalhamos em cima dos 25 capítulos dessa forma. Depois disso, fomos mesclando as ideias em um processo colaborativo.

Foto: Divulgação


Guia da Semana: O que norteou a criação de cenas? Como foi esse processo?
Eliana: O norte foi o livro do Kafka mesmo. No início, todas as cenas estavam relacionadas com o texto. Nós até poderíamos ter feito uma adaptação, mas como tinha a questão da sociedade de controle, que era muito forte para gente, e a sociedade do trabalho, comecei a pedir outra investigação relacionada com o que é o trabalho para cada um, até para não ficarmos tão presos ao livro. A dramaturgia do espaço também mudou muita coisa. Na frente do Sesc há o prédio Itaú cheio de pessoas trabalhando enlouquecidamente. Isso também fez o processo mudar de novo.

Guia da Semana: Quanto tempo durou o processo de ensaios?
Eliana: Foi um ano até a estreia.

Guia da Semana: E foi a primeira vez que você assumiu de fato a direção. Quais foram as dificuldades encontradas durante essa experiência?
Eliana: A maior dificuldade foi de condução. De Apocalipse em diante, eu estive em todos os processos de criação, mas o Tó (Antonio Araújo) estava à frente, e para mim era muito mais tranquilo. Desta vez, o Tó ficou mais afastado, para que pudesse dar a cara à tapa. Claro que ele me ajudou todas as vezes que eu precisei, mas ele ficou muito mais tempo esperando minha solicitação. Mas o maior desafio foi quando chegamos ao Sesc, pois ficamos somente 22 dias com os balancins (plataformas), apesar de ter ensaiado durante muito tempo. E os atores tinham medo. Subiam no balancim e esqueciam o texto. Foi como começar a peça do zero quando chegou tudo. Mas como tinha que ser rápido, não tínhamos muito tempo para ter dúvidas. Então foi no susto.

Guia da Semana: Como foi a preparação dos atores para interpretar nas alturas?
Eliana: Eles fizeram um ano de treinamento com a Mônica Alla, mas sem o texto. Mas chegar lá em cima, dizer o texto e interpretar é um processo difícil. Mas não foi o trabalho mais árduo do grupo. Acho que o mais difícil mesmo foi o BR3 (2006), que aconteceu no rio Tietê, porque havia o medo de cair na água contaminada.

Guia da Semana: Qual é a proposta do Vertigem em fazer encenações em locais inusitados?
Eliana: A memória do espaço é eixo fundamental do nosso trabalho. Ele está ligado diretamente ao que queremos dizer.

Guia da Semana: Essa marca do grupo não tende a se esgotar? Vocês pensam em fazer um trabalho diferente no futuro?
Eliana: O espaço sempre vem depois da ideia que se quer passar. Se o que a gente tem a dizer tiver que ser encenado em um palco convencional, não há problema nenhuma. A gente vai para lá. Não é efeito que a gente procura, mas sim a memória do espaço. O que ele tem a ver o com que queremos falar.

Foto: Nelson Kao

Roberto Audio pendurado por corda durante o espetáculo

Guia da Semana: Como é feita a escolha do lugar em que a peça será encenada?
Eliana: No caso de Kastelo, começamos a nos perguntar o que da sociedade de controle e do trabalho queríamos mostrar. E um dos temas da sociedade do controle é achar que você está inserido, mas na verdade não está. Você está sempre do lado de fora. E comecei a pensar quais são os castelos que existem hoje. E agora eles são bem definidos, são de vidro mesmo. Tudo o que é construído em São Paulo tem essa característica. E o que me levou a ir a um prédio envidraçado foi a questão do dentro e fora da sociedade de controle. O maior medo que você tem é de não se adequar. Você faz qualquer coisa para se sentir adequado a ela, e, na verdade, isso é difícil de acontecer. Há sempre uma parede de vidro te avisando que existe aquela barreira.

Guia da Semana: Você já vivenciou uma situação de perigo ao lado do grupo?
Eliana: O Beto (Roberto Áudio) caiu no Rio Tietê. Ele tinha todas as vacinas, mas foi um dia que ficamos bem tensos.

Guia da Semana: E nesta nova montagem?
Eliana: Neste, o Sesc e a Petrobrás foram muito cautelosos.

Guia da Semana: E os atores já conseguiram superar o medo?
Eliana: Eu acho que sim, mas nunca deixo que eles fiquem muito confiantes, pois tenho medo. Eu fiz uma logística que dá tempo de testar o equipamento antes de entrar em cena, porque senão eu também não fico tranquila. É no vacilo que as coisas acontecem.

Guia da Semana: Quais são os próximos trabalhos do Vertigem? Vocês já iniciaram outra pesquisa?
Eliana: Ainda não há nada concreto, mas o próximo trabalho será dirigido pelo Tó.

 Confira a trajetória do Teatro da Vertigem
1992 - O Paraíso Perdido, de Sérgio de Carvalho - A montagem ficou em cartaz na Igreja Santa Ifigênia, em São Paulo.
1995 - O Livro de Jó, de Luis Alberto de Abreu - Estreou no Hospital Humberto Primo, em São Paulo, e teve apresentações em Curitiba, Bogotá (Colômbia), Porto Alegre, Rio de Janeiro, Dinamarca, e no Festival de Artes de Ärhus, onde a companhia realizou workshop demonstrativo do seu processo de trabalho dentro da Conferência Latino Americana de Teatro.
2000 - Apocalipse 1,11, de Fernando Bonassi - Estreou no antigo Presídio do Hipódromo, em São Paulo, viajando em seguida para Lisboa (Portugal), Curitiba e Rio de Janeiro, onde cumpriu temporada no Prédio do antigo DOPS. O espetáculo também foi apresentado em Londrina, em Colônia, na Alemanha e em Wroclaw, na Polônia.
2006 - BR-3, de Bernardo Carvalho - A estreia aconteceu no rio Tietê, em São Paulo, sendo que temporada foi precocemente finalizada dois meses após seu início.
2007 - História de Amor (Últimos Capítulos), de Jean-Luc Lagarce - A peça estava vinculada à exposição sobre a trajetória dos 15 anos do grupo na galeria Olido em São Paulo.
2008 - A Última Palavra é a Penúltima
2008 - Dido e Enéas, de Henry Purcell

Confira a resenha de Kastelo

Atualizado em 6 Set 2011.

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