Guia da Semana

Brasil em busca da dominação

Formado em Berklee, o carioca João Brasil ganha terreno com composições autobiográficas e bem-humoradas


Qual pode ser a relação entre o saxofonista John Coltrane e o tecno-brega? Para muitos nenhuma, mas o músico carioca João Brasil, criou uma canção para seu segundo CD, juntando os dois extremos. Quando o escrachado músico buscava uma composição com saxofone, ao estilo das de seu ídolo, percebeu que estava muito complexa. Para que ela se adequasse aos seus desejos de dominação mundial, decidiu editar para torná-la mais popular. O resultado, que pode ser conferido em breve na internet, ficou semelhante a um dos ritmos brega do momento.

Esta mistura entre o culto e o popular não é novidade para Brasil, que na juventude compunha com amigos composições bem-humoradas com um forte apelo político. Envolvido com a música desde os 12 anos, quando tocava bateria em bandas de rock e blues, João é fã de jazz e chorinho, tendo como influências, além de Coltrane, Frank Zappa, com quem aprendeu a não levar tão a sério suas canções. Além disso, está sempre antenado no que acontece nas rádios, aproveitando para adaptar o que ouve às suas composições.

Lançando seu primeiro CD pela Lontra Music, seu estúdio, João já começa a ficar conhecido em todo o Brasil pelas canções escrachadas, ainda mais depois de ser covidado por Marcos Mion para seus programas, na MTV. Porém, o músico surpreende quando revela sua formação. Ele fez não menos do que uma das melhores faculdades do mundo, a tradicional Berklee College of Music, em Boston. "Lá é uma escola de jazzista e como eu nunca fui um virtuose em nenhum instrumento, ficava meio peixe fora d´água. Mas, ao mesmo tempo, tinham outras cadeiras em que fui me identificando, como a de produção de música eletrônica", revela.

Foi lá que aprendeu a criar sua música, que pode se assemelhar a um funk mais elaborado. A relação, no entanto, não é mera coincidência, apesar de, a princípio, não ser intencional. João também usa o gênero por acreditar que ele tem força por ser uma expressão do Rio, e que isto o aproximaria de sua pátria. Foi também este um dos motivos que João Henrique Martins Rodrigues adotou o Brasil, sobrenome de sua mãe, ainda quando vivia nos EUA, deixando de lado a idéia de ser conhecido com "algum nome escroto como Johnny Lontra, por exemplo", brinca ele.

Isto, de fato, não contrastaria com o tipo de músicas que vêm fazendo. Com a técnica das composições autobiográficas, usando vexames a seu favor, Brasil foge da definição do Complexo de Épico de Tom Zé, em que todo compositor brasileiro é sério demais. João, aliás, acredita ser este um dos problemas da música brasileira atual, já que, para ele, "depois que morreu o Mamonas Assassinas, parece que todo mundo tem medo de fazer alguma coisa que tenha algum tipo de humor". Assim, faz canções como Baranga, seu primeiro sucesso, que compôs enquanto ainda vivia em Boston. Uma homenagem às poucas mulheres que lhe davam bola por lá.

O outro problema que ele vê é que a nova MPB não representa o que se vive hoje. João não sabe o porquê disso, mas diz que "eles são talentosos, são bons músicos, pode ser pelo tempo mesmo. Hoje tudo é mais alto, mais barulhento, é gritado", por isso ele acredita que o funk está tão em alta. Não por acaso, dois dos melhores músicos brasileiros que ele considera hoje são o rapper De Leve, que gravou com ele a faixa Mamãe Virei Capitalista, e o DJ Sanny Pitbull, que toca sua Cobrinha Fanfarrona em bailes funks, na periferia.

A vantagem da música eletrônica sobre a MPB, a seu ver, também é a independência. "Na verdade eu fui fazer a coisa eletrônica na necessidade. Pensei que arrumar uma banda ia ser um saco. Tem que gravar, fazer show, mó galera", afirma Brasil. Assim, montou o estúdio quando voltou ao país, onde tem um trabalho paralelo de criação de jingles, trilhas e ringtones, além de fazer sozinho suas músicas nas horas vagas. Com formação publicitária, João tende a simplificar as canções, para ter mais apelo. "Ninguém me conhece, eu tenho que dar o primeiro grito para saberem que eu existo", revela. Com o tempo, deseja que a música vá evoluindo, porém, sem perder seu caráter pop.

A tática parece que está funcionando. Com as músicas apenas na internet, João foi procurado pela Som Livre, que lançou as canções em ringtones e quer distribuir seu primeiro CD, João Brasil e os 8 Hits, que deve ser lançado no final de fevereiro ou início de março, com shows no Rio de Janeiro, em São Paulo e onde mais convidarem. Uma das coisas que ele não quer abrir mão é do baixo preço do álbum, que é vendido em sua versão independente a R$10,00 nos shows e até R$17,00 em lojas do ramo na capital carioca.

João também faz questão de que seus fãs conheçam as músicas antes de comprar o cd, por isso, as disponibiliza no MySpace na medida em que cria, para só depois montar o álbum. A internet, para ele, é um importante instrumento, que o ex-publicitário tenta usar da melhor forma. Assim, passa horas buscando as melhores ferramentas para facilitar a vida de seus fãs. Em seu blog, coloca no ar clipes amadores criados por gente do país inteiro, o que acaba aumentando seu contato com o público. Desta forma, João Brasil vai aos poucos caminhando para atingir seu objetivo de dominação mundial. Ele acredita que está no caminho certo e sabe que não é tão rápido, mas já diz que "quando eu tiver uns 78 anos vou conseguir".

Fotos: Lucas Bori

Atualizado em 6 Set 2011.

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