Guia da Semana

Espelhos do escuro

Separando resenhas de espetáculos, colunista chegou a diversas conclusões a respeito da crítica teatral no Brasil hoje

Foto: Getty Images
O que se esperar de uma crítica? Sobretudo porque são dois os pólos - artistas e público -. A resposta não é nada simples. Como pode ser possível dialogar com extremidades simultaneamente? No Brasil de outras épocas, as resenhas críticas ocupavam espaços mais generosos nos jornais e, aos seus modos, talhavam seus contatos com ambos os leitores. E hoje? Nos últimos dias, reuni jornais não lidos, sites não visitados, e me debrucei sobre o que está sendo escrito sobre teatro.

Páginas após páginas, reais ou virtuais, a abordagem pragmática de objetivismo educativo (quando não explicativo, apenas) se revelara mecanismo dominante, ou estilo, se preferirem. No discurso das certezas, a crítica atual prostra-se à facilidade do "entendi, por isso acho que...". Essa necessidade de mostrar conhecimento, de traduzir ao público-leitor o que de certo e equivocado há em um trabalho, faz do olhar especializado, exposição determinante sobre o analisado, ainda que o que estejamos lendo seja a qualidade de uma compreensão subjetiva do trabalho, e que, por ser subjetiva, passível de discordâncias.

E aí reside o nó. Na comparação emotiva, entre as subjetivas leituras de um trabalho, no compreender que está no outro (crítico) o absoluto, mas que também o leitor e seu ponto de vista, sobretudo, se discordante, carrega a verdadeira interpretação. Ou seja, pouco importa se o crítico pensa aquilo ou isso. Para o leitor, a crítica se limita a alguém que tem espaço na mídia e que poderia ser qualquer um. Será mesmo?

A resposta em defensiva é o que lemos em muitas das resenhas atuais: o exibicionismo de conhecimento capaz de reunir datas, nomes, fatos, história em vinte e poucas linhas, quando muito. Ao fim, portanto, as críticas se aproximam a compêndios de informação enciclopédica do que, necessariamente, discursos e observações. E do que me adianta algo que depois de lido descarto com um simplório "eu não acho isso"?

A falência da crítica reflete a desimportância do diálogo no contemporâneo em seus diversos percursos. Por um lado, as críticas se limitam a traduzir e explicar os espetáculos, usando de contextualizações comparativas. Por outro, abandonam os artistas ao se resumirem a olhares posicionados a partir de um julgamento antecipado. Como deveria ter sido, o porquê está certo, o que faz sentido... O julgamento domina as resenhas sobre qual princípio? O da expectativa idealizada do observador.

E nessa centralização do ponto original, do valor correto, o crítico se afasta da própria cena, distancia-se do teatro e do artista, enquanto busca enxergar de longe seu reflexo. O que parece ser a função da crítica - trazer um olhar preparado sobre o outro -, na verdade, se revela distorção. Não cabe ao crítico julgar, mas entender. E não basta entender o todo, mas os porquês ativados no resultante final, que mesmo os artistas não perceberam. É preciso que o crítico se faça o outro e traga ao criador a dimensão de sua cria. Positiva ou não, uma crítica deve abster-se de achismos para se permitir contaminável pela verdade da sugestão oferecida. Somente assim, se descobrindo o outro nele mesmo, é que o crítico será capaz de julgar. Não como juiz imparcial, mas na parcialidade do autojulgamento, agora que ele se travestiu do próprio artista.

Não encontrei nas críticas e resenhas que li, quem se permitiu ser o outro, apenas quem do outro fez um outro de si. E não me parece ser esse o caminho mais saudável nem para a crítica, nem para o artista, nem para o público. É preciso virar o espelho para o lado certo, antes de qualquer tentativa de criar reflexos.

Um pouco mais longe, há um excessivo tom de competição ginasial nas críticas recentes. O novo melhor, a revelação, o possível gênio... Enquanto a crítica se colocar como prêmio, numa óbvia tentativa de se fazer ainda necessária, os artistas serão educados a se confrontarem, à disputa pelo lugar mais alto no pódio, viciados àquilo que o critico determinou (através de toda subjetividade abordada anteriormente) por correto, acerto, melhor etc. Se muito dessa disputinha patética que envolve os artistas e coletivos, é sim reflexo de sobrevivência mercadológica, é também porque o desenho desse mercado se faz e formaliza através de pareceristas supostamente preparados ao julgo e escolha.

E não há como ignorar, ser a mídia a face pública do mercado cultural. E, por conseguinte, o crítico ser parecerista. É evidente que a mídia tem lá seus interesses em manter ou destronar, muito mais do que trazer princípios para reflexão, transformando o crítico em marionete, cujo principal valor está na submissão como troca por sua existência. Sem mídia, sem crítica. Sem este, sem parâmetro comparativo. Parece uma boa ideia, não é? Mas sem isso, sem reflexões e diálogos.

O que se esperar de uma crítica, então? Nada. Apenas uma boa conversa de bar. A convivência ao redor de uma mesa centrada, não em um botequim, mas no desejo da descoberta, do desafio dialético e efêmero, que dura o intervalo entre o sair de um espetáculo e o tocar as teclas do computador. Tratar o diálogo como uma conversa inesperada é a grandeza maior que a crítica pode oferecer ao artista e ao público. Ao primeiro, o desafio de se reconhecer onde não se percebia existir, ao segundo, a sensação de participação em algo relevante.

A responsabilidade, portanto, da crítica vai além da análise. É ela quem expõe as entrelinhas de uma época e subtrai os discursos que a desenharão a história. Face ao impossível, hoje, enquanto não nos atermos à importância da cultura na constituição do sujeito, não teremos a cultura como fundamental nos meios de comunicação e, portanto, a crítica estará condicionada a luxo editorial. O que se esperar de uma crítica, talvez não seja a pergunta certa, e sim por que as ter. E isso, ainda que enxergue respostas, não consigo responder. Convivamos, então, na maneira que der...

Leias as colunas anteriores de Ruy Filho:

Duas vezes Antunes
 
Mistura de Estilos

Teatro Experimental

Quem é o colunista: Ruy Filho.

O que faz: Diretor e dramaturgo.

Pecado gastronômico: Carpaccio de pato do Piselli.


Melhor lugar do Brasil: Salvador fora de temporada.


Fale com ele: ruyfilhosp@yahoo.com.br ou acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

Compartilhe

Comentários

Outras notícias recomendadas

5 hotéis ao redor do mundo que são verdadeiras obras de arte

Confira locais com acomodações incríveis, mas que têm obras como protagonistas

Evolução dos emojis ganha instalação no Museu de Arte Moderna de NY

Os primeiros emoctions, criados em 1999, também entram para a coleção MoMA

6 motivos para visitar a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano em SP (e nem perceber que está na capital)

Local une arte, cultura, lazer, arquitetura e natureza, fazendo com que o visitante esqueça que está em SP

13 grafites em SP que todo mundo que ama arte deveria ver pessoalmente

Confira obras espalhadas pela cidade que merecem sua atenção

Na Semana da Criança, uma selfie vale um passaporte nos museus de SP; entenda

Para participar, é só postar foto com uma criança no Facebook com a hashtag #MuseusSP e apresentar na bilheteria da Pinacoteca, Casa das Rosas ou do Museu da Imigração

Unibes Cultural oferece programação especial e gratuita para o mês das crianças

Evento acontece até dia 31 de outubro e comemora o Mês das Crianças